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Atletas do handebol dizem, na urna, que ídolos não os representam

Babi e Duda, do handebol - Abelardo Mendes Jr/Rede do Esporte
Babi e Duda, do handebol Imagem: Abelardo Mendes Jr/Rede do Esporte
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

17/08/2020 17h26

A eleição para a Comissão de Atletas da Confederação Brasileira de Handebol (CBHb), realizada ontem (16) de forma virtual, se tornou um marco no esporte brasileiro. Não apenas porque 788 pessoas votaram, possivelmente um recorde para eleições assim no Brasil, mas também porque os atletas rejeitaram serem representados pelos maiores ídolos da modalidade, em uma politização (e também polarização) inédita.

A participação de atletas na política esportiva é fenômeno novo e que vive uma explosão desde que foi instituído na Lei Pelé que os atletas têm que ter pelo menos 1/3 dos votos das assembleias das confederações. A eleição do handebol colocou esse processo político em um novo patamar, com a formação de chapas que se assemelham a partidos políticos, campanha maciça e publicações difamatórias. E o resultado também quebrou paradigmas, com atletas desconhecidos superando os mais famosos.

No handebol, a participação política dos atletas teve início em abril de 2018, quando um grupo de atletas de renome, liderados pelos capitães das seleções brasileiras, se reuniu para exigir a renúncia de Manoel Oliveira, presidente da CBHb acusado de diversas fraudes. Desde então, esse grupo, os "Atletas pelo Handebol", passou a falar em nome dos atletas.

Parecia o cenário dos sonhos. Atletas famosos engajados na defesa da modalidade, dedicando tempo às discussões e usando de visibilidade deles nas redes sociais e na imprensa para difundir a causa. Quando a eleição foi lançada, esses atletas se uniram em uma chapa informal, a "Voz dos Atletas" com 15 indicações para as 16 cadeiras disponíveis. Entre os candidatos estavam Duda, Babi, Mayara, Diogo Hubner, Borges, Dani Piedade, entre outros. Só uma se elegeu: a jogadora de beach handball Patricia Scheppa. Todos os outros foram rejeitados pelas urnas.

Duda, por exemplo, teve 192 votos, contra 475 da desconhecida Amanda Souza, uma atleta amadora de Goiás. Thiagus Petrus, craque do Barcelona, recebeu 163 votos, ante 618 de Cebola, um veterano de Cascavel (PR). Até Rogerio Moraes, campeão da Champions League, que não estava na chapa dos astros, não conseguiu se reeleger.

Uma soma de fatores explica o resultado surpreendente. A começar pelo incômodo do handebol brasileiro com as estrelas que jogam na Europa. Há um sentimento de que Duda, Petrus e companhia estão interessados que a seleção tenha melhores resultados, mas estão distantes da realidade sofrida do handebol nacional, que tem competições esvaziadas e nível técnico muito baixo.

O formato da eleição, discutido diretamente por este grupo, também não ajudou. Enquanto no basquete, por exemplo, existe reserva de cadeiras para medalhistas olímpicos, e no judô há indicação de um representante por estado, no handebol as cadeiras foram dividias em handebol indoor (oito), beach (seis) e "inativos" (dois), com cada eleitor votando em 16 pessoas.

Ao escolher fazerem uma campanha única, os candidatos da chapa "Voz dos Atletas" encontraram portas fechadas em estados e clubes que tinham qualquer candidato, enquanto os amadores costuraram apoios mútuos e acabaram fechando também uma chapa informal, que acabou vitoriosa. Os mais famosos acabaram derrotados e excluídos da primeira eleição em mais de 30 anos que não elegerá Manoel Oliveira como presidente da CBHb.

Correndo sério risco de ser tirado de novo do cargo pela Justiça, que julga seu processo na próxima quinta (20), Manoel estaria trabalhando pela candidatura de Edgar Hubner, ex-gerente do COB. Mas os atletas eleitos, e também os quatro times para representar os clubes, são mais próximos ao grupo de Ricardinho Souza, o vice que pode reassumir a confederação na sexta. A eleição presidencial deve ocorrer ainda este ano.

Enquanto isso, sofre o handebol. A confederação anunciou há duas semanas que Washington Nunes é de novo o técnico da seleção, depois de ser demitido em agosto do ano passado. Mas ele não foi registrado, o que só acontecerá se Manoel continuar no cargo. Se Ricardinho voltar à presidência, é praticamente certo que Washington será demitido de novo, desta vez de um emprego que não assumiu no papel.