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Governo federal atropela COB e anuncia concorrente dos Jogos Escolares

Jogos Escolares da Juventude - Divugação/COB
Jogos Escolares da Juventude Imagem: Divugação/COB
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

31/07/2020 18h16

Horas depois de se encontrar com a direção da Confederação Brasileira do Desporto Escolar (CBDE), o secretário especial do Esporte, Marcelo Magalhães, anunciou na noite de ontem (30) a reedição dos Jogos Estudantis Brasileiros (JEB's), que nasceu no período da ditadura militar, em 1976, e foi realizado até 1994. O anúncio surpreendeu o Comitê Olímpico do Brasil (COB), que desde 2005, por orientação do governo federal, organiza os Jogos Escolares da Juventude, nome diferente para o mesmo evento.

O anúncio foi feito por Magalhães no seu perfil no Instagram, que é fechado para o público. O secretário postou que os JEB's está "renascendo" e que a secretaria fará a "maior Olimpíada estudantil desse país". De acordo com a postagem dele, a edição de 2021 vai acontecer no Parque Olímpico da Barra, com 10 modalidades e 4,8 mil atletas. Em 2019, segundo a página da Secretaria, participaram da fase nacional 6 mil atletas, em 14 modalidades. A edição 2020 foi cancelada pelo COB por causa da pandemia.

O ex-árbitro de futebol Antônio Hora Filho, presidente da CBDE, disse ao Olhar Olímpico que foi pego de surpresa com o anúncio do secretário, acatando um pedido que a confederação vinha fazendo ao governo federal há anos. "Surpreendentemente essa nova gestão da secretaria acatou a proposta e se comprometeu a buscar fontes de financiamento", comentou.

"Na hora que o secretário foi a público e assumiu a responsabilidade, eu liguei para ele. 'O que o senhor está fazendo?'. Ele me disse: 'Tenho autorização que posso me comprometer, porque vai ser feito'. Para um bom entendedor eu não tenho o que fazer a não ser acreditar", continuou Hora Filho. Em seu site, a CBDE informou que o anúncio oficial será feito após um almoço "nas próximas semanas" entre o cartola, Magalhães e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Nesta sexta, após a publicação da reportagem do Olhar Olímpico, a secretaria publicou a informação em seu site, destacando que não definiu se o evento será no Rio ou em Brasília. O texto não cita em nenhum momento a realização dos Jogos Escolares nos últimos 15 anos, apenas que o COB "organiza um outro evento escolar para a mesma faixa etária".

Jogos Escolares já existem

Organizado pelo governo federal de 1976 a 1994, os Jogos Escolares foram recriados em 2003, no início do governo Lula. Depois de duas edições em Brasília, o Ministério do Esporte acertou com o COB que a organização do torneio escolar passaria a ser do comitê olímpico, que tem como prioridade o esporte de alto rendimento.

Ao longo dos anos, o COB transformou os Jogos Escolares da Juventude em um produto atrativo para cidades, que precisam cumprir um caderno de encargos para receberem as etapas finais, e para patrocinadores. A Coca-Cola tem um contrato de longo prazo com o comitê e é patrocinadora oficial do evento. No esporte paraolímpico, é o CPB quem organiza os Jogos Escolares, e não há interesse em mudar esse cenário.

A CBDE, porém, alega que é competência dela a organização de torneios escolares. "Não é competência estatutária do COB. A CBDE precisa tomar protagonismo", disse Hora Filho ao blog. A competição do COB é dividida em duas, uma para atletas de 12 a 14 anos (ensino fundamental II) e outra para jovens de 15 a 17 (ensino médio). O JEB's da CBDE será apenas para o primeiro grupo.

Atualmente os Jogos Escolares começam com fases municipais, seguindo para regiões administrativas dos estados e para as fases estaduais. O financiamento sai da Lei Angelo/Piva. No ano passado, a Caixa repassou R$ 158 milhões às Secretarias Estaduais exatamente com essa finalidade. Em 2019 o COB criou três fases regionais, classificatórias para a fase nacional, que ocorreu em Blumenau (SC). Anualmente 2 milhões de jovens participam das seletivas municipais e estaduais, representando cerca de 40 mil escolas públicas e privadas de quase 4 mil municípios.

A CBDE também é beneficiária de recursos das Loterias, mas até 2018 esse dinheiro precisava ser repassado a ela pelo COB. Isso mudou quando a Lei Agnelo/Piva sofreu diversas alterações e a CBDE passou a receber cerca de R$ 35 milhões ao ano. Com esse dinheiro, ela já organiza competições nacionais de modalidades específicas e banca sua estrutura. Pelo planejamento apresentado à secretaria, no novo JEB's a CBDE pagaria todas as passagens aéreas, garantindo representatividade igual de todos os estados.

Só falta o dinheiro

Na postagem no Instagram, Magalhães destacou o número de passagens aéreas que serão compradas, 6,2 mil, o total de diárias de hotel (37,9 mil) até quantos copos de água serão distribuídos: 200 mil. Falta, porém, definir quem vai pagar essa conta e de onde vai sair o dinheiro.

"Estamos fechando os últimos ajustes e logo faremos em conjunto o lançamento oficial com o esclarecimento das competências de todos os entes envolvidos que não estão restritos ao ministério e a CBDE. Porém é precipitado informar qualquer número, devido ao fato de que boa parte desses valores sejam para arcar com as passagens aéreas dos estados e com a hospedagem em rede hoteleira", explicou a CBDE.

Também ninguém sabe dizer o que será feito com os Jogos Escolares do COB. O comitê foi pego de surpresa com o anúncio da criação de uma competição concorrente àquela que o COB organiza com sucesso reconhecido há uma década e meia.

"O COB entrará em contato com a Secretaria para entender o novo calendário e somar forças para contribuir com o desenvolvimento do esporte escolar brasileiro, uma vez que organiza os Jogos Escolares da Juventude desde 2005, um projeto de grande valor para sua missão de representar com excelência o esporte brasileiro de alto rendimento", disse a entidade, em nota.

"Os Jogos Escolares da Juventude fazem parte do processo de sistematização proposto pelo Governo Federal, reunindo alunos de escolas públicas e privadas do território nacional, entre 12 e 17 anos, para a disputa de 17 modalidades, além de atividades educativas e culturais. A realização dos Jogos Escolares da Juventude alcança mais de 2 milhões de jovens, considerando as seletivas municipais e estaduais, gerenciadas por estados e municípios. Juntando organizadores, treinadores, árbitros, voluntários, entre outros, o número de pessoas envolvidas nas etapas organizadas pelo COB chega a mais de 8 mil", continuou o comitê.