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Voz dos atletas adiou Olimpíada e precisa ser usada mais vezes

Nadador olímpico brasileiro Bruno Fratus - Buda Mendes/LatinContent via Getty Images
Nadador olímpico brasileiro Bruno Fratus Imagem: Buda Mendes/LatinContent via Getty Images
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

24/03/2020 10h11

Em um momento histórico que os fatos mudam em uma velocidade tão assustadora, parece que faz tempo que o brasileiro Bruno Fratus foi ao Twitter da bicampeã olímpica Kirsty Coventry, do Zimbábue, e escreveu que: "Como nadador e olímpico, eu exorto você a reconsiderar e consultar outros atletas ao redor do mundo". Começou ali um movimento que, quatro dias e meio depois, adiaria os Jogos Olímpicos de Tóquio de 2020 para 2021.

Não que Bruno Fratus, o atleta brasileiro que mais tem jeitão de ser um líder, tenha sido sozinho o responsável direto por algo que nunca havia acontecido na história da humanidade. Mas foi ele o primeiro a falar o que realmente pensava, a levantar a bola para uma discussão que dominou o noticiário esportivo mundial nos dias seguintes e culminou com uma mudança radical de postura do Comitê Olímpico Internacional.

O comentário do brasileiro foi feito em um vídeo em que Coventry, presidente da comissão de atletas do COI, contou que participou de uma teleconferência com Thomas Bach e outros 220 atletas e que, ali, os esportistas demonstraram seu apoio ao COI pela manutenção dos Jogos. Essa reunião ainda será melhor contada no futuro, mas Fratus estranhou. Quem são esses 220 atletas e como se deu esse apoio? Não era aquele o clima do momento.

Fratus foi o primeiro e muitos outros começaram a se colocar contra o que parecia ser a maioria. Na verdade, eram a minoria - ou, se não eram, se tornaram em poucas horas. Outra brasileira, Poliana Okimoto, lançou no Instagram a campanha Tóquio-2021, na sexta. Diversos nadadores brasileiros compartilharam. A discussão foi ganhando fôlego em outros países a partir dali e deixando os grupos de Whatsapp para ganhar publicidade nas outras redes sociais.

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Foi depois disso que o comitê espanhol e a federação americana de natação foram os primeiros órgãos a pedir o adiamento dos Jogos, repetindo a argumentação dos atletas: que não há como treinar em segurança para a Olimpíada enquanto a recomendação das autoridades é ficar em casa. Na sequência vieram outros, como o Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB) e o Comitê Olímpico do Brasil (COB), que também podem ser elogiados como pioneiros.

A lição que fica disso tudo é que os atletas têm voz, mesmo que não tenham organização. A comissão de atletas, ao apoiar o COI na quinta, mostrou ser chapa-branca. Mas, somando suas vozes, os atletas pautaram a discussão e convenceram a opinião pública de que não havia como fazer uma Olimpíada em julho. Que eles tenham coragem de utilizar essa voz mais vezes. Os protagonistas do esporte são eles. Os dirigentes estão lá apenas para organizar direitinho pra todo mundo poder competir em paz.

Olhar Olímpico