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Universidade se espelha nos EUA para unir a Paraíba em torno do basquete

Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

07/07/2020 04h00

A cidade de Campina Grande parou na noite do dia 31 de maio de 2019. Os bares lotaram, a praça de alimentação do shopping instalou telão, e as televisões sintonizaram uma afiliada da TV Cultura. Naquele dia, no Morumbi lotado, pela primeira vez um time paraibano se tornava campeão nacional. O fato de a Liga Ouro ser só a segunda divisão do basquete brasileiro não diminuiu o entusiasmo, até porque do outro lado estava o todo poderoso São Paulo.

De tantos passos dados desde que o oftalmologista Diego Gadelha voltou de um estágio em Harvard empenhado a aplicar em Campina Grande os aprendizados como torcedor assíduo do Boston Celtics, aquele era o maior. A Unifacisa carimbou passaporte para o NBB e ganhou o direito de começar a escrever sobre uma página em branco a história do mais arrojado projeto do basquete brasileiro. "Para você montar um time de futebol e derrotar o São Paulo, você precisa de bilhões. No basquete, a gente consegue ter o mesmo impacto, com um investimento muito menor", ele explica.

Os números falam por si. Enquanto clubes de camisa jogam de portões abertos, cobrando quando muito um quilo de alimento, a Unifacisa colocou à venda 600 carnês para a temporada, por R$ 450, e vendeu todos. Nos jogos mais atrativos, ficou perto de lotar seu acanhado ginásio, vendendo mais de 500 outros ingressos. Por isso, a equipe foi líder de bilheteria na sua primeira temporada no NBB.

"O que a gente arrecada de bilheteria paga os nossos custos com o match day, viabiliza nosso evento. Temos cheerleader, telão, canhão de luz, locutor. O animador do Jogo das Estrelas vem para todos os nossos jogos. Temos esse diferencial", diz Diego Gadelha, diretor esportivo do clube, médico (e por isso tratado por "doutor") e, na prática, dono do time.

A Unifacisa é uma universidade particular de excelência no interior do Nordeste, de propriedade da família Gadelha. A mãe de Diego, Gisele, é a reitora. O pai, Dalton, o chanceler. O médico é também diretor de inovação em saúde, além de ser responsável pelo projeto esportivo, que nasceu depois do estágio em Harvard.

"A gente trata o jogo como um grande evento. Morei do lado do TD Garden, acompanhava os jogos do Celtics, e trouxe muito dessa ideia, baseado também nos colleges americanos", conta Gadelha. O estágio foi em 2012 e, no ano seguinte, nasceu o projeto do basquete da Unifacisa. Desde então, toda a evolução do projeto aconteceu dentro de quadra.

Por mais que fosse possível comprar uma franquia e entrar direto no NBB, a Unifacisa quis subir passo a passo. Venceu seis vezes o Campeonato Paraibano, depois a Copa do Nordeste e, com o título da Copa do Brasil, ganhou o direito de disputar a Liga Ouro. Ficou em quinto no primeiro ano e, em 2019, faturou o título e uma vaga no NBB ao vencer o São Paulo em uma emocionante série melhor de cinco jogos decidida no último lance.

Paixão campinense

"A gente tem orgulho de muita coisa em Campina Grande, é muito bairrista", analisa Gadelha. "Temos o maior São João do mundo, é única cidade que a federação das indústrias não é na capital, e tem o maior clássico do interior do Brasil, entre Treze e Campinense. Mas um está na Série C e outro na D. A rivalidade divide a cidade, e o basquete chega como uma coisa que não tem rivalidade. A cidade inteira torce."

É um modelo que deu certo em cidades ricas do interior no Sul e no Sudeste, seja no futsal (Joinville, Cascavel, Carlos Barbosa, etc), no basquete (Franca, Bauru, Mogi, Americana, etc) ou no vôlei (Osasco, Taubaté, Uberlândia, etc). Do Nordeste, em contraponto, só vieram duas equipes nas 11 primeiras edições do NBB: o Basquete Cearense, de Fortaleza, e Vitória, de Salvador.

