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Olhar Olímpico

REPORTAGEM

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Judô abandona CT que custou mais de R$ 40 milhões

Centro Pan-Americano de Judô - Marcelo Reis/Setre/Divulgação
Centro Pan-Americano de Judô Imagem: Marcelo Reis/Setre/Divulgação
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

09/03/2021 04h00

Faltavam dois anos para o início dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro quando políticos e dirigentes do judô lotaram um palco para inaugurar aquele que deveria ser o futuro de uma das modalidades mais vitoriosas do país: o Centro Pan-Americano de Judô. Construído com verbas do governo federal (R$ 19,8 milhões), do governo da Bahia (R$ 18,3 milhões) e da Confederação Brasileira de Judô (R$ 5,1 milhões), o CT em Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador, passaria a ser a casa do judô.

"O projeto atende todas as exigências da Federação Internacional de Judô. Com certeza, o CPJ é um marco na história do judô brasileiro e das Américas. Um novo ciclo se inicia a partir de hoje", festejou na época o então presidente da CBJ, Paulo Wanderley Teixeira, hoje presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB). O ciclo, porém, durou apenas quatro anos. No fim de 2018, o prédio foi devolvido à Superintendência dos Desportos do Estado da Bahia (Sudesb).

O alojamento para 72 atletas nunca teve residentes. Um ginásio climatizado para treinamentos e competições, um auditório para 200 pessoas, a academia, o restaurante, a piscina semi-olímpica, a quadra poliesportiva de 18x36m², as salas de apoio e a arquibancada para 1.900 lugares foram pouco usados.

"Finalizado o ciclo olímpico, mesmo antes da Olimpíada do Rio, o centro não foi utilizado como prioridade pela confederação. Quando ele voltou para o estado, o argumento é que a CBJ não tinha condição de bancar o custeio do equipamento, que hoje é de R$ 1 milhão por ano. Em 2016, ele já não era o centro de referência da modalidade. Deixou de ser antes mesmo de existir", avalia Vicente Neto, diretor geral da Sudesb.

O Centro Pan-Americano de Judô foi pensado para ser um dos legados da Olimpíada no país. O projeto do Ministério do Esporte de então previa a construção de uma Rede Nacional de Treinamento espalhada pelo país, com estruturas voltadas ao esporte de alto rendimento construídas com recursos públicos federais, estaduais e municipais e, depois, administradas pelas modalidades. O vôlei, por exemplo, ganhou um CT em Saquarema (RJ). O badminton, um CT em Teresina (Piauí). O handebol, em São Bernardo do Campo (SP).

Mas as confederações dependem do orçamento para manter essas estruturas funcionando. E a CBJ alega que, a partir de 2017, perdeu 30% das receitas de patrocínio. "Nesse cenário, visando manter a instalação, a confederação buscou alternativas com o objetivo de gerar novas receitas que pudessem cobrir os altos custos de manutenção do CPJ", diz a entidade, que conseguiu um aditivo no contrato de concessão para transformá-lo em "multiuso".

"Mesmo com a realização de diversos eventos, de caratê, ginástica, tênis de mesa, badminton e wrestling, entre outros, as receitas não cobriam as despesas do centro. Foi elaborado também, em parceria com a Sudesb, um projeto para captação de recursos junto ao Ministério do Esporte para adquirir bens e para a manutenção do Complexo. Todavia, devido ao contingenciamento do Ministério do Esporte, tais recursos não foram liberados", explica a CBJ.

A Sudesb, porém, lembra que a confederação já utilizava um hotel em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, como CT da seleção. Esse hotel transformou um galpão em um enorme tatame e recebe atletas convocados pela CBJ e também estrangeiros (antes da pandemia) e outros brasileiros convidados a treinar com a elite do judô brasileiro.

"Em Pindamonhangaba, atualmente, encontramos uma estrutura excelente nas instalações do Hotel Colonial Plaza, que atende às necessidades de preparação dos atletas em alto rendimento e oferece um modelo viável do ponto de vista econômico, técnico e de logística. Além disso, utilizamos também o Centro de Treinamento do Time Brasil, no Rio de Janeiro (dojô, sala de força, fisioterapia, massoterapia, etc), e instalações militares, como o Cefan e a Esefex", explica a CBJ.

Enquanto isso, o centro de Lauro de Freitas sofre com a salinidade intensa. "Ele fica em frente à praia, então toma banho de sal 24h por dia. Todo equipamento de combate a incêndio precisa ser trocado. O centro tem placas de metal para isolamento térmico e várias estão com ferrugem", conta Neto, que deve lançar uma licitação para reforma de R$ 3 milhões no centro em breve.

Por conta da pandemia, as atividades no centro estão suspensas, mas a ideia é que, reformado, o local se torne um centro multiesportivo com seis modalidades, incluindo futsal, break (nova modalidade olímpica) e basquete 3x3. O alojamento deverá ser adaptado para se tornar um hub para as federações esportivas baianas, que passariam a ter espaço ali. "Precisamos que a destinação seja adaptada à realidade. A ideia nossa não é ter um centro regional, mas um polo nordeste", continua o diretor da Sudesb.

No sábado (6), Sílvio Acácio Borges foi reeleito presidente da CBJ, com o voto de 20 federações, 19 atletas e dois clubes. O candidato inicialmente lançado pela oposição, o paulista Chico do Judô, faleceu de covid durante o processo eleitoral. Chico foi substituído por Fernando Moimaz, que foi votado por cinco federações e quatro atletas.