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Fim da vida impediu Coaracy de defender seu legado na natação

Coaracy Nunes - Satiro Sodré/SSPress
Coaracy Nunes Imagem: Satiro Sodré/SSPress
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

14/05/2020 13h19

Dirigente por trás das maiores conquistas da natação brasileira, e também responsabilizado pela derrocada da modalidade, Coaracy Nunes morreu neste dia 14 de maio, aos 82 anos. Diagnosticado e depois curado da Covid-19, o ex-dirigente foi vítima do tempo e morreu sem ter tido a oportunidade de defender sua extensa, vitoriosa e manchada biografia.

Quando foi preso preventivamente há pouco mais de quatro anos, Coaracy já não lembrava em nada o dirigente que comandou os esportes aquáticos brasileiros com mão de ferro por 25 anos. Diagnosticado com Alzeihmer, o que naquele momento não era fato público, o ex-presidente da CBDA não tinha lucidez suficiente para se defender das acusações que recebia. Nunca pôde revidar ou sequer responder o ataque dos seus críticos.

No total, foram 82 dias detido ao lado de outros três antigos dirigentes da CBDA, que, de parceiros num suposto esquema criminoso, se transformaram em cuidadores de um idoso senil. Naquele momento, nenhum tinha poder, estavam todos distantes de uma CBDA comandada por um interventor. Mesmo assim foram detidos provisoriamente, antes de serem julgados.

"Usava-se a prisão provisória como elemento de tortura", chegou a afirmar o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em referência à Operação Lava Jato. A operação que levou Coaracy à prisão, nomeada Águas Claras, sustentou-se em prisões provisórias. Depois dela, a procuradora responsável Thaméa Danelon acabou transferida para a Lava Jato.

Para aliados de Coaracy, os excessos daquela prisão reforçam a tese de que as denúncias são falaciosas. Seus detratores, em contraponto, têm uma sentença judicial da terceira vara criminal federal de São Paulo para apoiarem a operação. Em outubro do ano passado, Coaracy foi condenado a 11 anos e cinco meses de reclusão (inicialmente em regime fechado) e outros três anos e seis meses de detenção por fraudes na gestão de recursos financeiros da entidade. Seus advogados recorreram e ele não chegou a voltar à prisão.

Das quatro denúncias, o ex-presidente da CBDA foi considerado culpado de duas: realizar quatro licitações fraudulentas para aquisição de equipamentos esportivos com recursos do então Ministério do Esporte (o UOL Esporte mostrou aqui indícios de superfaturamento no contrato) e apropriação de valores destinados originalmente à ida da seleção júnior para um Mundial de categoria no Cazaquistão, em 2015. A equipe não viajou e a Justiça entendeu que o dinheiro foi apropriado pelos dirigentes, ainda que a verba tenha continuado na conta da CBDA.

O cancelamento da viagem afetou dois filhos de um treinador, que por sua vez treinava os filhos de uma procuradora, e ali começou a derrocada de Coaracy. Até então, ele já estava no poder há 26 anos e não temia ser deixado para trás, assentando o caminho para eleger Ricardo de Moura, seu braço direito, nas eleições de 2016.

Enquanto transparência e, consequentemente, fiscalização, eram palavras que não constavam no dicionário do esporte, Coaracy não deu espaço a opositores. Das poucas atletas com coragem de reclamar publicamente, Joanna Maranhão perdeu a chance de fazer viagens para treinar e competir, deixou de ganhar bolsas, e, entre uma retaliação e outra, serviu de exemplo para quem ousasse incomodar. Afável e poderoso, convenceu outros atletas que pretendiam se opor a ele.

Parte de uma geração de dirigentes que assumiu suas confederações no pós-redemocratização, Coaracy foi eleito pela primeira vez em 1988 e comandou a fase de ouro da natação brasileira. Era ele o presidente nas medalhas olímpicas de Gustavo Borges, Xuxa, Cesar Cielo e Thiago Pereira. Foi na gestão dele que patrocínios vultosos irrigaram os cofres da confederação, especialmente dos Correios. Sob o comando de Coaracy, a CBDA ganhou 10 medalhas olímpicas. Muitos dos atletas que representaram o Brasil durante o período são sinceramente gratos a Coaracy.

Ao escolher continuar como presidente até 2016, reelegendo-se em 2013, Coaracy se tornou um presidente deslocado do seu tempo, com práticas antigas incompatíveis com os novos mecanismos de fiscalização. O mesmo aconteceu com Carlos Arthur Nuzman, no COB, Ricardo Teixeira, na CBF, Manoel Oliveira, no handebol, e Ary Graça, no vôlei.

Diferentemente dos demais, que se defendem ou se defenderam na Justiça das acusações sofridas, Coaracy não teve essa chance. O tempo não deixou.