PUBLICIDADE
Topo

Olhar Olímpico

Auditoria aponta assédio moral e racismo contra atletas no Pinheiros

Alameda interna do Esporte Clube Pinheiros - Divulgação
Alameda interna do Esporte Clube Pinheiros Imagem: Divulgação
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

23/08/2020 12h41

Uma auditoria interna do Pinheiros encontrou diversos relatos de assédio moral e de racismo dentro da ginástica artística do clube. Conduzidas pelo departamento de Governança e Complience, a auditoria foi tornada pública por reportagem exibida pelo Esporte Espetacular, da Globo, neste domingo (23).

A auditoria aponta relatos de racismo e maus tratos em dois casos que marcaram a ginástica artística do Pinheiros. A família de Jackelyne Silva, ginasta de 17 anos que morreu por infecção decorrente de pneumonia depois de ser demitida do clube, diz que ela sofria abusos morais. "Ela era ignorada, não a assistiam, não a treinavam, não falavam com ela, apenas para chamar atenção ou penaliza-la", aponta um relato feito à auditoria.

Como o Olhar Olímpico já mostrou, o Pinheiros vive uma guerra interna, com sócios reclamando do espaço dado pelo clube aos atletas chamados "militantes", que são aqueles que competem pelo Pinheiros, mas não são associados. A atual diretoria, ligada a esses sócios, tem reduzido o espaço dos "militantes" e cortado investimento no esporte de alto rendimento. Mas o problema é antigo.

Cinco técnicos são acusados pela auditoria por maus-tratos: Hilton Dichelli, Cristiano Albino, Lourenço Ritli, e, em menor grau Felipe Polaco e Danilo Bornea. Eles admitiram "gritar para garantir a execução dos movimentos" e, à auditoria, confirmaram que as cobranças aos atletas militantes eram "bem mais intensa do que aos atletas associados". Albino é um dos principais técnicos do país, apontado como o responsável pelo sucesso de Arthur Nory (medalhista olímpico e campeão mundial) e Chico Barretto (finalista olímpico e mundial),

O segundo caso público explorado pela reportagem e pela auditoria é o caso de racismo contra o ginasta Ângelo Assumpção, em 2015. Na época, um vídeo gravado em tom de brincadeira por integrantes da seleção brasileira tinha falas racistas contra Ângelo. Todos depois gravaram um vídeo dizendo que estava tudo bem entre eles, a Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) suspendeu Arthur Nory de forma que ele não perdesse a Olimpíada (onde acabou medalhista de bronze), e tudo pareceu resolvido.

Mas Ângelo passou a ser escanteado no "ginásio" (ou seja, nos treinamentos dentro do clube). Ele e Nory, colegas de clube desde a infância, nunca mais se entenderam. No ano passado, quando voltava a competir depois de uma série de lesões, Ângelo foi suspenso por 30 dias. No dia seguinte ao fim da suspensão, foi demitido. Em documento interno, o responsável pela ginástica do Pinheiros, Raimundo Blanco, explicou que suspendeu Ângelo "porque o atleta não respeitou a hierarquia ao levar reclamação para a gerência de esporte".

Ele diz que sofreu racismo por fazer tranças no cabelo. "Eu sempre fui um cara que anualmente sempre estive presente dentro da equipe, mas ouvi discurso que aquilo atrapalhava o meu desempenho. A minha trança atrapalhava o meu desempenho. Eu escutei isso dentro do Pinheiros, entendeu?", disse. "Teve uma situação que eu estava todo de lycra preta e de shorts branco, e eventualmente uma pessoa disse que eu estava só de bermuda, entendeu? Então são situações que para as pessoas são despretensiosas, não veem maldade, mas para a gente, que vive isso todos os dias, que entende o que é um racismo estrutural, a gente se machuca demais", contou.

A reportagem mostra que, apesar de apontar racismo e maus-tratos contra atletas, a auditoria minimiza o problema. "Ficou evidente que houve movimentos direcionados para arranhar a imagem da modalidade ao relatar somente fatos que trouxessem a ótica negativa", diz o relatório, que teria sido produzido, pelo que apurou o Olhar Olímpico, pelo atual grupo de comanda o Pinheiros, interessado na queda de Blanco, remanescente da antiga diretoria.

Mas o Pinheiros não tomou nenhuma atitude com base nos achados do relatório. Em nota, o clube disse ao blog que "o caso da Jackeline não foi escopo da auditoria" e que "os resultados obtidos das referidas auditorias são confidenciais e de competência exclusiva Pinheiros". "Reforçamos, ainda, que a não renovação do contrato com o atleta Ângelo Assumpção não tem relação alguma com qualquer ato de preconceito", disse o clube em uma nota.

Em outra, o Pinheiros disse que optou por rescindir o contato de Ângelo a dois meses do seu término "para facilitar o processo de migração do atleta para outro clube esportivo" e que isso foi comunicado a ele pessoalmente e por nota. "Importante frisar que comunicamos via nota por mera formalidade já que acionamos o atleta pessoalmente antes do comunicado oficial", continuou o Pinheiros.

"Passados quase um ano da não renovação do seu vínculo, causa-nos até certa surpresa o recebimento de esclarecimentos dessa natureza, sem que haja qualquer processo ou denúncia às autoridades competentes nesse sentido", diz o Pinheiros. As queixas de Ângelo, porém, são amplamente conhecidas do mundo da ginástica há algum tempo, mas o ginasta vinha recusando gravar entrevistas sobre o assunto.