PUBLICIDADE
Topo

Olhar Olímpico

Natação diz que não usa Ibirapuera porque estado cobra aluguel inviável

Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

06/12/2020 04h00

Quando perguntado sobre onde pretende realocar competições de esportes aquáticos caso o futuro concessionário do Complexo Esportivo do Ibirapuera siga o modelo referencial e derrube o conjunto aquático, o governo de São Paulo cita uma piscina de 25 metros que está sendo reformada há seis anos e meio, demora que fez o estado perder R$ 9,2 milhões, e que "a última competição oficial realizada no Complexo Aquático do Ibirapuera ocorreu no ano de 2014". A Federação Aquática Paulista (FPA), porém, diz que há demanda para o uso da estrutura. O que falta é o estado cobrar preços acessíveis.

"É sempre um valor astronômico para a locação. A natação não é vôlei, não é futebol. Queremos há muito tempo fazer um trabalho ali. Queremos os fins de semana para realização dos campeonatos de todas as modalidades e o dia de semana para incentivar projetos", afirma Marcelo Biazoli, presidente da FAP. Em 2019 até foram realizadas competições amadoras lá, não citadas pelo governo em sua resposta.

A cobrança de aluguel para o uso dos equipamentos esportivos do Complexo Esportivo do Ibirapuera é definida por portaria do governo do Estado. A mais recente encontrada pela reportagem é de 2016, que determinou que o aluguel do Conjunto Aquático Caio Pompeu de Toledo por 24 horas deve custar 305,07 UFESP's. Essa unidade de valor também é determinada pelo estado e hoje está em R$ 27,61. Ou seja: para um dia de competição, seja ela mirim ou profissional, a federação deve pagar ao estado R$ 8,4 mil.

Não há margem para negociação de preço. Por um final de semana, o valor é R$ 16,8 mil. Se quiser manter um projeto de formação de atletas que funcione todos os dias de semana, apenas com luz do sol, ainda assim a FAP teria que pagar R$ 64 mil por mês.

"A gente fica sempre esbarrando nessa dificuldade de locação. A gente quer usar. Poderíamos fazer lá eventos de todas as categorias, de todas as modalidades. Não só natação", afirma Biazoli. No passado, o estado atuou no sentido contrário, fomentando (repassando dinheiro) para que a FAP organizasse competições e mantivesse o projeto de formação de atletas, conhecido como Projeto Futuro, no conjunto aquático. Nos últimos cinco anos, passou a, pelo contrário, cobrar aluguel.

Na semana que vem, o Troféu Brasil de Natação, principal torneio do país, vai ser disputado na piscina do Vasco da Gama, levando ao Rio de Janeiro os melhores nadadores do país. De acordo com a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) e a FAP, o torneio caberia muito bem no Ibirapuera, como coube, por exemplo, em 2014. Mas, por quatro dias de evento em São Paulo, a CBDA teria que pagar R$ 33 mil mil. No Vasco, vai pagar todas as despesas - internet, iluminação, segurança, limpeza - e não vai gastar mais de R$ 15 mil. Menos da metade.

O Olhar Olímpico mostrou no ano passado que o governo de São Paulo chegou a abrir a piscina do Ibirapuera, que estava fechada há algum tempo, mas apenas para nadadores que contratassem um grupo seleto de treinadores. Cidadãos "comuns" não poderiam usar a piscina, porque o Estado não havia contratado salva-vidas. Depois da reportagem, a piscina foi fechada.

Baby Barioni

A alternativa para o conjunto aquático do Ibirapuera, de acordo com o governo João Doria (PSDB), é uma piscina de 25 metros, coberta, na Barra Funda. Em junho, o governador devolveu R$ 9,2 milhões ao governo federal porque o estado não cumpriu seu compromisso de reformá-la.

O projeto de reforma do Baby Barioni, um complexo esportivo com ginásio e piscina, bem menor do que o Ibirapuera, foi iniciado em 2014, quando o então Ministério do Esporte celebrou convênio com a Secretaria de Esporte do então governo Geraldo Alckmin (PSDB) para repassar R$ 13,5 milhões para a reforma do complexo. O estado de São Paulo entraria com mais R$ 1,2 milhões.

Em junho de 2014 a secretaria realizou uma concorrência e contratou a Construtora Roy Ltda por R$ 26 milhões. Mas a licitação foi denunciada ao Tribunal de Contas do Estado (TCE) que encontrou indícios de direcionamento e suspendeu o contrato. O caso foi julgado pelo TCE em 2018 e o secretário de esportes da época, o hoje prefeito de São Caetano do Sul José Aurichio Jr (PSDB), aliado de Doria, multado. O contrato, rescindido.

A obra foi paralisada e acabou não sendo entregue antes da Olimpíada de 2016, como previsto. No final de 2018 o convênio com o Ministério do Esporte chegou ao fim sem o cumprimento do contrato. Já durante o governo João Doria foi assinada a rescisão, em janeiro de 2019. Em junho o estado devolveu mais de R$ 9,2 milhões que deveria ter usado na reforma da piscina e do ginásio e não usou.

As obras do complexo só foram retomadas em setembro de 2019. Na ocasião, a Secretaria de Esporte de Doria divulgou que faria um investimento total de R$ 30 milhões e que a obra teria "duas etapas para otimização". "Na primeira, serão reabertas para a população instalações que já foram reformadas na fase inicial do projeto, como o prédio de lutas e a quadra poliesportiva. O segundo estágio, com o restante das estruturas, será concluído em dezembro de 2020", informou o governo na ocasião. Estamos em dezembro de 2020 e as obras estão longe de acabar. A placa que informava prazos foi retirada da obra.

Em outubro desde ano, quando foi realizada a Audiência Pública para a concessão do Ibirapuera, o secretário Aildo Rodrigues (Republicanos) apontou a piscina do Baby Barioni como uma compensação à destruição do conjunto aquático do Ibirapuera. "Está em curso a construção de piscina, com previsão de conclusão para dezembro de 2021, bem como de novos alojamentos, até meados de 2022", diz o relatório da audiência. Na verdade, a piscina não está sendo construída, mas reformada.

Questionada agora pela reportagem sobre onde a secretaria pretende realizar competições oficiais de natação, polo aquático, saltos ornamentais e nado artístico se a piscina olímpica e o tanque de saltos do Ibirapuera forem destruídos, a secretaria voltou a citar o Baby Barioni. E mudou a informação sobre prazos.

"Para natação, a Secretaria de Esportes entrega em 2021 duas piscinas aquecidas no Complexo Desportivo Horácio Baby Barioni", disse a pasta, sem citar que as piscinas não têm estrutura para competições oficiais. Quando o blog pediu para que a secretaria detalhasse o prazo de entrega das duas etapas da obra, o governo disse que as obras "têm conclusão prevista para o segundo semestre de 2021 em entrega integral, não por etapas".

Quanto ao atraso de mais de cinco anos para conclusão das obras, o governo estadual explicou assim: "Ainda sobre o Baby Barioni, aditamentos anteriores, mudanças em relação ao projeto inicial e impasses jurídicos em relação à utilização dos recursos obtidos via Caixa causaram atrasos na obra, bem como um acordo amigável entre as partes, fazendo com que o trabalho seja financiado integralmente com recursos estaduais".