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Confederação teve esposa de presidente como sócia oculta em empreendimento

Arena Ice Brasil - Divulgação
Arena Ice Brasil Imagem: Divulgação
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

20/01/2021 04h00

Uma das confederações que fica com fatia menor do bolo na divisão que o COB faz dos recursos da Lei Agnelo/Piva, a Confederação Brasileira de Desportos no Gelo (CBDG) decidiu arriscar. Em 2019, lançou o projeto de um empreendimento em São Paulo com pistas de patinação no gelo e de curling, além de bar e espaço de coworking. Sem dinheiro, foi atrás de "sócios ocultos" para montar especificamente a pista de patinação, que custou R$ 1,5 milhão, entre eles a esposa do presidente Matheus Figueiredo, uma cunhada e um cunhado dele.

Os planos foram apresentados para a imprensa em outubro de 2019. Na ocasião, Figueiredo disse que a expectativa era de que a Arena Ice Brasil faturasse ao menos R$ 5 milhões por ano. O negócio, porém, sempre foi arriscado. O custo de refrigeração de pistas de patinação e curling é muito alto e só o aluguel do espaço, um galpão anexo ao Extra da Marginal Pinheiros, custa R$ 40 mil ao mês.

Para montar o negócio, a confederação ofereceu 25 cotas de R$ 75 mil cada. A CBDG segue como "sócia ostensiva", o que significa que 100% das decisões são dela, mesmo tendo apenas 18,1% das cotas — tendo investido R$ 272 mil. Por causa dessa configuração, o negócio tem o mesmo tratamento fiscal da própria CBDG, ou seja, isenção de impostos federais.

Durante assembleia geral realizada em dezembro de 2019, os clubes e atletas com direito a voto permitiram que "pessoas ligadas à confederação", incluindo atletas e parentes de dirigentes, investissem no projeto, desde que fosse "de forma totalmente transparente e publicizada no site da CBDG".

Mais de um ano depois, Figueiredo alegou, ontem (19) pela manhã, que "há entendimento jurídico que em uma SCP (Sociedade em Conta de Participação) os investidores não devem ser publicados", mas que estava "verificando" com os mesmos uma aprovação formal para apresentar os nomes no site. À tarde, publicou um relatório assinado por ele no mesmo dia, com os nomes dos investidores e os valores investidos.

As planilhas mostram que Bruna Timm Stern, esposa do presidente da confederação, chegou a ser dona de 14,33% do negócio. Sua irmã Danila detém mais 5%, e o companheiro dela, Ronaldo Castanheira, outros 5%. No total, a família do presidente chegou a responder por quase 1/4 da sociedade. Hoje, tem 10%, nos nomes da cunhada e do cunhado do presidente.

Figueiredo diz que sua esposa saiu da sociedade em agosto, depois de sua participação ser criticada na assembleia de julho, quando ele exibiu pela primeira vez a lista de investidores aos clubes e atletas. "Frente ao grupo que eu estava relacionando, fizemos tudo da forma mais ética possível, da forma mais transparente possível, com opinião assertiva de todos. A partir do primeiro comentário ao contrário, ela saiu", afirma.

Segundo o presidente, todos os sócios ocultos foram apresentados a quem de direito, a assembleia geral da confederação. A esposa dele foi exceção porque ela integralizou cotas no início de 2020 e seria apresentada em "março/abril", mas a pandemia impediu. Na verdade, ela fez o primeiro aporte em dezembro de 2019. Bruna vendeu sua participação em 1º de agosto para Helidiana de Araújo, mas sua irmã e seu cunhado seguem na sociedade.

Para montar o negócio, que foi aberto (ainda em fase experimental) dias antes do início da pandemia, a confederação se endividou. Para construir a pista de curling, tomou US$ 150 mil (R$ 794 mil) emprestados da Federação Internacional de Curling, em condições vantajosas: tem 10 anos para pagar, com três anos de carência. Mais de R$ 150 mil que estavam em caixa da confederação também foram colocados no negócio.

Ainda que, fisicamente, a Arena Ice Brasil seja uma coisa só, os centros de custo foram separados. A pista de patinação no gelo é um negócio à parte, cujos lucros serão divididos entre os investidores. Já a pista de curling é, oficialmente, um "centro de treinamento" da confederação. Com essa denominação, pode receber recursos da Lei Agnelo/Piva. O local reabriu no dia 5 de dezembro e, aos sábados, oferece feijoada.

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