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Paulo Wanderley evita autocrítica e reclama interferência na eleição do COB

Paulo Wanderley -
Paulo Wanderley
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

06/10/2020 12h00

Há quatro anos, quando Carlos Arthur Nuzman foi reeleito para o que viria a ser seu último mandato como presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Paulo Wanderley foi escolhido por seus pares, os presidentes de confederação, para ser seu vice e seu eventual sucessor em 2020. Mas as coisas saíram do eixo para Nuzman, que renunciou depois de ser detido provisoriamente. Wanderley, dirigente que transformou o judô no "carro-chefe" de medalhas do Brasil, foi alçado à presidência.

Três anos depois, ele encara o desafio de tentar a reeleição em meio a um racha político no comitê. A imagem construída ao longo de dois anos, de um COB mais transparente, econômico e democrático, foi abalada com uma denúncia de irregularidades na área de TI do comitê. Uma auditoria foi contratada, mas só Paulo Wanderley e pessoas próximas tiveram acesso ao relatório final. Além disso, uma tentativa abrupta de mudar o estatuto do COB, logo em seguida, incomodou a muitos.

Agora, ele chega à eleição de amanhã (7) cedo ainda apoiado pela maior parte daquelas confederações que o elegeram vice há quatro anos. Em entrevista por telefone ao Olhar Olímpico realizada na tarde de sexta-feira, disse que são 22 as entidades com ele. Mais do que seus adversários, mas ainda não o suficiente para chegar aos 25 votos e vencer. Os atletas, que desde o primeiro dia Paulo Wanderley defendia que deveriam ter mais espaço no colégio eleitoral, é que vão decidir se ele terá um segundo mandato.

O principal rival é Rafael Westrupp, da confederação de tênis, a quem Paulo tinha como aliado até poucas semanas atrás. Por trás do adversário estão membros da política partidária eleitoral, especialmente do MDB, como Leandro Cruz, ex-ministro o Esporte. "Está havendo interferência de nível nacional nessa eleição", diz o presidente do COB, que se licenciou para a eleição.

Westrupp não aceitou gravar entrevista, abrindo mão de responder sobre a interferência citada pelo rival, sobre o processo eleitoral a toque de caixa para se garantir por mais quatro anos na CBT, e sobre como pretende viabilizar a promessa de colocar o COB para ocupar o Parque Olímpico. As perguntas sem resposta estão publicadas neste texto.

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Além das questões específicas a cada um dos candidatos —leia aqui a entrevista com Hélio Meirelles— o Olhar Olímpico fez seis perguntas padronizadas, sobre assuntos objetivos, como o pagamento de salário para os membros da Comissão de Atletas. Essas perguntas são as últimas da entrevista abaixo:

Olhar Olímpico - Quase metade das confederações está apoiando, oficialmente, candidatos de oposição. Você conversou com essas confederações para entender por que elas estão insatisfeitas com sua gestão?

Paulo Wanderley - Eu só vou analisar depois que ocorrer o pleito. Hoje eu tenho um time formado por 22 confederações, que eu não chamo de grupo, chamo de time. Temos um grupo, Atitude é Tudo, e lá a gente troca ideia, informações, coleta dados. As que ainda não participam podem falar qualquer coisa, mas deveriam fazer referência à minha administração, que deu oportunidade a todos eles se candidatarem. O estatuto antigo, para poder participar, teria que ter no mínimo dez confederações subscrevendo a chapa. Uma das chapas [de Hélio Meirelles] tem cinco confederações apoiando. Ele não seria candidato. Também existia no estatuto artigo que dizia que tinha que ter cinco anos como presidente. A outra chapa [de Rafael Westrupp] também não seria candidata. Foi nessa administração que eles puderam pleitear o cargo legitimamente.

O grupo do Hélio dialogou por bastante tempo com o senhor. Por que vocês não estão juntos?

Num primeiro momento, eles fizeram 12 propostas, encaminhadas por um grupo de cinco confederações. Dessas 12, 10 foram aceitas de imediato. Duas outras estavam em estudo, porque não tenho a prática de prometer o que não consigo fazer. Não entendo por que saíram, quando tiveram a maior parte das sugestões atendidas. O outro grupo veio de uma forma de surpresa, porque eu pessoalmente liguei para o hoje candidato e ele me afirmou que não seria candidato.

