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Jogadoras lamentam não terminar Superliga histórica, mas defendem decisão

Carol Gattaz comemora ponto com colegas do Minas - Orlando Bento/MTC
Carol Gattaz comemora ponto com colegas do Minas Imagem: Orlando Bento/MTC
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

20/03/2020 04h00

Foi-se o tempo em que a Superliga Feminina ainda nem tinha começado e qualquer fã poderia cravar quais seriam os dois finalistas. Nesta temporada, quando a primeira fase chegou ao fim, na semana passada, três times (Praia Clube, Sesc-RJ e Minas), candidatíssimos ao título, estavam separados por um ponto. Não havia favorito pela quarta vaga nas semifinais, em duelo de gigantes entre Sesi-SP e Osasco, e ainda havia o surpreendente Barueri de Zé Roberto Guimarães, campeão paulista, correndo por fora. Tinha tudo para ser uma Superliga histórica, mas ela foi encerrada em uma videoconferência ontem (18), sem conclusão.

Reunidos, os oito clubes classificados para os playoffs concordaram que a melhor decisão diante do coronavírus era decretar o campeonato encerrado sem um campeão, acatando também a vontade da CBV. Só o Minas Tênis Clube queria esperar mais um pouco para tomar decisão tão drástica. Atletas que aguardavam ansiosas a parte mais gostosa da temporada também votaram pelo cancelamento, ainda que tenha doído no coração.

"É frustrante parar depois de tantos meses de trabalho, de tanta superação, justo agora que ia começar a melhor parte do campeonato. Mas a gente sabe que era o mais prudente. Não tinha jeito de continuar, foi o melhor a ser feito, é uma pena. Ainda mais que essa foi a Superliga mais disputada dos últimos tempos. Ia ser muito disputado, sem favorito nenhum. Tá certo não decretar campeão, a gente não chegou até o final, até o equilíbrio, mas é uma coisa bem frustrante", diz Carol Gattaz, uma das líderes do elenco do Minas.

O time misatenista encerrou a fase de classificação, após 22 jogos, com apenas três derrotas, em terceiro, e a diretoria pretendia esperar para decidir pelo fim da Superliga. As jogadoras, porém, se posicionaram claramente. Reunidas na quarta-feira com a comissão técnica, decidiram inclusive parar de treinar e se recolher nas suas casas. "Achamos mais prudente não nos expor mais, nem expor as outras pessoas", explicou Gattaz.

Fabíola, levantadora do então vice-líder Sesc-RJ, também concordou com a decisão. "Eu achei que foi correta. Era o melhor a se fazer nesse momento. A preocupação de todos de parar agora é com relação à saúde. A saúde tá acima de qualquer coisa. Foi muito justo, muito correto, e acho que foi a melhor decisão. Importante agora não era o título da Superliga, o importante hoje é poder amenizar a situação que o Brasil está vivendo em relação a essa pandemia", disse ela ao Olhar Olímpico.

Para Dani Lins, do Sesi/Bauru, o mais difícil é aceitar internamente que o campeonato acabou e que a preocupação agora é outra. "É difícil aceitar, porque a gente vem naquela rotina de meses. Treinando, treinando, com objetivo, objetivo, e de repente o mundo para e por que só você não vai parar? Até a mente atualizar que eu vou acordar e não tenho nada, não vou treinar, não posso sair de casa. A gente tava na fase "ai, vamos em busca do título', essa vontade de chegar na final, ser campeã, mas agora é tentar se conscientizar e viver o mundo que a gente tá vivendo, que é o mundo do Covid-19", avalia.

Sesi e Osasco ajudaram a pressionar a CBV para suspender a Superliga quando, na tarde do sábado passado, decidiram que não se enfrentariam à noite em Bauru (SP). A também levantadora Roberta, do Osasco, diz que na volta para casa o elenco começou a entender a real gravidade da situação.

"A gente foi liberada para ficar em casa, trouxemos equipamentos para tentar manter o físico na melhor forma possível, mas ainda eu tinha um pingo de esperança que pudesse ser adiado e a gente tava muito assustada sem saber o que ia acontecer. Foi tudo muito assustador e muito rápido, mas a decisão está sendo correta. Fico triste de saber que acabou dessa forma. A gente trabalhou muito o ano todo para hoje ficar em casa preso, mas acho que foi o certo a se fazer. É deixar a tristeza para lá e se preparar para a próxima temporada", ponderou.

Para as quatro a dificuldade agora será virar a chave e criar uma nova rotina, dentro de casa. "Ficar em casa o tempo inteiro é muito ruim. Vai passando os dias as crianças começam já a reclamar, quer quer sair de casa, quer ir no shopping. É um momento bem complicado, mas é uma atitude que todo brasileiro precisa tomar. É muito importante, precisa amenizar a situação e precisa ficar em casa. É uma medida para proteger a nossa famílii e a humanidade. É o momento de o povo brasileiro se unir por um só objetivo, porque a gente precisa juntos mudar essa situação", diz Fabíola.

Gattaz alerta para os cuidados com a saúde mental, também. "É tudo muito rápido. De repente cancela o jogo, aí a gente para de treinar, aí cancela a Superliga. Isso em questão de cinco dias. Ainda não caiu a ficha que acabou a Superliga. É muito triste. A gente vai estar em casa sem poder ir nem na academia, não podemos ficar sem fazer exercício. Todo mundo vai ter que ter a cabeça muito boa, fora essa crise de doença vai ter outras crises."

Olhar Olímpico