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Entenda como GP Brasil de Fórmula 1 levou Lava Jato a investigar Serra

Max Verstappen e Lewis Hamilton dividem a primeira curva na largada do GP Brasil de 2019 - Lat Images
Max Verstappen e Lewis Hamilton dividem a primeira curva na largada do GP Brasil de 2019 Imagem: Lat Images
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

25/07/2020 04h00

O anexo 16 da delação premiada de Joesley Batista na Lava Jato suscitou a investigação que agora chega ao senador, ex-governador e ex-prefeito José Serra (PSDB) e que envolve o principal evento do calendário esportivo da capital paulista, o GP Brasil de Fórmula 1. A corrida teria sido utilizada para lavar dinheiro destinado ao caixa 2 de campanhas do político tucano.

Na delação, consta que Joesley concordou com uma doação de R$ 20 milhões à campanha presidencial de Serra em 2010, sendo que R$ 6 milhões, segundo ele, foram pagos "através de notas frias para a empresa LRC Eventos e Promoções, com a falsa venda de um camarote no Autódromo de lnterlagos em São Paulo", disse Joesley à Lava Jato em 2017.

De acordo com a Veja, o empresário explicou assim a movimentação: "Como se nós tivéssemos comprado um camarote de Fórmula 1. E teve realmente esse camarote e teve essa corrida de Fórmula 1. Só não podia custar 6 milhões, né?".

Por muitos anos, pelo menos entre 1990 e 2012, a LRC foi operadora responsável pela venda de ingressos para o GP Brasil, um evento privado organizado pela empresa International Publicity - Interpub Eventos, do empresário Tamas Rohonyi. Em 2009 e 2010, por exemplo, os ingressos para a corrida foram vendidos pelo site "LCRFormula1".

Ainda que seja um evento privado, a corrida tem apoio financeiro da prefeitura de São Paulo, que tradicionalmente paga por estruturas provisórias, como as arquibancadas. Em 2010 o prefeito da cidade era Gilberto Kassab (então no DEM), originalmente eleito como vice de Serra, e o governador era Alberto Goldman (PSDB), que assumiu em abril de 2010, também graças a uma renúncia de Serra.

No rastro da dica de Joesley

As relações entre a LRC e Serra voltaram a aparecer na delação premiada de Elon Gomes de Almeida, ex-diretor-presidente de um dos braços do grupo Qualicorp, que relatou que a empresa repassou R$ 5 milhões à campanha vitoriosa de Serra para o Senado a partir de pagamentos mascarados por contratos falsos. Entre eles, um envolvendo a Fórmula 1.

A partir da delação, os investigadores da Lava Jato de São Paulo encontraram uma verba de mais de R$ 2,4 milhões que saiu da Qualicorp e chegou à LRC, que oficialmente doou R$ 50 mil para a companha de Serra naquele ano, ainda que uma transferência bancária de R$ 100 mil tenha sido identificada pelos investigadores. Na contramão, o comitê financeiro da campanha de Serra pagou R$ 521 mil à LRC.

O MPF cita que Erlon, o delator, transferiu R$ 12 milhões para uma empresa de nome IGS Consultoria, sendo R$ 3 milhões a título de "intermediação" de um negócio. Descontados impostos, R$ 2,474 milhões foram depois repassados à LRC, mediante "simulação do pagamento de lucros".

A partir daí, o MPF conclui "pela existência de indícios veementes que requerem o aprofundamento das investigações, no sentido de que as pessoas jurídicas citadas estejam efetivamente envolvidas com movimentações financeiras típicas da prática da lavagem de dinheiro, a fim de ocultar e dissimular a origem de quantias exorbitantes não declaradas, destinadas à campanha eleitoral do investigado José Serra".

Também chamou atenção dos investigadores que a LRC recebeu outra transferência, de quase R$ 1,5 milhão, de outra empresa investigada pela Lava Jato, a construtora JHFS, acusada de pagar propina a outros agentes públicos. A construtora foi um dos alvos da operação da PF que mirou Serra e disse a investidores que entregou aos policias contrato com a LRC para compra de ingressos para o GP Brasil de 2014.

Na entrevista coletiva em que falou da operação, o delegado Milton Fornazari Júnior disse que, com os mandatos de busca e apreensão autorizados pela 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, foi possível encontrar novos contratos entre a LRC e Serra

"Nas investigações em relação a essa empresa, que supostamente comercializava camarotes de Fórmula 1, nós identificamos uma elevada troca de valores com o partido do então candidato nas eleições de 2010. Nós identificamos também na busca de hoje a existência de contratos entre um dos sócios da empresa e o partido do então candidato. Nós conseguimos identificar robustos indícios da existência de vínculos entre os donos dessa empresa, que recebeu esses repasses por meio da criação de uma sociedade por conta de participação, e o candidato", disse o delegado.

Em nota após a operação, Serra disse que "a decisão da Justiça Eleitoral é baseada em fatos antigos e em investigação até então desconhecida do senador e de sua defesa, na qual, ressalte-se, José Serra jamais foi ouvido". "José Serra lamenta a espetacularização que tem permeado ações deste tipo no país, reforça que jamais recebeu vantagens indevidas ao longo dos seus 40 anos de vida pública e que sempre pautou sua carreira política na lisura e austeridade em relação aos gastos públicos", diz a nota.

A Qualicorp divulgou nota informando "que houve busca e apreensão em sua sede administrativa e que a nova administração da empresa fará uma apuração completa dos fatos narrados nas notícias divulgadas na imprensa e está colaborando com as autoridades públicas competentes." O advogado Celso Vilardi, que defende o empresário José Seripieri, fundador da Qualicorp, disse ser injustificável a decretação de prisão temporária de seu cliente.