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Campeã mundial retorna ao handebol 4 anos após morte da mãe na Rio-2016

Fernanda comemora após marcar para o Brasil contra a Espanha na disputa do handebol na Rio-2016 - Ben Curtis/AP Photo
Fernanda comemora após marcar para o Brasil contra a Espanha na disputa do handebol na Rio-2016 Imagem: Ben Curtis/AP Photo
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

30/07/2020 04h00

Há cerca de quatro anos, a ponta esquerda Fernanda Silva se preparava para um dos jogos mais importantes da sua carreira quando recebeu a notícia que tanto temia. A mãe dela não resistiu a uma cirurgia delicada e faleceu em meio à Rio-2016. Ela seguiu concentrada e, na manhã seguinte, foi artilheira de um jogo da seleção brasileira. Depois, repetiria a dose na partida que culminou com a eliminação do Brasil na Olimpíada.

Desde então, Fernanda, que foi campeã mundial com a seleção brasileira em 2013, está afastada do handebol. No ano passado, chegou a disputar alguns jogos do Campeonato Espanhol e das eliminatórias da Champions League pelo Bera Bera, durante três meses, mas não sentiu-se animada a continuar no esporte. Agora, aos 30 anos, ela volta ao esporte para defender o Côte Basque na primeira divisão da França.

"Aceitei porque o clube entendeu que hoje minha prioridade não é o handebol. Sabendo de tudo isso, fizemos um acordo muito legal no qual poderei jogar sem ter que passar dias fora de casa, horas e horas viajando, etc", contou Fernanda por e-mail ao Olhar Olímpico. Casada com um jogador profissional chileno que mora e joga no lado espanhol do País Basco, ela precisa dirigir por meia para chegar à sede do seu novo clube, no lado francês da mesma região.

Bicampeã dos Jogos Pan-Americanos e com participação em quatro Campeonatos Mundiais, Fernanda era titular absoluta da seleção brasileira quando, entre março e abril de 2016, a mãe dela descobriu um aneurisma. A partir de então, a ponta passou a se dividir entre a atenção à mãe e o handebol.

"Ela passou por uma segunda cirurgia no dia 31 de julho, na qual eu a acompanhei até entregá-la ao médico. Depois disso o quadro dela foi piorando cada dia mais e eu sabia de tudo, tinha contato diretamente com o médico dela, que inclusive foi um anjo que me ajudou e me acalmou muito. Eu sabia que a situação dela seria muito difícil, então entreguei nas mãos de Deus e ele tomou a decisão correta", conta.

A notícia da morte da mãe chegou na noite de 9 de agosto. Às 9h30 da manhã seguinte, o Brasil entraria em quadra contra a Espanha, pela terceira rodada. Fernanda optou por preservar o time e só três colegas, as que estavam com ela quando foi informada da morte, ficaram sabendo. "Não quis contar para não chegar a atrapalhar o desempenho de alguma delas", justifica Fernanda.

O tema foi tratado em sigilo para a imprensa por quatro dias, até que Fernanda relatar seu drama em uma rede social. Na ocasião, ela não falou com jornalistas. Agora, conta que chegou a ser autorizada a sair para acompanhar o velório e o enterro da mãe. Optou por ficar. "Fiz o que ela me pediu desde o princípio, e o que meu coração pediu para ser feito. Ela dizia: 'Filha você vai jogar. Eu quero te ver de peito aberto, gritando e vibrando como você sempre fez, é o meu maior orgulho'. E fiz o que foi pedido, sentindo que um pedacinho dela estava ali comigo e cheio de orgulho por eu estar representando milhões de pessoas em meio a tanta loucura."

Depois de vencer a favorita Noruega e atropelar a Romênia, o Brasil sofreu uma derrota surpreendente para a Espanha, na qual a própria Fernanda foi a artilheira da seleção, com sete gols. O time também venceu Angola e Montenegro para avançar como líder do grupo, para pegar a Holanda nas quartas. Desta vez, nem os sete gols de Fernanda salvaram a seleção, batida por inesperados 32 a 23. Era o fim do sonho do pódio olímpico.

Recomeço

A partir dali, Fernanda passou a enxergar a vida de outra fora. "Tudo aconteceu muito rápido. Depois dos Jogos Olímpicos, eu decidi levar a vida de uma maneira mais leve e deixar as coisas acontecerem. Não ficar sofrendo sabe!? Descobri que sofremos por besteiras e uma perda faz a gente enxergar tudo isso", conta.

Contratada pelo Bietigheim, da Alemanha depois de brilhar na Áustria e na Romênia, Fernanda moraria distante do marido, que jogava na França. Foi quando eles decidiram engravidar. "Achávamos que demoraria por não morarmos juntos, foi quando nos enganamos e de primeira engravidei do meu pequeno. Um presente de Deus que chegou no momento em que eu mais precisava, Um mês e meio após a morte da minha mãe eu estava gravida da Gael", relembra.

Por opção própria, Fernanda optou por se desligar do clube alemão. Também foi escolha dela não aceitar voltar depois de ter Gael. "Queria aproveitar cada momentinho da minha vida pessoal e não aceitei. Muitos acham um absurdo e questionam a decisão de muitas atletas que decidem parar ou até mesmo dar uma pausa na carreira, mas não sabem que estamos anos longe de casa, perdendo datas especiais, momento com a família e até perdendo pessoas da nossa família."

"Eu não me arrependo em nenhum momento das minhas decisões porque são elas que me fazem feliz diariamente", atesta Fernanda, que diz sentir muita falta das amigas do handebol, mas não de ficar fora de casa por longos períodos e da rotina incerta.

Agora de volta ao handebol de primeiro nível, ela responde à pergunta se será profissional afirmando que sim, "porque me comprometi com o clube e comigo mesmo a dar o meu melhor sempre". Mas não se vê brigando por uma vaga na seleção brasileira que vai aos Jogos Olímpicos de Tóquio. "Eu brigando por uma vaga, não! Mas deixando a vida me legar como sempre, sim!"

A seleção brasileira de handebol classificou-se para Tóquio ao vencer os Jogos Pan-Americanos de Lima. A equipe vive fase de renovação após a Rio-2016 e ainda não se reencontrou. No final do ano passado, foi eliminada na primeira fase do Mundial, terminando num vexatório 17º lugar. Destaque no título mundial de 2013, Alexandra aceitou voltar à seleção para a Olimpíada. O técnico Jorge Dueñas, porém, tem sido criticado por fechar as portas para a goleira Mayssa (que ameaça se naturalizar para jogar por outro país) e para as pontas Samira e Jéssica Quintino.