PUBLICIDADE
Topo

Olhar Olímpico

Morre Braguinha, mecenas de Guga, Senna, Fittipaldi e muitos outros

Braguinha com Fittipaldi e Senna - Reprodução/Facebook
Braguinha com Fittipaldi e Senna Imagem: Reprodução/Facebook
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

12/01/2021 15h11

Morreu hoje uma das figuras mais importantes do esporte brasileiro em todos os tempos, ao menos entre aqueles que nunca ganharam nenhum título importante. Antônio Carlos de Almeida Braga, conhecido como Braguinha, foi o grande incentivador financeiro de alguns de nossos principais ídolos, entre eles Guga e Senna. Ajudou financeiramente Pelé quando o Rei quebrou. Banco a primeira campanha olímpica dos irmãos Torben e Lars Grael. O vôlei só se tornou o que é hoje depois que ele inaugurou o patrocínio esportivo corporativo no Brasil, com a equipe Atlântica Boavista. O banqueiro tinha 94 e faleceu em Portugal, para onde havia se mudado no ano passado.

"Seleção brasileira de futebol, vôlei, seleção olímpica, Pelé, Ayrton Senna, Guga e muitos outros. Em nome de todos quero agradecer tudo que você fez por nós, sempre apoiando e honrando o esporte brasileiro", escreveu Emerson Fittipaldi no aniversário de 94 anos de Braguinha, em julho. A relação entre os dois começou assim: o então dono de uma companhia de seguros bateu a campainha da casa do piloto estreante na Fórmula 1 e disse que queria ajudá-lo sem pedir nada em troca. O apoio ajudou Emerson a ser bicampeão mundial.

Torcedor fanático pelo Fluminense, clube do qual era sócio benemérito, Braguinha foi a todas as Copas do Mundo, desde 1950. Depois, a partir de 1972, também passou a frequentar os Jogos Olímpicos e torneios como Roland Garros, onde era figurinha carimbada desde a década de 1970 — tinha um camarote na quadra central.

O torcedor abastado virou também patrocinador, ajudando a formar atletas que seriam seus ídolos e amigos. Muitas vezes, depois de jogos e campeonatos onde estava como torcedor, ia até o atleta e oferecia um valor em dinheiro, um bicho, sem pedir nada em troca. Aposentado há 34 anos, dono de uma fortuna calculada na casa de algumas centenas de milhões de reais, curtia a vida ajudando o esporte.

Nos anos 80, ajudou a impulsionar o vôlei, depois de assistir a seleção masculina ir bem em Moscou. Contava que perguntou ao então presidente da CBV, Carlos Arthur Nuzman, o que o vôlei precisava para deslanchar. Ouviu que precisava que alguém ajudasse financeira. Ele o fez.

O apoio ao vôlei veio pela criação da equipe Atlântica Boavista, que passou a reunir a nata do esporte no país. Nomes como Bernard, Bernardinho, Renan, Xandó, Badalhoca e Fernandão, que seriam medalhistas de prata em 1984. O técnico da equipe criada por Braguinha seria Bebeto de Freitas, que depois se consolidaria como um dos maiores da história. Bernardinho, entre tantos outros, virou seu amigo. Zé Roberto Guimarães recentemente estreou no hipismo com um cavalo da família de Braguinha.

Um causo é clássico: Bebeto estava na Itália e foi convidado para jantar com Braguinha e Ayrton Senna antes do GP de Ímola. Foi de carro popular, que dava muitos problemas, parou distante do hotel, e foi ao encontro dos demais, que pediram carona. Bebeto então foi dirigindo com o veículo caindo aos pedaços e Ayrton Senna no banco de trás, discursando sobre segurança.

Quando o assunto é Braguinha, os ídolos se misturam. Em sua biografia, Guga conta que ainda era um moleque em começo de carreira quando foi convidado a ir a Estoril se encontrar com Braguinha e Senna. O encontro não aconteceu porque Senna morreu na véspera, para tristeza de Braguinha, que o tinha como filho, em quem apostou desde garoto.

Em rara entrevista à Veja Rio, em 2013, contou que no dia da morte de Senna, estava ao lado do tricampeão em Ímola quando Ron Dennis, dono da McLaren, passou por eles e só cumprimentou Braguinha, deixando Senna no vácuo. Foi a última lembrança de Braguinha com o amigo, com quem passava boa parte do seu tempo naquela primeira metade dos anos 1990. Depois da morte de Senna, o mecenas abandonou a F1.

Sua alegria passou a ser acompanhar Guga. "A primeira vez que eu cheguei a Roland Garros, eu entrei de gaiato, não tinha nem ingresso. Foi o Braguinha quem me fez acreditar que o sonho era possível, que eu poderia me tornar campeão", contou o ex-jogador, em 2015. Foi Braguinha quem bancou as primeiras viagens internacionais de Guga, ainda juvenil, a partir dos 16 anos. Fanático por tênis, Braguinha ainda patrocinou outros atletas, com Teliana Pereira, e outros que não tiveram o mesmo sucesso.

Sua influência foi enorme. O escritório da Fifa no Brasil, por exemplo, ficava em um espaço emprestado por ele, que era amigo pessoal de João Havelange. Ainda assim, o que se sabe sobre o que ele fez pelo esporte brasileiro parece ser parte pequena do todo. Braguinha deu poucas entrevistas ao longo das últimas décadas. Não gostava de se promover.