O senhor está falando do Rafael, que o senhor convidou para ser aclamado como membro do Conselho de Administração. Sentiu que ele te traiu?

Traiu não, porque ele tem o direito legitimo de ser candidato. Mas ele me disse pessoalmente, numa tarde, numa segunda-feira, que não seria candidato. Mas ele já estava numa cidade do nordeste do país conversando com um futuro eleitor dele. Ao telefonar para essa pessoa em seguida, a pessoa me contou. Fiquei quieto, não falei nada. Estava indo para o Rio, via Recife, estou no aeroporto, e quem passa do meu lado? Não precisa ninguém me dizer que foi isso que aconteceu, eu estava lá, eu vi. [Westrupp estava em Recife para pedir apoio de Guy Peixoto, presidente a Confederação de Basquete (CBB). Leandro Cruz, ex-ministro do Esporte e articulador do patrocínio do Banco de Brasília à CBB, também estava presente]

É voz corrente entre seus opositores que o COB perdeu protagonismo na sua gestão. Como você responde a essa crítica?

Quem está do outro lado, quem é observador, tem a vantagem muito grande, porque observa de fora. O COB é referência no mundo olímpico. Somos um dos cinco comitês que ganha prêmio do COI. Dizer que não temos protagonismo é desconhecer o trabalho que executamos. Ou finge que não conhece o trabalho que O COB tem no sistema nacional e internacional. Temos posições na associação dos comitês olímpicos nacionais, na PamAm, na Odesur...

Mas as queixas são principalmente de falta de relevância no cenário político nacional.

Eu posso até dar a mão à palmatoria porque a gente está dando uma de pato. O pato coloca o ovo com mais nutriente, mas não cacareja. A galinha faz barulho, cacareja, bate asa, mas o ovo não é tão rico. Não é verídico que a gente não tem contato com Brasília. Nos últimos anos, o que houve de mudança na administração do esporte é impressionante. Visitei vários secretários. Os que não visitei é que caíram antes, não deu tempo. O atual secretário, eu visitei também. Talvez eles estejam mais habituados aos corredores do palácio ultimamente. Há uma proximidade muito grande entre eles.

Entre o Rafael Westrupp e o secretário especial do Esporte, Marcelo Magalhães?

A secretaria do esporte como um todo. Com política partidária, ex-ministro, pessoas que estão circulando em torno da sua campanha. Hoje (sexta) mesmo aconteceu uma situação vexaminosa. Ruim não poder citar nomes. Está havendo interferência de nível nacional nessa eleição. Eu sou terminantemente contrário à partidarização do COB. O COB é apolítico, é determinação do Comitê Olímpico Internacional. Nos relacionamos com governo, mas colocar dentro do COB esse ou aquele partido isso é inadmissível. Quem quiser fazer vai ter que pagar dentro dos termos do COI.

O seu CEO, Rogério Sampaio, tem um padrinho político, o ex-deputado João Paulo Papa (PSDB), foi secretário em São Paulo e no governo federal. Não é a mesma coisa?

O Rogério não é filiado a partido e exerceu cargos executivos. O Rogério eu acompanho desde atleta. Teve diversos cargos e tem experiência do ambiente público, assim como o nosso campeão olímpico Emanuel.

Nas entrevistas que têm dado, seus adversários criticam bastante a falta de transparência no COB. Como melhorar?

Você acompanhou muito bem o início da nossa administração, sabe que o COB era uma situação fechada, não existia Conselho de Administração. Hoje todos os membros são eleitos, exceto os dois membros do COI, tem conselho de ética, os subcomitês. Nossos projetos são publicados no site, o Tribunal de Contas da União tem acesso direito às nossas contas, tem um link especial. Nossas ações são publicadas no site: documentos, salários, temos ouvidoria. Estamos caminhando para melhor a questão de transparência, que é um dos pilares da minha administração.

No ano passado, você contratou um serviço de gestão de crise. Essa empresa segue trabalhando para o COB. A crise não acabou?

