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Federação de natação puxa movimento dos EUA pedindo adiamento da Olimpíada

Seletiva olímpica da natação americana - Divulgação/Omaha
Seletiva olímpica da natação americana Imagem: Divulgação/Omaha
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

20/03/2020 16h12

O governo japonês e o Comitê Olímpico Internacional (COI) já colocaram suas peças no complexo jogo de tabuleiro que é o futuro dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Mas jogadores importantes ainda estão para fazer seus movimentos. Um deles aconteceu hoje, quando a federação de natação dos Estados Unidos, segundo o jornal USA Today, pediu ao comitê olímpico norte-americano para que leve ao COI um pedido de adiamento da Olimpíada por um ano. Especula-se que a federação de atletismo faça o mesmo, com o alerta de que, se Tóquio-2020 começar em 24 de julho, como programado, o atletismo americano está fora.

As duas são, de longe, as duas maiores federações nacionais em número de medalhas nos Jogos Olímpicos. No Rio, a natação norte-americana ganhou 33 medalhas, ante 32 do atletismo. Juntas, no quadro de medalhas, só ficariam atrás da Grã-Bretanha (por duas medalhas), da China (por cinco) e, claro, dos Estados Unidos como um todo. Sozinha, a USA Swimming ficaria em oitavo lugar no geral da Olimpíada.

"Todo o mundo experimentou perturbações inimagináveis, apenas alguns meses antes dos Jogos Olímpicos, o que põe em questão a existência real de condições equitativas para todos. Nossos atletas estão sob tremenda pressão, estresse e ansiedade, e sua saúde mental e bem-estar devem estar entre as maiores prioridades. É com o ônus dessas sérias preocupações que solicitamos respeitosamente que o Comitê Olímpico e Paraolímpico dos EUA advogue o adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 em um ano", escreveu a CEO da USA Swimming, Sarah Hirshland.

A vontade da natação e do atletismo americano é muito relevante porque ela caminha lado a lado com a principal fonte de receita dos Jogos Olímpicos: o contrato de televisão com a NBC. Não é segredo que é a NBC quem dá a opinião final sobre horários das provas de atletismo e natação em uma Olimpíada, para serem exibidas em horário nobre nos Estados Unidos. É quando ela consegue retorno sobre o investimento monumental feito adquirindo os direitos de transmissão para o país. Até o final de 2019 a emissora já havia vendido US$ 1 bilhão em publicidade e esperava superar com larga folga o recorde de US$ 1,2 bilhão da Rio-2016.

Nadadores são os mais interessados no adiamento dos Jogos Olímpicos neste momento porque a performance deles depende de uma periodização. Eles só conseguem chegar ao melhor da forma três ou quatro vezes por ano. Por isso as seletivas nacionais costumam ser em abril/maio, a tempo de mais um ciclo de treinamento até novo ápice na Olimpíada. Por causa do coronavírus, as seletivas não vão ocorrer nas datas programadas. E, também devido à pandemia, atletas estão sem treinar.

A natação norte-americana acontece principalmente dentro de universidades, que estão trancadas. Quem continua treinando o faz em piscinas recreativas, particulares. É a mesma situação de outros países importantes, como a Espanha de Mireia Belmonte, a Itália de Federica Pellegrini e o Brasil. Por aqui, com os clubes fechados, os nadadores não têm onde treinar. A seletiva que ocorreria no fim de abril foi adiada.

"Não há respostas perfeitas, e isso não será fácil. No entanto, é uma solução que fornece um caminho concreto e permite que todos os atletas se preparem para os Jogos Olímpicos seguros e bem-sucedidos em 2021", continuou a CEO da USA Swimming em sua carta.

Em reunião com as federações internacionais esta semana, o COI discutiu a possibilidade de se flexibilizar os critérios de classificação. Na natação e no atletismo, por exemplo, poderiam ser adotadas marcas do ano passado. Esse critério, porém, não serviria aos Estados Unidos, que têm seletivas que são muitas vezes mais fortes que provas olímpicas. São muitos aos atletas americanos que não ficaram entre os dois (natação) ou três (atletismo) melhores de suas provas em 2019 nos EUA, mas têm chances reais de chegar a esse posto em 2020.

Há de se considerar também que, sem seletivas norte-americanas de atletismo e natação, a NBC perde dois produtos importantes de seu portfólio. E a emissora é a grande financiadora dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028, a ponto de pacotes de patrocínio dos Jogos estarem associados a cotas de publicidade no canal.

Olhar Olímpico