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Opinião: Japão já não quer Olimpíada; desafio é convencer país a esperar

Primeiro-ministro do Japão, Yoshihide Suga, durante entrevista coletiva em Tóquio -
Primeiro-ministro do Japão, Yoshihide Suga, durante entrevista coletiva em Tóquio

22/01/2021 04h00

Quatro em cada cinco japoneses achavam, nos primeiros dias de janeiro, que os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Tóquio deveriam ser cancelados ou suspensos, de acordo com uma pesquisa da Kyodo News, agência de notícias japonesa. Na quarta-feira (20), o prefeito de Osaka, Ichiro Matsui, disse ao jornal The Mainichi achar que o Comitê Olímpico Internacional (COI) deveria adiar os Jogos de Tóquio para 2024, e os de Paris para 2028. Ontem (21) o jornal britânico The Times relatou que autoridades japonesas já decidiram que a Olimpíada precisa ser cancelada e que o foco deve ser tentar sediar o torneio em 2032, depois de Los Angeles. O problema, de acordo com o Times, é resolver como desembaraçar os diversos nós contratuais com o COI, patrocinadores, detentores de direitos de transmissão, fornecedores, federações, etc.

Do outro lado do mundo, é difícil entender como pensam autoridades japonesas que têm uma relação tão formal com a imprensa. Mas a escalada de notícias, de declarações e de gestos leva para um caminho claro: o Japão não quer mais organizar a Olimpíada de Tóquio. Ao menos não enquanto o coronavírus está no ar. O resto do mundo pode até querer que a festa siga marcada, mas o dono da casa já perdeu o entusiasmo.

E não é para menos. O Japão vive, por esses dias, a pior fase da pandemia no país. Os números podem ser quase irrisórios na comparação com impacto do coronavírus em países que levaram o combate à doença menos a sério, como o Brasil, mas são grandes para a realidade local. Até meados de novembro, a média móvel semanal de novos casos não chegava a mil por dia no Japão inteiro. Desde o começo do ano, está acima de cinco mil. Agora, acima de seis mil. Somente em Tóquio são mais de mil casos por dia.

Por causa desse aumento de casos, várias regiões do Japão entraram em estado de emergência, incluindo a capital. A autorização para que atletas tenham entrada facilitada no país foi retirada. Há quatro dias, na abertura do ano legislativo, o primeiro-ministro Yoshihide Suga prometeu controlar a pandemia "o mais rápido possível", disse que estará na linha de frente da batalha e afirmou que o Japão continuaria com os preparativos para a Olimpíada.

Governo japonês e COI têm dito, há meses, que a vacina não poderia ser uma condição para a Olimpíada. Mas a organização de eventos internacionais sem vacina tem sido um fracasso. Num gesto mais político do que de bom senso, o handebol está organizando seu Mundial, no Egito, país do presidente da federação internacional da modalidade. Dos 32 países participantes, dois desistiram literalmente na véspera, por surtos de Covid. Um saiu da competição no meio, porque ficou sem elenco suficiente para entrar em quadra. O Brasil está sem técnico e sem três jogadores. Um quarto jogador ficou ausente de uma partida porque testou positivo — dois dias depois descobriu-se que havia sido um falso positivo.

Esse é somente um Campeonato Mundial, com 32 países e 640 atletas. Agora multiplique os riscos e as precauções que precisam ser tomadas em uma Olimpíada que terá 12 mil atletas de 32 esportes, com todos os desafios de logística, de hospedagem, de transporte etc. Por exemplo: no Rio, os atletas viajavam da Vila Olímpica para o local de competição em ônibus urbanos, desses que a população carioca toma todo dia, naturalmente exclusivos para os competidores durante os Jogos. Como fazer que ninguém se contamine no busão?

A única opção para uma Olimpíada segura parece ser a vacina. O problema é que a distribuição global é muito pouco organizada. Os países estão discutindo agora para quem vão vender, de quem vão comprar, quantas doses, para vacinar quem, quando, onde. E, sendo uma decisão de cada país, como o COI, ou o Japão, pode cobrar que o Brasil, por exemplo, priorize a vacina de um atleta, alguém saudável, antes de qualquer pessoa que corre mais risco?

E mesmo a solução que parece mais óbvia — o COI dando um jeito de conseguir vacina para todos os atletas — passa longe de ser suficiente. As vacinas não começam a surtir efeito no instante da primeira dose. No basquete, por exemplo, os Pré-Olímpicos são realizados poucas semanas antes da Olimpíada. O COI teria de vacinar todo mundo que vai jogar o Pré-Olímpico? E, mais: muitas modalidades preveem eventos de qualificação para fevereiro, março, abril etc, afinal, apenas 57% das vagas olímpicas estão decididas. Como realizar essas competições sem colocar os atletas em risco, como o Mundial de Handebol está fazendo?

O COI parece acreditar que, com calma, tudo se ajeita. O órgão tem sido assertivo de que a Olimpíada vai acontecer, aconteça o que acontecer. Foi esse o recado que Tomas Bach passou ontem (21) em reunião com membros do COI e que ele disse, depois, em entrevista para a agência Kyoto News.

"Não temos, neste momento, nenhuma razão para acreditar que os Jogos Olímpicos de Tóquio não serão abertos no dia 23 de julho no estádio Olímpico de Tóquio. É por isso que não existe um plano B e é por isso que estamos totalmente comprometidos em tornar estes Jogos seguros e bem-sucedidos", disse ele.

Bach repetiu que os meses de março e abril serão fundamentais e que nenhuma decisão drástica será tomada até lá, ao menos não pelo COI. O dirigente acredita que, daqui a dois ou três meses, já estará mais claro o panorama da vacinação no mundo inteiro. A dificuldade parece ser convencer o Japão a esperar.

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