Não foi de gestão de crise. É uma comunicação corporativa. A empresa tem contrato até fevereiro e se vai continuar ou não depende da avaliação do conselho.

Qual sua ligação com o Leonardo Rosário, pivô do escândalo do ano passado?

Ele é um especialista em TI que prestou ótimo serviço na CBJ, todos os serviços foram bem entregues. Ele veio como observador, tinha confiança no trabalho dele, Ele conseguiu reduzir não só o numero de funcionários quanto o custo da área, que era altíssimo. Houve uma denúncia anônima, abrimos uma investigação, com uma empresa especializada em investigação corporativa contratada pelo COB, essa empresa entregou um relatório final com suas recomendações e implementamos.

Por que esse relatório é mantido sob segredo e não foi apresentado nem ao Conselho de Administração?

Isso o próprio contrato com a Kroll determina, porque menciona pessoa que não têm nada a ver com a história. Ficou muito ruim para divulgar coisas que não se confirmaram. Quem foi investigado, quem teve indícios, saiu antes da conclusão da tal investigação. Todas as providências foram tomadas da melhor forma possível.

Pela mesma época, pegou multo mal entre atletas e confederações a forma como foi proposta uma profunda alteração no estatuto do COB. O senhor foi mal assessorado?

Eu não vejo dessa forma, denominando falhas e erros. A primeira reforma foi feita 42 dias depois da minha admissão como presidente do COB. O próprio estatuto previa já em novembro de 17 que haveria uma nova constituinte para tratar dessas possíveis mudanças em função dessas novidades. No tempo hábil foi convocada assembleia para fazer os estudos, esses estudos foram submetidos ao Conselho de Administração, do qual participam os representantes das confederações. Quem vota no final é a instância superior, e essa assembleia rejeitou alguns itens. Efeito normal de qualquer discussão.

Por que o COB não tem um grande contrato de patrocínio?

Entramos numa situação de reconstruir a imagem do COB. A imagem foi muito desgastada naquele ano de 2017 e já vinha sendo desgastada. A primeira coisa foi reconstruir essa imagem, resgatar essa credibilidade e reconquistar o mercado. Agora, qual o patrocinador que entrou no esporte depois de 2016? Quem não perdeu investimento? Todo mundo encolheu no Brasil. E mesmo nessa crise de imagem conseguiu voltar ao mercado. Esse é o ciclo da reconstrução: 18, 19, 20. Esse próximo ciclo a gente via trabalhar para ser da capitalização. Não vou lembrar de cabeça, mas fechamos com Havaianas, com Ajinomoto, Airbnb...

E não é pouco?

Acho que nunca é suficiente. Esporte de alto rendimento existe equipamento e qualificação de profissionais. Temos a expectativa que vamos crescer, sim. Reclamar é natural do ser humano. Não estamos satisfeitos nunca com o que a gente ganha.

Seus opositores prometem utilizar o Parque Olímpico da Barra. O Hélio cita os 10% de recursos da Lei Piva que precisam ser obrigatoriamente utilizados no legado olímpico. Por que o COB já não faz isso?

O Rafael está fazendo essa propaganda e rejeitou contrato de utilização da Arena de Tênis enquanto presidente da CBT. Não sei por que está tão motivado agora. Talvez pelo trânsito no governo. Dez por cento não assume um terço do Parque Olímpico. São três donos. Aquilo para administrar é muito difícil, é uma casa de muitos donos. Nós fizemos um estudo. Tem vício de construção, tem problema de vício jurídico. Um tempo atrás um ministro ofereceu. Fomos estudar e vimos que é inviável. Se o governo não entrar com recurso para fazer as obras que têm que ser feitas e mantiver o percentual de manutenção, é inviável. Governo entra, sai, e o próximo pode não ver com esse interesse. É politica de governo, não de estado, não dá para acreditar. Não é perene.

O que deu errado para que o COB não tenha levado sua sede administrativa para o Maria Lenk ainda?

