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Mãe e filha se preparam para irem juntas à Paraolimpíada

Lethicia Lacerda, do tênis de mesa, e a mãe, Jane Karla, do tiro com arco - Arquivo Pessoal
Lethicia Lacerda, do tênis de mesa, e a mãe, Jane Karla, do tiro com arco Imagem: Arquivo Pessoal
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

18/06/2020 04h00

Os Jogos Paraolímpicos de Tóquio, se confirmados, deverão ser palco de um momento raro na história do esporte: mãe e filha disputando a mesma edição do evento, em modalidades diferentes. Aos 17 anos, Lethicia Lacerda está confirmada para fazer sua estreia no tênis de mesa. A mãe dela, Jane Karla, de 44, tem tudo encaminhado para ir à Paraolimpíada pela quarta vez, a segunda no tiro com arco.

Natural de Goiânia, Jane Karla teve poliomelite na infância, aos 3 anos, e desde então é cadeirante. Já perto dos 30 anos, foi apresentada ao tênis de mesa, modalidade que a levou aos Jogos Paraolímpicos de Pequim-2008 e Londres-2012. E também que a apresentou ao seu hoje marido, o alemão Joachim Gogël, treinador de tênis de mesa paraolímpico..

"Conheci ele num campeonato quando garanti a vaga para Pequim e a seleção paraolímpica toda foi treinar com ele na Alemanha. Ele foi um técnico muito bom e depois a gente começou a se comunicar mais. Fui para lá de novo e fiquei na casa dele, depois ele veio no Brasil, conheci a família dele... e a gente acabou decidindo se casar", conta Jane, que em 2011 teve que tratar um câncer de mama, doença que acabou vitimando sua mãe, na mesma época - o UOL VivaBem contou esta história.

Até então, ela era uma jogadora de tênis de mesa paraolímpico, Joachim era apaixonado pelo Brasil e a filha Lethicia se arriscava no tênis de mesa convencional, disputando campeonatos nacionais nas categorias de base. Em pouco tempo, porém, a vida da família virou de cabeça para baixo.

Em 2014, com a abertura do Centro Paraolímpico, em São Paulo, a Confederação Brasileira de Tênis de Mesa optou por concentrar as atividades da seleção paraolímpica na capital paulista. Jane não queria deixar Goiânia e, na falta de outra opção, decidiu mudar de esporte. No ano seguinte, já ganhava o Parapan no tiro com arco, classificando-se para a Rio-2016.

Mais uma grande pedra no caminho surgiu em 2017, quando a casa da família em Goiânia foi assaltada, com os moradores feitos de reféns. "Foram momentos muito difíceis. Os bandidos chutaram meu esposo, trancaram meus filhos e eu no quarto, sequestraram meu esposo, falaram que iam matar ele", conta Jane. "A gente viveu momentos traumatizantes", reforça a filha.

Não havia como continuar vivendo em Goiânia, com medo. A paixão de Joachim pelo Brasil também havia ido embora. Pela dificuldade da língua, morar na Alemanha não seria boa ideia. A opção acabou sendo o meio do caminho. Em Portugal a família seguiria falando português, agora mais perto da Alemanha e das competições do tiro com arco.

Naquele momento, mais uma dificuldade havia surgido na vida da família. Aos 14, Lethicia começou a sentir dores agudas no quadril, que dificultavam sua locomoção. "Até tentei ir para o tiro com arco, assim tinha mais possibilidade de ficar sentada, mas não combinou comigo, sou muito ativa. Uma prima falou das Paraolimpíadas escolares, eu fui, gostei muito, e aquilo abriu os olhos para poder ver que eu poderia fazer tudo aquilo. Eu não consigo mais andar de bicicleta, de patins, não consigo pular, correr, fui tudo muito doloroso para mim. Mas eu consegui ver que eu ainda conseguiria fazer algumas coisas que eu amo", conta.

Em pouco tempo no tênis de mesa, Lethicia já se destacou. Campeã continental sub-21 em 2017, no ano passado ela foi medalhista de bronze do Parapan. Hoje, é a melhor brasileira das Américas na classe F8 e, por isso, está classificada para sua primeira Paraolimpíada. A confirmação da vaga veio na semana passada, mas nem ela nem a mãe estão conseguindo treinar.

A família hoje mora em Coimbra, perto de Lisboa, em um pequeno apartamento, onde não cabe uma mesa de tênis de mesa. Jane, que no fim do ano passado bateu o recorde mundial indoor, até atira na sala, mas a uma distância de cinco metros do alvo, atrapalhando quem tenta assistir televisão.