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Doria quer levar atletas do Ibirapuera para "legado" de Lula no ABC

Arena Caixa  - Divulgação
Arena Caixa Imagem: Divulgação
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

16/12/2020 04h00

Uma obra que teve a assinatura do ex-presidente Lula (PT) é a chave encontrada pelo governador João Doria (PSDB) para tentar destravar a concessão do Complexo Esportivo do Ibirapuera à iniciativa privada. O político tucano pretende que os projetos de formação de atletas que historicamente funcionam no Ibirapuera sejam transferidos para o antigo Clube da Volks, em São Bernardo do Campo (SP), próximo ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Estado e prefeitura já acertaram um repasse anual de R$ 5 milhões para o uso de uma estrutura municipal erguida com dinheiro do governo federal.

A manutenção do chamado "Projeto Futuro" foi a única condicionante imposta pela Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) quando a concessão do Ibirapuera foi aprovada pelos deputados paulistas. O estado vinha dizendo que faria isso levando os atletas do judô para o Conjunto Esportivo Baby Barioni, na Barra Funda, que está em obras desde 2014, e construindo uma pista de atletismo na Vila Olímpica Mario Covas, no Butantã. Mas as obras ainda demorariam, atrasando, por consequência, também a concessão do Ibirapuera.

Doria, então, encontrou em São Bernardo do Campo, que tem como prefeito reeleito seu aliado Orlando Morando (PSDB), a solução para o problema do Projeto Futuro. A cidade tem, numa mesma estrutura, pista de atletismo, um bom galpão para treinamento esportivo, e alojamento com refeitório.

Esse local no passado foi um clube de metalúrgicos, o Clube da Volks, e ganhou atenção quando dois ex-presidentes do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho (PT) e Lula, estavam na Prefeitura e na Presidência, respectivamente. Em 2011, Lula anunciou que o terreno, municipal, ganharia um estádio de atletismo, com pista de primeiro nível internacional, e o Centro de Desenvolvimento do Handebol. Depois a prefeitura também reformou um velho galpão que recebeu equipamentos comprados pelo Ministério do Esporte e deveria virar o CT da seleção masculina de ginástica artística.

As obras eram parte do Plano Brasil Medalhas, que foi abandonado depois da Olimpíada do Rio. A ideia era que as confederações, ou o próprio município, bancassem as estruturas com dinheiro de estatais, formando atletas e proporcionando treinamento para a elite esportiva do país. O handebol tinha Correios e Banco do Brasil, enquanto que a Caixa Econômica Federal repassaria recursos à prefeitura para manter a Arena Caixa, de atletismo, e o CT da ginástica, duas modalidades que o banco federal patrocina. As estatais abandonaram o handebol e em 2018 a Caixa decidiu não renovar com São Bernardo depois das denúncias contra o técnico Fernando de Carvalho Lopes.

Agora quem promete colocar dinheiro nas estruturas é o governo do Estado, que se comprometeu a repassar R$ 5 milhões por ano para a prefeitura de São Bernardo para que essa mantenha funcionando o Projeto Futuro com 40 jovens do atletismo e outros 40 do judô morando no alojamento construído pelo governo federal e que tem capacidade para 128 pessoas. Além disso, outros 60 jovens atletas da região, 30 de cada modalidade, também treinariam lá. O estado pagaria refeições, quatro técnicos de cada modalidade, preparadores físicos, etc.

Para o projeto dar certo, porém, faltava desocupar o galpão onde vão ocorrer os treinos de judô e toda a estrutura administrativa e de alojamentos. E isso foi resolvido ontem (15), quando a Câmara Municipal de São Bernardo realizou sessão extraordinária para votar um projeto de lei enviado pela prefeitura para rescindir a concessão dessa estrutura para a Confederação Brasileira de Handebol (CBHb), que tem ali — ao menos em tese — a sua sede.

Quando a obra ficou pronta, em 2016, o local foi apresentado como "Centro de Desenvolvimento do Handebol" e deveria ser, para esta modalidade, o que o CDV, em Saquarema (RJ), é para o vôlei. Uma casa para as seleções de handebol, não só adultas, mas principalmente as de base, na cidade que sempre foi a "capital do handebol" no país. Só que a confederação perdeu os patrocínios dos Correios e do Banco do Brasil, passou a sobreviver de recursos da Lei Agnelo/Piva, e na prática nunca usou seu "Centro de Desenvolvimento". Quando a seleção treinou em São Bernardo para o Pan do ano passado, por exemplo, usou o ginásio Baetão.

Mas a falta de utilização da estrutura do antigo Clube da Volks não é só por falta de dinheiro. O centro de treinamento fica em área bastante arborizada e úmida, e, segundo relatos, as calhas não são compatíveis. A CBHb descobriu isso quando assumiu o equipamento e passou a sofrer com goteiras e infiltrações. Na condição de concessionária, seria responsabilidade dela resolver o problema, mas a confederação não tinha dinheiro. Quem esteve no galpão e no alojamento nos últimos meses relata um cenário deplorável, que foi o argumento da prefeitura de São Bernardo para defender a rescisão da concessão à confederação, convencendo a Câmara.

"O local não teve qualquer tipo de manutenção, preventiva ou corretiva, nos últimos anos, obrigação que constava em Lei. O espaço, em tese, deveria ser a sede da CBHb, (mas) não conta com atividades oficiais há, pelo menos, dois anos. Tanto que sofrido com furtos de cabos e tubulações de gás, torneiras e maçanetas. Instalações de água e energia estão rompidos, vidros e elevador quebrados, sistema de gás sem funcionamento, camas e colchões jogados, além de não ter qualquer tipo de limpeza", disse a prefeitura, em nota.

Pelos planos de Doria e Morando, é lá que as promessas do judô irão treinar a partir do ano que vem. Já os jovens do atletismo vão utilizar a antiga "Arena Caixa", que também precisa passar por reformas. A falta de manutenção deixou a pista com diversas bolhas e remendos. Por causa dos problemas estruturais no Ícaro de Castro Mello, o estádio de São Bernardo se tornou a casa dos principais eventos do país a partir de 2015. Depois de 2018, porém, ele praticamente deixou de ser utilizado, por falta de condições.

Via assessoria de imprensa, o prefeito de São Bernardo, Orlando Morando, confirmou os planos para o local. "O objetivo é recuperar o espaço e trazer atletas de alto rendimento do judô e do atletismo. Assim, o espaço seria 100% utilizado", comentou.