PUBLICIDADE
Topo

Olhar Olímpico

Nadadora síria que salvou refugiados no mar fala sobre sua 2ª Olimpíada

Yusra Mardini - Divulgação
Yusra Mardini Imagem: Divulgação
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

23/07/2020 04h00

Yusra Mardini ainda guarda na lembrança a recepção calorosa do torcedor brasileiro, ao mesmo tempo respeitosa e efusiva, à sua entrada no Maracanã, na cerimônia de abertura da Rio-2016. Com uma história de superação, a nadadora nascida na Síria era o rosto da equipe olímpica de refugiados. Um ciclo olímpico inteiro depois, ela se dedica ao sonho de disputar de disputar mais uma edição dos Jogos enquanto se consolida como uma das protagonistas de um ainda urgente debate global sobre refugiados.

"Disputar a Olimpíada do Rio foi um sonho. Eu nunca esperava que pudesse estar aí, foi uma experiência muito boa, que me deu muita motivação para tentar qualificar-me para outras Olimpíadas. Quero mostrar para todo mundo que um refugiado pode conseguir o que quer, porque também temos a força necessária", disse, em entrevista por telefone ao Olhar Olímpico.

Yusra fez parte do primeiro time de refugiados a disputar uma edição dos Jogos Olímpicos. Nascida na Síria, onde praticava natação e sonhava em um dia ir à Olimpíada, ela precisou fugir do país em 2015, aos 17 anos. Mas o motor do barco que levava, ela, a irmã e outros refugiados da Turquia para uma ilha grega parou de funcionar em alto mar e a embarcação ficou à deriva. Só ela, a irmã e outras duas pessoas sabiam nadar, mas todos se salvaram, porque elas puxaram o barco por três horas e meia.

A história que emocionou o mundo segue sendo o cartão de visitas para que Yusra, que se transformou em 2017 em embaixadora da boa vontade da Agência das Nações Unidas (ONU) para os Refugiados, conhecida pela sigla Acnur. No ano seguinte ela lançou seu relato autobiográfico, no livro Butterfly, ainda não publicado no Brasil. Desde a semana passada, é possível também contratar pelo Airbnb uma experiência na qual a nadadora conta sua história.

"Eu dou muitas palestras sobre refugiados, tento ajudar, falar que os refugiados são pessoas normais, que têm sonhos e objetivos como qualquer pessoas. Explicar que o refugiado muda de país porque quer uma chance de vida. Por causa da Covid, as palestras pararam, mas espero poder voltar logo a dar palestras e visitar campos (de refugiados)", disse ela, que vive na Alemanha.

Aos 22 anos, a nadadora é uma das jovens mulheres que nos últimos anos assumiu protagonismo em discussões globais, acompanhando a paquistanesa Malala Yousafzai, Nobel da Paz de 2014, e da sueca Greta Thunberg, que recentemente venceu o Prêmio Gulbenkian para a Humanidade. Yusra vê semelhanças entre as três.

"Nós usamos a força que nós temos para ajudar outras pessoas que precisam de ajuda, outras mulheres que precisam de ajuda, refugiados que precisam de ajuda. Temos em comum o pensamento de uma forma humana, queremos ajudar outros, e queremos usar nossa força para ajudar outros. Queremos mudar o mundo para algo melhor", avalia.

Para Yusra, a geração dela, de Greta e de Malala tem a força que falta nos mais velhos para mudar o mundo. "Essa geração é realmente muito forte e está antenada nos problemas no mundo e em como ela podem resolver esses problemas. É muito importante ouvir a geração mais jovem. Os mais jovens ainda têm força, ainda querem chegar a algum lugar, têm novas ideias, novas formas de ver o mundo, e estão abertos para mudanças."

Depois de se afastar por um tempo da natação, para, segundo suas palavras, se reencontrar com a "vida real" depois dos holofotes lançados sobre ela na Rio-2016, Yusra participou no ano passado do Campeonato Mundial de Natação pela equipe de refugiados, ficando no 73º lugar nos 100m livre e em 47º nos 100m borboleta. Agora treinando em Hamburgo, há uma hora e meia de trem de Berlim, onde mora a família, ela tem como meta conseguir a qualificação para Tóquio pelos critérios universais.

"Ainda não foram publicados os critérios para a convocação para a equipe de refugiados, estamos esperando mais detalhes, mas meu objetivo é estar de novo nos Jogos Olímpicos", explica. Depois de duas semanas de férias de "verão", ela deve começar a temporada 2020/2021, visando Tóquio, em agosto.

Enquanto busca o índice, Yusra é uma das inscritas na nova plataforma de experiências online do Airbnb, em parceria com o Comitê Olímpico. Nela, é possível reservar um horário para participar de um chat em vídeo com a nadadora em que ela compartilha sua história. Há outros vários atletas olímpicos inscritos.

A também nadadora norte-americana Breeja Larson, por exemplo, compartilha experiências sobre metas para se tornar medalhista olímpica. O brasileiro Bruno Fontes, hoje técnico da equipe chinesa de vela, dá orientações de treinamento físico em casa. Janeth, do basquete, e Fabiana Murer, do atletismo, também estão entre os brasileiros que vão oferecer experiências pela plataforma, de acordo com o Airbnb.