Você sabe que foi das minhas primeiras falas quando assumi: 'Vamos juntar área administrativa com a esportiva'. Mas aí depois que entra na casa começa a ver as questões. O prédio é de 2007, do Pan. Tem vícios de construção. Pegar uma estrutura de cerca de 250 funcionários e levar para outra as dificuldades inerentes a esse processo. Demanda maior de energia, reestruturação de todo projeto. Não existe sala suficiente para isso. Vai ter que ter licença de construção, vai ter que fazer concorrência. E ainda temos que negociar nossa cessão de uso, que vence em 2027. Precisamos ter garantia de que vamos permanecer, mas o diálogo [com a prefeitura] não está progredindo. Dependemos de uma nova concessão por mais um período.

Existe um incômodo nos bastidores pelo senhor ter supostamente indicado um delegado aposentado da Polícia Federal, Rodney Rocha Miranda, para ser membro independente do conselho. O senhor tem defendido voto nele?

Eu cuido da minha candidatura, trabalho para minha candidatura. Existiam oito candidatos para membros independentes. Dos oitos, fizemos dentro do nosso time, que são 22 confederações, uma votação secreta. O candidato vencedor teve quatro vezes mais voto que o segundo. Foi deliberação deles.

Mas o senhor tem relação com ele?

Eu o conheço, como conheço muito bem o Ricardo Leyser, o Marcus Vinicius. De todos os candidatos, só não conheço uma advogada. [No domingo, após a realização desta entrevista, a Folha mostrou que Rodney Miranda é ex-deputado, filiado ao Republicanos e secretário de Segurança Pública em Goiás. À Folha, o candidato disse que: "Não tenho relação formal nenhuma com o esporte, tenho uma boa relação com o Paulo Wanderley. Aliás, mais com o genro dele, que é juiz no estado do Espírito Santo, Carlos Eduardo Ribeiro Lemos"]

Abaixo, sete perguntas objetivas feitas tanto a Paulo Wanderley quanto a Hélio Meirelles.

O senhor defende o pagamento de salário aos membros da Comissão de Atletas?

Não defendo. Já falei para eles. Não tenho receio de falar o que eu penso. Não tem condição de executar salários, até por lei trabalhista. Eles vão ser funcionários do COB? Vamos preparar espaço para eles, trabalhar para que tenham um jeton (pagamento por reuniões). Mas não dá para fazer esse processo. Vira efeito cascata.

Em uma eventual reeleição, o número de funcionários do COB vai aumentar ou diminuir na comparação com agora?

O número de funcionários é proporcional à demanda. Fiz redução drástica, os salários não eram compatíveis com o mercado. Houve uma redução imediata de 25% dos funcionários. Agora estamos retomando o quantitativo anterior, com resultado muito melhor e um custo muito menor também.

O governo anunciou apoio aos Jogos Escolares organizados pela Confederação Brasileira do Desporto Escolar. O COB, que vem organizando os Jogos Escolares nas últimas décadas, vai seguir realizando seu próprio evento?

Continuaremos fazendo os Jogos Escolares no sub-17, que é porta de entrada para o alto rendimento. Pelo que conversamos, a CBDE quer fazer o sub-14. Ótimo. A gente segue com a porta de entrada.

O conselho de administração será presidido pelo senhor?

Até que a assembleia decida o contrário. Eu não tenho direito a voto na assembleia. Meu pensamento é que tem que continuar como está. São treze membros, um não ganha de 13. Não tem por que o presidente não ser o presidente do COB que é o responsável que coloca o seu patrimônio. Não vou jogar meu CPF em decisões onde eu não tenha opção de opinar.

O senhor vai aumentar ou reduzir o repasse às confederações? Em quantos pontos percentuais?

Sempre aumentei. Todo ano há um acréscimo de descentralização de recursos. Para o ano que vem, a previsão é de R$ 140 milhões, esse ano foram R$ 120 milhões. Vai subir porque tivemos um cuidado de controle, de otimização de investimentos e conseguimos ter um caixa que nos dá a possibilidade de fazermos gastos em ações extras.

A eleição da CACOB deveria ter sido adiada?

Eu acho que não. Respeito e admiro a ação e a atitude da Confederação de Skate, que quer fazer valer a sua condição. Mas não é assunto meu, é assunto dos atletas com a CACOB.