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MP: Dinheiro desviado pagou show de Abravanel em casório de Bia Figueiredo

Ilya S. Savenok/Getty Images
Imagem: Ilya S. Savenok/Getty Images
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

26/06/2020 14h00

A denúncia que embasou a operação Pagão aponta que o show do cantor Tiago Abravanel durante o casamento da piloto Bia Figueiredo com seu marido, Fábio Andrade, foi pago com dinheiro desviado da saúde do Rio de Janeiro. Fábio e o pai foram presos ontem (25) no Rio, acusados de "centenas de crimes contra a administração pública". Além disso, parte da carreira da piloto, atualmente afastada da Stock Car por estar grávida, teria sido bancada com esses recursos desviados, segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ).

A operação Pagão foi pedida pelo Grupo de Atuação Especializada no Combate à Corrupção (Gaecc) do MPRJ, que investigou supostos desvios promovidos pelo Instituto dos Lagos Rio, uma organização social (OS) que opera equipamentos públicos de saúde como hospitais e Unidades de Pronto Atendimento (UPA's). Essa OS é comandada por Juracy Batista de Souza Filho, médico, que segundo o MP era o cabeça do suposto esquema criminoso. Ele é pai de Fábio e sogro de Bia. Entre 2012 e maio de 2019, o governo estadual do Rio empenhou quase R$ 650 milhões para o Instituto dos Lagos Rio para gestão de unidades de saúde, de acordo com o MP..

No entender do MP, os denunciados (pessoas da família de Juracy e membros da diretoria da OS) desviavam recursos "através de pagamentos de valores com sobrepreço ou superfaturados sob o pretexto da aquisição de produtos ou terceirização de serviços necessários ao cumprimento do contrato".

"No afã de manterem os ativos desviados a salvo das autoridades, também foram realizados repasses a pessoas jurídicas 'de papel', de 'fachada', a fim de dissimular e ocultar a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade dos bens e valores provenientes das infrações penais de peculato", diz a denúncia.

Uma dessas empresas de fachada, segundo a denúncia, seria a BTrês Produção e Promoção de Eventos Esportivos e Culturais, que pertence a Bia Figueiredo. A empresa recebeu R$ 400 mil entre 1 e 2 de agosto de 2013 e mais R$ 1,176 milhão entre agosto de 2015 e janeiro de 2016. Em ambos os períodos, Fábio, primeiro namorado e depois marido de Bia, era diretor administrativo e financeiro da OS.

Os pagamentos foram realizados pela F71 Serviços, que o MP diz tratar-se de "fornecedora montada para para canalizar os recursos em favor do clã Batista", tendo sido fundada um dia após a qualificação do Instituto dos Lagos Rio como OS no âmbito do estado do Rio. A empresa está em nome de Renê Borges Guimarães, que, segundo o MP, foi escolhido "pro forma" para ocupar o quadro societário — ele seria um "laranja". Os "reais controladores" da empresa, que recebeu R$ 9,8 milhões do Instituto, seriam Juracy e Fábio. Estes dois foram presos ontem, mas Renê encontra-se foragido.

Renê, Fábio e Bia aparecem em diversas fotos nas redes sociais dela. O casal foi padrinho do casamento de Renê. A relação vai além. A F71 é proprietária do imóvel onde consta que Fábio mora, um apartamento na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Ao longo de mais de 200 páginas de denúncia, o MP detalha como o dinheiro saía da OS e chegava às mãos do "clã Batista".

Em uma das movimentações, a F71 pagou R$ 399 mil à JL Indústria e Comércio. Questionada pelo MP, essa empresa, apresentou nota fiscal de "aluguel de motor automobilístico" para a equipe Full Time para a temporada 2017. Esta é a equipe que Bia defendeu na temporada 2017 da Stock Car.

Apesar de sua empresa (BTrês) ter recebido R$ 1,576 milhão da F71, a piloto não é denunciada por lavagem de dinheiro, apenas seu marido Fábio e os sócios da F71, Renê e José Antonio Sabino Júnior. A denúncia aponta que a empresa de Bia era, na verdade, controlada por Fábio.

O empresário e a piloto se casaram em janeiro de 2016, mês do último de seis repasses de R$ 196 mil à BTrês. A denúncia utiliza reportagem do site da revista Caras para atestar que a cerimônia foi de "requinte". "O teor da matéria, além de servir de elemento informativo para o crime de lavagem de dinheiro, corrobora às evidências colhidas de que o noivo é, efetivamente, o controlador da F71", diz o MP.

A denúncia aponta ainda que a F71 depositou R$ 20 mil na conta da empresa Cintia & Tiago Abravanel, que pertence ao cantor que se apresentou durante a festa de casamento. "Irrecusavelmente, os pagamentos realizados pela F71 SERVIÇOS em favor do artista e da empresa da noiva desnudam a identidade do real controlador da fornecedora de serviços, na pessoa de Fábio Andrade", aponta a denúncia.

O UOL entrou em contato com a assessoria de imprensa de Bia Figueiredo. Os representantes disseram que a piloto não foi acionada ou notificada judicialmente e que vai responder a todos os questionamentos feitos pela imprensa assim que os advogados analisarem todo o processo. A reportagem enviou e-mail e telefonou para os números informados no site do Instituto dos Lagos Rio, mas não houve retorno.