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REPORTAGEM

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Melhor do país, Thaisa se aposenta da seleção e não vai a Tóquio

Yves Herman/Reuters
Imagem: Yves Herman/Reuters
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

06/04/2021 19h32

Eleita a melhor jogadora da Superliga Feminina de Vôlei, torneio que conquistou ontem (6) com o Minas Tênis Clube, a central Thaisa está fora da seleção brasileira. A atleta de 33 anos decidiu que não irá aceitar a convocação do técnico José Roberto Guimarães e deixará de jogar pela seleção. Assim, não irá aos Jogos Olímpicos de Tóquio.

"Inevitavelmente, todos querem saber se estarei com a seleção brasileira nas próximas competições - inclusive a Olimpíada de Tóquio. Mas, infelizmente, a resposta é não. Hoje, despeço-me da seleção com muita, muita mesmo, dor no peito. São mais de 14 anos dedicados a defender nosso país na seleção adulta - (18 considerando a base) - e , sempre com garra e respeito que a bandeira merece", escreveu Thaisa em carta aberta enviada ao blog pela assessoria de imprensa da atleta.

"Nunca faltou amor e entrega nesta história linda para os dois lados. E é exatamente por não conseguir mais dar esta entrega, física e mental, que eu encerro minha história com a seleção. Os últimos anos foram duros para o meu corpo, convivendo com dores diariamente. Não consigo ajudar ao grupo todo da forma como gosto e entendo que seja necessária. Preciso descansar e respeitar, mais do que tudo, o meu corpo, que é minha ferramenta de trabalho. Pensando na longevidade da minha carreira em clubes, é hora de me recuperar. Conversei com meus médicos e familiares e chegamos a esta conclusão", continuou. Leia a carta na íntegra ao fim do texto.

A jogadora, que em maio do ano passado concedeu uma longa entrevista para o UOL, vinha convivendo com problemas físicos que não a impediram de ser o principal destaque da Superliga. Há um ano, ela já antecipava o debate que viria agora: jogar mais pela seleção e correr o risco de encurtar a carreira, ou seguir balanceando clube e descanso, sem seleção.

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"Tenho três cirurgias no joelho, foi muito grave, poderia não estar jogando mais. Preciso poupar meu joelho para continuar jogando. Tenho que ter todo um cuidado no treinamento, porque hoje meu joelho tá ótimo, mas tem que ter um controle, ele já não é mais o mesmo. Cada ano sem folga é uns dois ou três anos úteis que eu estou perdendo. Tem que botar muita coisa na balança", ela disse na época. Acabou prevalecendo a vontade de se poupar.

Thaisa foi campeã mundial juvenil em 2006 e no ano seguinte chegou à seleção adulta. Desde então é uma das principais jogadoras do país, ajudando a levar a equipe ao bicampeonato olímpico em 2008 e 2012. Depois de uma grave lesão no joelho esquerdo em 2017, foi abandonada por um clube turco e voltou ao Brasil para se tratar e acabou reforçando o Barueri de Zé Roberto. Voltou ao altíssimo nível e foi contratada pelo Itambé/Minas, que ela liderou ao título nacional.

Sem a central, Zé Roberto tem um problemão para Tóquio, afinal, a outra craque da posição no país, Fabiana, está grávida e também não irá à Olimpíada. Tudo indica que o treinador dará nova chance à veterana Carol Gattaz, de 39 anos, que também foi muito bem na Superliga pelo Minas. Mas as outas vagas estão completamente em aberto.

A noite de 05 de abril de 2021 ficará marcada na minha vida. Depois de um período difícil na minha carreira, marcado por lesões, dúvidas, incertezas, e em meio a uma pandemia que entristece o mundo, eu consegui sorrir novamente com o vôlei. Sorri e chorei. Cada lágrima derramada ontem era uma dificuldade que eu superei. Voltar a ser campeã da Superliga, jogando em alto nível, era algo que ninguém, há três anos, acreditava que eu seria capaz. E eu consegui. Com o apoio da minha família, do meu noivo, das minhas companheiras e comissão técnica do Itambé Minas, amigas, voltei a sentir o gosto de levantar um troféu depois de quase cinco anos.

Mas, sempre temos o amanhã. É a lei da vida. Passado, presente e futuro. E depois de um dia histórico para mim ontem, hoje, o 6 de abril de 2021, também será um dia que lembrarei para sempre. É um dia que interfere, definitivamente, no meu futuro. Hoje tomei uma das decisões mais difíceis da minha carreira como atleta profissional.

Inevitavelmente, todos querem saber se estarei com a Seleção Brasileira nas próximas competições - inclusive a Olimpíada de Tóquio. Mas, infelizmente, a resposta é não. Hoje, despeço-me da Seleção com muita, muita mesmo, dor no peito. São mais de 14 anos dedicados a defender nosso país na seleção adulta - (18 considerando a base )- e , sempre com garra e respeito que a bandeira merece. Nunca faltou amor e entrega nesta história linda para os dois lados.

E é exatamente por não conseguir mais dar esta entrega, física e mental, que eu encerro minha história com a Seleção. Os últimos anos foram duros para o meu corpo, convivendo com dores diariamente. Não consigo ajudar ao grupo todo da forma como gosto e entendo que seja necessária. Preciso descansar e respeitar, mais do que tudo, o meu corpo, que é minha ferramenta de trabalho. Pensando na longevidade da minha carreira em clubes, é hora de me recuperar. Conversei com meus médicos e familiares e chegamos a esta conclusão.

Quero agradecer especialmente ao Zé Roberto e toda sua família que foram fundamentais neste retorno , além da comissão técnica e todos os que me acompanharam nesta caminhada. Sem o esforço, apoio e incentivo de cada um, não sei se chegaria tão longe. O meu muito obrigada a todas as minhas companheiras que estiveram ao meu lado, dividindo viagens, concentrações, alegrias e tristezas. Carregarei sempre comigo cada lembrança.

Estarei daqui , vibrando e torcendo pelo Brasil, junto com toda a população e, especialmente, com os amantes do voleibol. Estarei sempre à disposição para ajudar e, mais do que tudo, gritar e comemorar nossas conquistas. Gratidão! Thaísa Daher