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Didático, filme da Netflix pode inspirar mudança sobre assédio no esporte

Ginasta americana Margaret Nichols, retratada em documentário da Netflix -  Ian MacNicol/Getty images
Ginasta americana Margaret Nichols, retratada em documentário da Netflix Imagem: Ian MacNicol/Getty images
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

30/06/2020 04h00

O braço de educação do Comitê Olímpico do Brasil (COB) lançou em março um curso online de "Prevenção e Enfrentamento do Assédio e Abuso no Esporte", que tem sido bastante elogiado. A carga horária, de 30 horas, porém, precisa ser ampliada para 32. Lançado na semana passada, o documentário "Atleta A", disponível na Netflix, já é obrigatório em qualquer discussão sobre o tema. Ele mostra tudo que dirigentes e assediadores sempre quiseram que as vítimas não soubessem.

O documentário, dos cineastas Bonni Cohen e Jon Shenk, conta a história da ginasta Maggie Nichols, que era descrita como "Atleta A" nos documentos relativos às denúncias contra o médico Larry Nassar, acusado (e depois condenado) por assediar sexualmente centenas de atletas norte-americanas ao longo de três décadas. A partir da história de Maggie, o filme conta todo o processo de transformação das primeiras denúncias em um escândalo público.

Quatro anos depois da publicação das primeiras reportagens sobre o assunto, o documentário não traz grandes revelações. Seu mérito é condensar uma história complexa em menos de duas horas. Digo por mim, um jornalista especializado em esporte olímpico. Eu nunca havia entendido tão bem o chamado "caso Larry Nassar" quanto entendi agora. É a verdade nua e crua de um caso emblemático na história do esporte.

O didatismo do documentário tem poder de fazer uma revolução no esporte, porque segue uma ordem lógica: médicos (ou treinadores, ou colegas, etc.) não podem realizar toques íntimos sob qualquer pretexto; autoridades, dirigentes, treinadores, têm obrigação de reportar denúncias recebidas; basta um caso vir a público para que seja puxado o fio atraindo outros relatos, principalmente com a visibilidade oferecida pela imprensa séria.

Porém, o mais importante: 'Atleta A' é claro ao apontar que os atletas não são culpados pelas consequências ocasionadas por denúncias de assédio. Os responsáveis são unicamente os assediadores e aqueles que os acobertam.

É frustrante que denúncias não deem em nada. Dou, de novo, meu relato pessoal. Demonstrei em reportagens que a Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) levou um mês para afastar o técnico Fernando de Carvalho Lopes da seleção após ser informada das acusações de assédio contra ele. E que o clube dele, o Mesc, sabia há 15 anos das acusações. São duas situações idênticas às relatadas no documentário, tratadas nos EUA como absurdas, mas por aqui deu em nada. A presidente da CBG continua no cargo, incontestada e pronta para eleger o filho para seu lugar. A comissão técnica da seleção continua lá.

Acostumamo-nos a aceitar que as coisas são assim e não há muito o que fazer. 'Atleta A' mostra que há, sim. Que é crime uma confederação receber um relato de assédio sexual e não levá-lo à polícia. Que é papel do Ministério Público e da polícia levar a sério as investigações, e da Justiça punir exemplarmente. Os atletas, as vítimas, os sobreviventes, precisam confiar no sistema. E a imprensa deve acompanhar tudo de perto, utilizando sua força para expor erros e incoerências.

O motivo de esperança é que esse sistema parece estar em evolução. Depois do escândalo Fernando, a CBG assumiu um compromisso público de combate ao assédio com o Ministério Público do Trabalho (CBT) e o COB tem sido um porta-voz de políticas de combate e enfrentamento ao assédio. Além disso, a imprensa brasileira segue atenta e interessada em expor assediadores e pedófilos, assim como existem promotores, delegados e advogados, homens e mulheres, trabalhando pela punição dos acusados.

Se você quer relatar um caso de assédio, o COB oferece uma plataforma sigilosa disponível neste link. Também vale procurar, pelo site da polícia civil do seu estado, os endereço e telefone da delegacia da mulher mais próxima, ou o conselho tutelar da sua cidade, caso a vítima seja uma criança ou adolescente.

Olhar Olímpico