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UFC reassume rótulo de "vale tudo" ao retomar eventos durante pandemia

Dana White, presidente do UFC - Brandon Magnus/Zuffa LLC via Getty Images
Dana White, presidente do UFC Imagem: Brandon Magnus/Zuffa LLC via Getty Images
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

09/05/2020 04h00

Por anos, o UFC tentou se desvincular do rótulo de "vale tudo", como o MMA (artes marciais mistas, em inglês) foi inicialmente conhecido no Brasil. Criou uma lista de golpes proibidos e, demorou, mas implantou uma política antidoping. Ao insistir em organizar eventos enquanto uma pandemia mata 7 mil pessoas por dia, a organização, contudo, deixa claro que debaixo da máscara a face do UFC continua sendo a do vale tudo.

Para Dana White, vale tudo para ganhar fazer dinheiro. Vale inclusive submeter atletas, treinadores, médicos, enfermeiros, árbitros, cinegrafistas, faxineiros, seguranças, motoristas, etc, etc e etc, ao risco de contágio de uma doença que está colocando em xeque o sistema de saúde dos Estados Unidos, onde o UFC 249 será realizado neste sábado (9), sem a presença de público.

O evento estava inicialmente marcado para acontecer em 18 de abril, em Nova York, mas foi proibido devido à pandemia do novo coronavírus. Dana tratou o cancelamento como um campeão trata uma derrota inesperada para um azarão. Exigiu revanche e passou a procurar soluções pra sua inflexível prioridade de sempre: ganhar dinheiro.

Tentou de tudo. Primeiro, disse que havia alugado uma ilha, num local desconhecido, para onde levaria os atletas. Depois, tentou realizar um evento em uma reserva indígena na Califórnia, onde os habitantes nativos têm autonomia sobre as decisões do governo estadual.

Conseguiu liberação para organizar o UFC 249 e outros dois eventos nos próximos dias em um ginásio de Jacksonville, na Flórida, estado onde as mortes já são contadas na casa do milhar. Só em Jacksonville, no norte do estado, são mais de mil casos confirmados, com 26 mortes.

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O UFC promete tomar todas as medidas de precaução possíveis. Testagem de todos os envolvidos, equipe reduzida ao mínimo de pessoas necessárias, protocolos não detalhados. Protocolos que reduzem o risco de contágio, mas não o eliminam. Antes de lutar, os atletas precisam treinar por dias com diversas técnicos e sparrings, que têm contato com outras pessoas, que têm contato com outras pessoas.

Talvez até seja possível assegurar que os lutadores do evento deste sábado não estão infectados e, no evento, não correm risco de contaminarem ou serem contaminados. Mas, para participar deste e dos próximos cards, os atletas são obrigados a contato contínuo com gente que não foi testada, a sair de casa para treinar, a viajar até o local das provas. E se qualquer uma dessas muitas pessoas envolvidas em todo o processo se infectar? E se alguma delas morrer?

Na Itália e na Espanha, no auge da crise, foi proibido andar de bicicleta. Tudo para que ninguém sofresse uma queda, se machucasse, e precisasse de um leito de hospital que poderia estar livre para um paciente de Covid-19. Ao voltar com as lutas, o UFC submete os atletas ao risco de precisarem de internação, sendo expostos ao vírus e ocupando leitos que poderiam estar salvando vidas. Mas, e daí?

Olhar Olímpico