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Grã-Bretanha usou substância secreta por medalhas em Londres, diz jornal

Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

12/07/2020 04h00

A agência britânica equivalente ao Ministério do Esporte estimulou atletas a utilizarem uma substância secreta, estudada em parceria entre a Universidade de Oxford e as Forças Armadas dos Estados Unidos, e que poderia ajudar o país a conquistar bons resultados nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. A revelação consta em longa reportagem publicada neste domingo (11) pelo jornal britânico Daily Mail, que ressalta que até hoje não se sabe se o procedimento ajudou no quadro de medalhas. Testes de laboratório com ciclistas e remadores mostraram benefício de 1% a 2% no desempenho.

Não se pode afirmar que a substância, enviada a 91 atletas de elite da Grã-Bretanha em oito esportes olímpicos, seja considerada uma violação no Código Antidoping, porque essa substância, uma versão sintética de um ácido produzido pelo corpo humano conhecido como cetona, não consta na lista de proibidas. A cetona sintética só está disponível para pesquisa e, aos atletas, foi fornecida por meio de uma bebida que recebeu o nome de DeltaG, que desde 2018 é comercializada prometendo aumentar o desempenho de atletas de resistência.

Aos atletas, em 2012, sempre segundo o jornal, a UK Sport alertou que "não garantia, prometia ou assegurava que o uso de ésteres de cetona estava absolutamente em conformidade com o Código Mundial Antidopagem e, portanto, excluía toda sua responsabilidade". Trocando em miúdos: se o atleta fosse pego no doping, a responsabilidade seria toda dele.

O relato do jornal coincide com o histórico de desenvolvimento de substâncias dopantes. Quem pretende valer-se do popular "jogo sujo" costuma buscar formas de obter vantagem esportiva a partir ou de substâncias ainda não conhecidas pela Agência Mundial Antidoping (Wada), ou que seus efeitos dopantes não são conhecidos pela comunidade internacional, ou de substâncias proibidas que possam ser de alguma forma mascaradas. Daí se explica por que centenas de testes feitos em Pequim-2008 ou Londres-2012 inicialmente deram negativo e, anos depois, foram considerados doping.

Por isso a reportagem é grave. Ela aponta que, sob financiamento público, atletas britânicos foram estimulados a utilizaram uma droga que o Departamento de Defesa dos Estados Unidos financia pela sua suposta capacidade de alimentar seus militares com menos alimento. Se esse efeito fosse comprovado, esses atletas teriam vantagem esportiva sobre seus rivais.

Sabendo disso, a UK Sports chegou a preparar um plano de gestão de crise caso o projeto vazasse. "Se outros tiverem conhecimento que a UK Sport está vinculada ao projeto, os riscos estarão em torno da vantagem competitiva injusta percebida", diz um memorando interno citado pelo jornal. Outro memorando, que propôs em 2011 o uso da substância, a cetona foi citada como sendo 'para desempenho de resistência física e cognitiva'.

No documento aos atletas, a UK Sports disse que, no futuro, a Wada poderia testar de forma retroativa amostras colhidas após a ingestão da cetona sintética "se houver pressão da mídia se o conceito vazar", ainda que a substância fosse "difícil de provar ou testar com quaisquer amostras pós-evento".

Além disso, a UK Sports não se responsabilizaria por eventuais efeitos colaterais, o que acabou ocorrendo. A reportagem cita que 40% dos atletas tiveram efeitos colaterais, incluindo vômito e diarreia. Eles, porém, precisaram assinar um termo no qual não poderiam falar da substância para ninguém exceto a equipe de pesquisa, o que incluía até seus treinadores.

Ao jornal, a professora de Oxford que comanda a pesquisa, Kieran Clarke, citada como "uma líder altamente respeitada em seu campo de estudos", afirmou que apoiou que atletas britânicos usassem a substância em pesquisa, mas que desconhecida que eles utilizaram a cetona no âmbito dos Jogos Olímpicos. As federações de atletismo, ciclismo e hóquei admitiram o uso por parte de seus atletas.

Em nota ao Daily Mail, a UK Sports fisse que o projeto "recebeu aprovação ética independente do Grupo Consultivo para Pesquisa em janeiro de 2012" e a agência antidoping britânica afirmou que consultou a Wada na ocasião e esta respondeu, por escrito, que "não tinha motivos para considerar substâncias proibidas pela Lista de Substâncias e Métodos Proibidos de 2011.