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Nadadoras se unem para brigar pela natação feminina sem criar mártir

 Ana Carolina Vieira, Fernanda Goeij, Maria Luíza Pessanha e Rafaela Raurich são prata nos Jogos Olímpicos da Juventude - Pedro Ramos/Rede do Esporte
Ana Carolina Vieira, Fernanda Goeij, Maria Luíza Pessanha e Rafaela Raurich são prata nos Jogos Olímpicos da Juventude Imagem: Pedro Ramos/Rede do Esporte
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

03/08/2020 04h00

Exatos dois anos depois do dia em que Joanna Maranhão anunciou sua aposentadoria, mais de 300 das principais nadadoras do país das últimas décadas estavam reunidas em um grupo de Whatsapp fazendo, juntas, aquilo que a agora ex-atleta de 33 anos, cansou de fazer sozinha: pleitear mais apoio para as mulheres na natação. "Antes tarde do que nunca", reconhece Flávia Delaroli, 36, aposentada há oito, e uma das porta-vozes de um grupo que nasceu de uma postagem da também ex-atleta Poliana Okimoto, 37.

Quem vê assim pode pensar que esse é mais um movimento de ex-atletas que, já distantes dos treinamentos e das competições, tentam deixar um legado fora das quadras/campos/piscinas. Não é. Entre as centenas de mulheres que praticamente lotaram um grupo de Whatsapp está tanto a quase totalidade das nadadoras que representaram a seleção brasileira no ano passado, como aquelas que brilhavam no começo do século. A única regra: ser maior de 16 anos.

É Flávia Delaroli quem fala pelo grupo porque as mais velhas aprenderam na prática que está sempre no ar o risco de uma retaliação à atleta em atividade que ousa reclamar em público. Agora, não somente passam essa e outras lições para as mais jovens. Servem de escudo. Vão ser elas, as aposentadas, que vão dar a cara a tapa em público. Das mais velhas, como Flávia, Poliana e Joanna, às mais jovens, como Carol Diamante, que foi das seleções de base até recentemente, já parou de nadar, e é uma das líderes do grupo.

"Com a experiência da Joanna (Maranhão) de sempre entrar no embate, das brigas que ela comprou, as instruções são sensacionais. Temos muitas no grupo que podem representar o grupo frente à imprensa para que elas não sofram o que ela (Joanna) sofreu. Nossa ideia não é brigar, é chegar junto para construir alguma coisa. A construção do mártir vem de todos os lados. A gente não quer repetir os mesmos erros. A gente quer apontar direção", explica Flávia, hoje comentarista de natação na ESPN e de nutrição no BandSports.

O grupo nasceu depois de uma postagem de Poliana Okimoto em 17 de julho, dia em que o Comitê Olímpico do Brasil (COB) embarcou 70 atletas para a Missão Europa. Dos 15 convocados na natação, 14 era homens - no final, só 10 viajaram, todos homens. Na comissão técnica, com nove pessoas, também só homens. No total, 22 atletas teriam direito ao treinamento em Portugal, 20 homens. Só duas mulheres teriam vez, Etiene Medeiros e Viviane Jungblut - a primeira, asmática, prefere não correr o risco de se expor à viagem e a segunda vai a Portugal esta semana.

Se as convocações para torneios seguem critérios preestabelecidos, o chamado para a Missão Portugal foi feito com base em resultados passados. E os critérios adotados pela CBDA e pelo COB (ter nadado em 2019 abaixo do índice Fina) beneficiam quase que exclusivamente os homens, que já estão no topo da pirâmide. Quem mais precisa de treinamento para evoluir e chegar ao índice não tem a chance de treinar longe da pandemia.

Isso incomodou as nadadoras, que não se expuseram até que Poliana falou o que tava engasgado na garganta de todas elas. Em minutos, como por osmose, a mesma mensagem foi compartilhada por quase todas as meninas que sonham ir para Tóquio. Era o início de uma revolução.

"Já era um sentimento delas, uma vontade de todo mundo há muito tempo. O grupo começou assim, organicamente, e pela natureza de cada menina foi se organizando. Ele ainda é um bebê muito bonitinho, mas o propósito é muito legal". explica Flávia, admitindo que o movimento é tardio. "Já houve muitos anos que o que precisava ser feito não foi fito. Se somos a parte afetada, nada mais inteligente do que reunir várias cabeças."

Com perfil agregador, Flávia faz mais elogios do que crítica para explicar os problemas que o grupo quer resolver. Diz que a CBDA, que levou poucas horas para chamar as meninas do grupo para ouvi-las em uma reunião, está disposta a encontrar soluções comuns, e que o grupo não vai cobrar posicionamentos das nadadoras. "Nosso propósito é que a natação feminina possa ganhar medalhas olímpica. Quem é contra isso? Ninguém. A gente não nasceu para ser um movimento de embate, mas para ser uma empresa que vai gerar bons frutos e resultados", diz.

As propostas estão sendo discutidas pouco a pouco. Nutricionista, Flávia faz uma analogia com seu trabalho. "É como uma dieta que a pessoa quer emagrecer em uma semana. Não vai resolver em uma semana", compara. Muito provavelmente não será em Tóquio que a natação feminina do Brasil vai ganhar sua primeira medalha nas piscinas. Mas talvez seja em Paris, com o grupo que foi prata no revezamento 4x100m livre nos Jogos Olímpicos da Juventude de 2018.

Para tanto, as mulheres precisam de oportunidades e, hoje, elas não estão tendo. Se os homens têm mais resultado, não é porque eles são mais talentosos ou mais dedicados. "Quem sabe a gente consegue criar um modelo não só para o feminino de outros esportes, mas para o esporte como um todo?", vislumbra Flávia.