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Por que adiar Olimpíada não é simples e pode demorar 1 mês

Mulher com máscara de proteção passa por anéis olímpicos em Tóquio - Athit Perawongmetha
Mulher com máscara de proteção passa por anéis olímpicos em Tóquio Imagem: Athit Perawongmetha
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

22/03/2020 19h00

O ideal seria que o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciasse logo que vai adiar os Jogos Olímpicos de Tóquio para uma data futura, a ser decidida, e liberasse os atletas da culpa de não estarem treinando a quatro meses da Cerimônia de Abertura, para que se concentrem no mais importante neste momento: cuidar da saúde deles e da sociedade. O COI, porém, pretende costurar o máximo de pontas possíveis antes de tomar uma decisão desse peso, que parece irremediável. O desafio será suportar por quatro semanas, numa situação que muda a cada dia para pior, a pressão que tende a ser crescente daqueles que têm pressa para ficar em casa.

A primeira dessas pontas, como o COI deixou claro na nota publicada mais cedo, diz respeito aos interesses das 33 federações internacionais que estarão presentes nos Jogos de Tóquio. A vontade delas é especialmente importante, porque elas têm direito a voto no COI. Um adiamento da Olimpíada para 2021 mexeria drasticamente com o calendário da grande maioria delas e, consequentemente, com seus ganhos financeiros. O Mundial de Esportes Aquáticos, por exemplo, está previsto para acontecer na última quinzena de julho, em Fukuoka, também no Japão. Depois, começaria em Eugene (EUA), o Mundial de Atletismo.

Se a Olimpíada ficar para 2021, possivelmente em datas próximas às previstas para 2020 (final de julho, início de agosto), esses dois Mundiais teriam que ser adiados ou cancelados, mexendo com os interesses das cidades-sedes e dos patrocinadores - depois da publicação deste post, a World Athletics disse que topa adiar seu Mundial de 2021 para 2022. Mas há muitas outras federações e seus patrocinadores que precisam ao menos ser avisados.

Ao mesmo tempo é necessário se acertar com os patrocinadores dos Jogos, que nunca foram tantos. A Olimpíada de Tóquio vendeu todo o tipo de cota possível e imaginável, ultrapassando a marca de 100 patrocinadores locais (marcas japonesas), que investiram algo em torno de US$ 3,3 bilhões. Muitas já estão com campanhas publicitárias prontas e teriam grandes prejuízos com o adiamento. Nessa conta não entram os chamados patrocinadores mundiais, nem mesmo os japoneses (Toyota, Bridgestone, Panasonic), que patrocinam o movimento olímpico de forma contínua e que planejam campanhas mundiais.

Ainda que todos esses patrocinadores digam que não se opõem ao adiamento, há uma discussão complexa e importante sobre fluxo de caixa do COI e do Comitê Organizador. Esses patrocinadores terão que fazer os pagamentos nas datas previstas e esperar um ano até terem retorno? Todos têm folego financeiro para sobreviver?

Tudo nos Jogos Olímpicos é organizado milimetricamente e com muita antecedência, o que significa que muitos pagamentos também já foram feitos, empresas contratadas. Paralelamente, manter mais um ano o enorme time de funcionários do Comitê Organizador é um custo que não estava nos planos. Quem vai arcar com esse prejuízo, ainda mais se o comitê abrir mão de receber agora? Existe seguro contratado para praticamente tudo na organização de uma Olimpíada, mas o setor de seguros (e o de resseguros) é naturalmente o dos mais abalados durante uma crise mundial como essa.

Esse mesmo problema se replica em diversas esferas. O COB, por exemplo, já comprou passagens aéreas, já reservou contêiner, montou um staff no Japão, alugou centro de treinamento. Quanto dinheiro será pedido com o adiamento e quem irá arcar com esse prejuízo? Para ficar no exemplo brasileiro: o COB utiliza principalmente recursos da Lei Agnelo/Piva e não pode usar esse dinheiro para pagar multas. Como vai se virar financeiramente?

Na outra ponta, havia previsão de lotação máxima nos hotéis de Tóquio, muitos dos quais já recebeu pagamentos antecipados. Irão devolver o dinheiro? Haverá disponibilidade para remarcar todas as reservas para meados de 2021? Provavelmente não. Ao mesmo tempo, todo o protocolo de entrega dos apartamentos da Vila Olímpica aos seus compradores precisa ser revisto junto à empreiteira, em comum acordo com esses compradores. Sem Vila Olímpica não há Olimpíada.

Isso vale também para uma enormidade de locações. Os Jogos Olímpicos não acontecem apenas dentro de ginásios e estádios. Estruturas auxiliares, incluindo centros de treinamento, estão alugadas para o período necessário em 2020, mas não há qualquer garantia de que estão disponíveis em meados de 2021. Isso dependerá de complexas negociações com o governo japonês, o governo metropolitano de Tóquio e empresas privadas. As "venues", como são chamadas as instalações que recebem competições, levariam um ano a mais para entrarem no "modo legado", num prejuízo para o povo japonês.

Não menos importante, os proprietários de direitos de transmissão precisam ser ouvidos, com destaque para a NBC, dona dos direitos para os EUA e sócia do COI na organização dos Jogos de 2028 em Los Angeles. Os Jogos Olímpicos ocupam um espaço reservado da grade da emissora, durante as férias escolares, em momento que apenas uma grande liga é disputada nos EUA, a de beisebol. Em outros meses, a Olimpíada teria que dividir espaço com NFL, NHL, NBA, etc. Só em publicidade a NBC já mais de US$ 1 bilhão.

Como se vê, adiar a Olimpíada não é algo que o COI decide em uma reunião, nem em duas, nem em três. O pedido por quatro semanas parece ser um prazo para tentar causar o menor impacto possível em todos os interessados. Enquanto isso, azar do atleta que continua injustamente motivado a treinar, desafiando orientação das autoridades de saúde, para uma Olimpíada que muito dificilmente vai acontecer na data prevista.

Olhar Olímpico