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Olhar Olímpico

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Em meio a crise democrática, oposição tem vitória isolada no atletismo

Wlamir e Warlindo, candidatos a presidente da CBAt - Wagner do Carmo/CBAt
Wlamir e Warlindo, candidatos a presidente da CBAt Imagem: Wagner do Carmo/CBAt
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

30/03/2021 20h26

A se olhar pelos resultados das urnas, está tudo lindo, maravilhoso no esporte olímpico brasileiro. A satisfação é tanta que todos os presidentes de confederação que tentaram a reeleição ou indicaram um sucessor saíram vitoriosos durante o processo de renovação de mandatos, que termina amanhã (31). A única exceção foi registrada hoje (30): Wlamir Motta Campos venceu Warlindo Carneiro Filho, candidato à reeleição, e é o novo presidente da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt).

Wlamir, que era vice-presidente, venceu nas urnas, por 40 votos a 26, mas antes precisou vencer na Justiça. A comissão eleitoral, montada por indicação de Warlindo, acatou uma tese alegando que a chapa opositora tinha um funcionário público, o que seria proibido, e impugnou a candidatura. A chapa de Warlindo tinha dois funcionários públicos. A Justiça proibiu, antecipadamente, que a comissão impugnasse a chapa de oposição no dia da eleição.

Consultor legislativo, Wlamir conseguiu o que outros fortes candidatos de oposição em confederações importantes não conseguiram: driblar um sistema feito para a situação vencer. No hipismo, a oposicionista Bárbara Laffranchi tinha mais votos declarados entre os membros do colégio eleitoral, mas seus aliados foram sendo impedidos de votar. Duas assembleias foram realizadas, uma por cada grupo, e é a Justiça que vai decidir o que fazer. Por enquanto, o candidato da situação, Kiko Mari, é quem manda, mas sua gestão não é reconhecida pelo grupo majoritário de atletas.

No surfe, a Justiça decidiu que a eleição não poderia acontecer porque o processo tinha diversas irregularidades —entre as citadas está o fato de o endereço para entrega de documentos não existir. A CBSurfe, porém, realizou a votação mesmo assim. Praticamente somente os aliados da situação votaram e Adalvo Argolo se reelegeu. Na semana passada, contudo, a Justiça anulou o resultado. Argolo continua no cargo, mas precisa convocar outra eleição e antes disso, terá de abrir votação para os atletas escolherem seus representantes democraticamente.

Falta muita coisa ao esporte olímpico brasileiro, mas falta principalmente espírito democrático. E não só no olímpico. Descumprindo a Lei Pelé, a CBDV, que gere os esportes para Deficientes Visuais, realizou sua eleição sem a participação de 1/3 de atletas. No badminton, os votos dos atletas só foram abertos depois que estava assegurada matematicamente a vitória da situação.

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No levantamento de peso, a chapa de oposição foi impugnada a pedido do pai do presidente Enrique Monteiro, que se reelegeu. No basquete, Guy Peixoto venceria na urna (como venceu) com facilidade, mas preferiu se perpetuar no cargo na canetada, com o Conselho de Administração impugnando a chapa de oposição. Foi necessário, mais uma vez, a intervenção da Justiça, que autorizou a oposição a participar. Outras eleições, como a da confederação de canoagem, estão sendo discutidas judicialmente. A do vôlei, em arbitragem.

São muitos exemplos comprovando que o sistema foi feito para que quem está no poder continue comandando, o que acaba colocando em xeque também votações que não são contestadas judicialmente, mas nos bastidores, com as mais diversas acusações de beneficiamento. Incluem-se neste sistema reeleições para terceiro ou mais mandato que, segundo interpretações do dispositivo 18-A da Lei Pelé, são irregulares. José Luiz Vasconcellos (ciclismo), Enrique Monteiro (levantamento de peso), Alaor Azevedo (tênis de mesa) e Toroca (vôlei) se encaixam nesse perfil e, por isso, suas confederações podem perder acesso a recursos públicos.

Nos bastidores, discute-se a tese de que existe um complô entre presidentes de confederações, COB e um grupo de advogados para continuarem no poder, o que incluiria decisões questionáveis de comissões eleitorais. Particularmente, não sou adepto desta tese. Acho que o sistema existe em cada confederação, mas de forma desorganizada no esporte. Um exemplo: o mesmo advogado que participou do processo eleitoral viciado do surfe atuou na única vitória de oposição, no atletismo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL