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Judô brasileiro 'inocenta' Rafaela após doping tirá-la da Olimpíada

Rafaela Silva ganhou a medalha de ouro na categoria leve pela primeira vez no Pan - Wander Roberto/COB
Rafaela Silva ganhou a medalha de ouro na categoria leve pela primeira vez no Pan Imagem: Wander Roberto/COB
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

23/12/2020 04h00

O doping é sempre um estigma. Atletas que têm resultado positivo para substância proibida e acabam suspensos são, quase sempre marginalizados. Uma das principais esportistas brasileiras contemporâneas, Rafaela Silva está fora dos Jogos Olímpicos de Tóquio após uma suspensão de dois anos ser validada em última instância, pela Corte Arbitral do Esporte (CAS). O judô brasileiro, porém, segue acreditado em sua inocência.

"O dia 21 de dezembro marca para sempre a Rafaela Silva e o judô brasileiro. Ela é a única a ter o título de campeã olímpica e mundial, mas tenho certeza que terá força necessária para superar mais esse obstáculo, colocar o seu judogui e voltar mais forte para Paris 2024. A Rafa é mulher guerreira, atleta irrepreensível, ética, digna...", escreveu no Instagram o gestor de Alto Rendimento da Confederação Brasileira Judô (CBJ), Ney Wilson.

Diretor de esporte do COB, Jorge Bichara disse ao blog que acredita na inocência de Rafaela, apesar da sentença. "Ela sempre foi muito atenta a questão do controle de dopagem, Não usa suplementos e tem medo até de usar remédios. Sigo acreditando que a Rafaela é inocente", afirmou.

Dirigentes, técnicos e atletas têm certeza que Rafaela não teve culpa pelo teste positivo para fenoterol, uma substância proibida que tem efeito broncodilatador e é usualmente usada no tratamento de doenças respiratórias. O fenoterol causa aumento de performance à medida que a troca gasosa entre o sangue e o pulmão.

A campeã olímpica, porém, não conseguiu provar que a substância entrou em seu organismo sem que ela tivesse dolo. Inicialmente Rafaela contratou o advogado Bichara Neto e o bioquímico L.C. Cameron, que apresentou a tese de que a judoca havia "dado o nariz" para uma criança asmática chupar. E, nessa brincadeira, o fenoterol teria sido ingerido por Rafaela. A tese foi apresentada no painel da Federação Internacional de Judô (IJF), que a considerou estapafúrdia e aplicou suspensão de dois anos.

Tão logo a suspensão saiu, Rafaela contratou o advogado Marcelo Franklin, que montou a defesa dela em recurso na CAS. E aí a tese mudou. O Olhar Olímpico apurou a Rafaela passou a explicar a ingestão do fenoterol a partir do contato com sua colega de quarto nos Jogos Pan-Americanos, que teria feito uso dessa substância. É confiando nessa versão que técnicos e atletas do judô brasileiro inocentaram Rafaela. O painel da CAS, porém, não se convenceu e manteve o gancho de dois anos, que o tira da Olimpíada e retira dela duas medalhas no Mundial do ano passado.

Considerado uma espécie de tutor de Rafaela, Flávio Canto, que sempre teve um discurso instransigente contra o doping, também saiu em defesa da judoca. "Que (Rafaela) tenha a força necessária para superar esse dia triste, vestir seu quimono e voltar pro seu lugar". ele escreveu no Instagram, postando uma foto de Rafaela.

Canto soube pela reportagem, durante o Mundial do ano passado, que havia então um boato sobre Rafaela ter caído no doping. Na ocasião, afirmou ser impossível um resultado positivo, porque Rafaela tomava extremo cuidado com o que consumia e sequer ingeria suplementos manipulados para não correr riscos. Mais de um ano depois, ele segue com a mesma convicção.

A técnica da seleção brasileira feminina também demonstrou apoio: "Quantas vezes esse gesto foi repetido? Sorriso no rosto, foto no pódio, foto com a medalha. Rafaela Silva, tenho absoluta certeza que Deus tem outros planos para você. Siga forte, cabeça erguida. Que venha Paris 2024. Vamos que vamos", postou Rosicleia Campos.

Também no Instagram, Rafaela compartilhou diversas mensagens de apoio, mas não se manifestou. A esposa dela, a também judoca Eleudis Valentim, se pronunciou: "Hoje uma injustiça foi feita pelas mãos do homem, mas Deus sabe de toda a verdade e vai nos dar forças para voltarmos mais forte".