A Unifacisa quebra essa lógica. E também confronta o modelo de patrocínio a uma equipe autônoma. Diferente de outros projetos, a Unifacisa não é patrocinadora, mas dona do time. Os CNPJ's do time e da universidade só são diferentes porque, pela Lei Pelé, só entidades de prática esportiva (clubes, associações) podem disputar campeonatos nacionais.

Na prática, universidade e time se confundem. E esse é um trunfo. "A gente não trata o basquete como patrocínio, mas como parte do nosso ecossistema. A clínica de fisioterapia, a academia, é tudo dentro da instituição, faz parte do nosso complexo universitário. É a própria instituição que está jogando", explica Gadelha, que faz questão de ressaltar que o time é bancado pelos patrocinadores da cidade, não pelo lucro da universidade.

"O basquete precisa ser autossustentável e vai ser campeão desde que consiga prover uma sustentabilidade", afirma. O médico propagandeia que a empresa familiar tem como conceito dividir os lucos com a comunidade, o que tem encantado quem conhece o projeto mais de perto. A família mantém um teatro, acabou de montar um museu de arte contemporânea, tem diversos projetos sociais e está construindo aquele que promete ser o maior hospital da Paraíba.

"A gente não tiraria da faculdade, do hospital, para investir no basquete. Por isso a gente criou essa estrutura. A gente tem aquele que é disparado o melhor evento do basquete brasileiro, isso numa região que não existia basquete. Gerar sustentabilidade financeira para ser campeão é o que nos move", conta.

Como a família também é proprietária de uma retransmissora da TV Cultura na cidade, os jogos do time desde a Copa do Nordeste são transmitidos pelo canal. Foi assim que a cidade viu a final da Liga Ouro contra o São Paulo, com "share de Copa do Mundo", segundo Gadelha. "Foi realmente uma representação do orgulho que o povo paraibano e nordestino tem de tantos anos de se sentir menos valorizado. Acho que foi algo bem emblemático que mexeu, com essa sensação de orgulho." O time foi recebido com desfile em carro dos bombeiros e palco em praça pública.

Dá para ser campeão?

O técnico Felipe Luiz Santana, o Filé, foi chamado para começar a escrever sobre uma página em branco, como ele mesmo compara. Antigo responsável pela base do Palmeiras, que formou Yago Mateus, Gabriel Jaú e Caio Pacheco, o profissional de 33 anos chegou à Unifacisa no ano passado como auxiliar, para ganhar experiência e se tornar o treinador principal na temporada seguinte, se o time vencesse a Liga Ouro. O título veio e, com ele, a promoção ao NBB.

A primeira temporada surpreendeu. A equipe ficou a maior parte do campeonato entre o sétimo e o oitavo lugares, brigando com Corinthians, Botafogo e Paulistano, chegou ao Super 8, e só caiu para décimo porque perdeu nos detalhes para o São Paulo, por 103 a 106, no último jogo antes da paralisação, disputado já depois de o NBB comunicar que suspenderia o torneio.

Por causa da pandemia, o orçamento do clube foi reduzido quase pela metade para a próxima temporada. Mas a boa fama fez o time largar na frente, anunciando reforços antes que todo mundo, entre eles o ala Betinho. "Os jogadores viram que a Unifacisa paga rigorosamente em dia, o que não é regra no basquete brasileiro. Mesmo com a pandemia, honrou todos os contratos até o final. A estrutura foi crescendo e melhorando. A equipe jogou um bom basquete, bastante coletivo, com uma forma de jogar bastante agradável, e isso atrai", avalia Filé.

Acadêmico, com mestrado na área de análise de desempenho, Filé aposta também no trabalho estatístico, auxiliado por um norte-americano, Kevin Smith, o KJ, também especialista em scouts. "A gente quer trabalhar com jogadores mais jovens, que não conseguiram mostrar seu potencial em outras equipes porque eram reservas. Você junta essas peças e pode ser um time que vai causar incômodo", diz Gadelha, que é quem tem a palavra final nas contratações.

A ideia é continua subindo passo a passo. Para o NBB 13, a meta é conseguir uma vaga nas competições continentais - Liga Sul-Americana e Champions League -, atraindo novos patrocinadores e movimentando mais a cidade, para ampliar o orçamento e, assim, passar a brigar diretamente por título.