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Escândalo de doping e corrupção atinge levantamento de peso e Olimpíada

Tamas Ajan, presidente da Federação Internacional de Levantamento de Peso (IWF), em entrevista coletiva em 2008 - Yves Herman/Reuters
Tamas Ajan, presidente da Federação Internacional de Levantamento de Peso (IWF), em entrevista coletiva em 2008 Imagem: Yves Herman/Reuters
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

05/06/2020 13h14

Enquanto as mortes por coronavírus no mundo já são mais de 300 mil e os Estados Unidos passam por uma onda história de protestos contra o racismo, o esporte se depara com mais um escândalo, agora no levantamento de peso. Um relatório independente publicado ontem (4) aponta que o agora ex-presidente da Federação Internacional de Levantamento de Peso (IWF, na sigla em inglês), Tamás Ajan, nascido na Romênia, mas cidadão húngaro, comandava um esquema que envolvia compra de votos, suborno e acobertamento de dezenas, senão centenas, de casos de doping.

O escândalo tem potencial para ser ainda mais danoso, talvez menos midiático, do que aquele que ainda envolve a Rússia e o atletismo. Desta vez existem indícios robustos para apontar que uma modalidade como um todo não pratica ou não controla o jogo limpo e que ao menos dois países, Azerbaijão e Turquia, agiam para acobertar o doping. Tudo sob o controle de Ajan, membro do Conselho Executivo da Agência Mundial Antiodoping (Wada).

Junto com o atletismo, o levantamento de peso historicamente é o esporte olímpico com mais casos de doping, especialmente por anabolizantes. A profundidade do problema, porém, só começou a ser conhecida em 2016, quando o Comitê Olímpico Internacional (COI) reanalisou as amostras de testes antidoping colhidas na Olimpíada de 2008 e encontrou resultados positivos nos testes de 26 atletas. Até então, oito anos após Pequim-2008, ainda não se conhecia nenhum caso na modalidade. Na soma com as retestagens de Londres-2012 são 60 casos positivos.

A IWF foi pressionada a ser mais rigorosa nas punições, e o fez, criando regras que punem também os países por acúmulo de casos. Em Tóquio, Cazaquistão, Azerbaijão, Rússia, Bielo-Rússia, Armênia e Tailândia só poderão ter um homem e uma mulher na modalidade, porque tiveram mais de 20 casos de doping no ciclo cada uma. Outros países como Uzbequistão, Turquia, Irã, Egito, Bulgária, Ucrânia e Romênia terão limite de dois homens e duas mulheres.

Mesmo assim, porém, a IWF e seu presidente Tamás Ajan lucraram acobertando casos de doping, pelo que aponta o relatório do advogado canadense Richard McLaren. Também responsável por investigar o doping na Rússia, ele iniciou seus trabalhos depois da exibição de um documentário de um canal de televisão alemão, em janeiro, denominado 'Lord of the Lifters' (Senhor dos Levantadores), apontando uma série de irregularidades no levantamento de peso. Durante as investigações, Tamás Ajá renunciou ao posto de membro do Conselho Executivo do COI e, depois, à presidência da IWF, onde estava há 20 anos.

O novo relatório McLaren conta, entre outras, a história de Valentin Hristov, medalhista de bronze em Londres-2012. Nascido na Bulgária, ele foi comprado pelo Azerbaijão, que pagou US$ 500 mil à federação búlgara em 2011 para tê-lo na Olimpíada. Ele teve dois testes positivos, em abril e junho de 2013, mas não foi suspenso. Competiu no Mundial de outubro e em um Grand Prix em Baku, capital do Azerbaijão, em dezembro. Ele só foi suspenso em abril seguinte, um ano após o resultado positivo.

Em 2016, o presidente do Comitê Olímpico do Azerbaijão, que também é o presidente do país, Ilham Aliyev, enviou carta ao presidente da IWF agradecendo por segurar as suspensões, pelo que conta o relatório. No total, segundo McLaren, 18 atletas tiveram suas suspensões deliberadamente adiadas para depois desse torneio em Baku.

"Esse atraso intencional permitiu que esses 18 atletas competissem em vários campeonatos, distorcendo os resultados da competição e negando a outros atletas a oportunidade de competir legitimamente e ganhar medalhas", afirmou o relatório, segundo o site Inside The Games.

O relatório, porém, não fica só nas relações com o Azerbaijão. Vinte e um atletas turcos também escaparam de suspensão por doping, segundo a investigação. No total, foram achados 45 casos pendentes de suspensão relativos a um período entre 2009 e 2014 "nos quais parecia que nenhuma decisão havia sido proferida". Dois atletas turcos que teriam testado positivo em 2010 sem serem punidos depois foram ao pódio em Campeonatos Mundiais.

A investigação foi além e também encontrou indícios de corrupção. Entre 2009 e 2019, Aján arrecadou US$ 3 milhões em multas por doping, pagas sempre em dinheiro. Segundo o relatório, só ele, como presidente da IWF, recebia o dinheiro. Além disso, só ele tinha controle sobre os depósitos nas contas da IWF. O relatório aponta ainda que, por anos, o romeno se manteve no poder comprando votos para ele e para seus colegas do Conselho Executivo.