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Esquiva põe medalha olímpica à venda para chamar atenção do governo

O boxeador Esquiva Falcão com a sua medalha olímpica - Reprodução/Twitter
O boxeador Esquiva Falcão com a sua medalha olímpica Imagem: Reprodução/Twitter
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

12/03/2020 13h29

A vontade de chamar atenção do governo para a falta de apoio a medalhistas olímpicos como ele está atrás da decisão de Esquiva Falcão de colocar à venda sua medalha de prata conquistada nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. O boxeador capixaba, agora profissional, surpreendeu até seu staff ao anunciar ontem (11) à noite, pelo Twitter, que gostaria de vender sua medalha e estipula o preço de US$ 50 mil - cerca de R$ 250 mil.

"Quando eu conquistei a medalha olímpica, antes da luta eu perguntei para meus treinadores: 'Se eu ganhar essa medalha, as coisas vão mudar? O esporte no Brasil vai mudar?' Eles responderam que claro, porque é uma medalha olímpica. Mas não mudou nada. Recebi Bolsa Atleta, recebi do bolsa do Espírito Santo também, mas depois que saí do boxe olímpico parece que eu deixei de ser medalhista olímpico. Só lembram do medalhista na próxima Olimpíada. Ele só é valorizado no ano dos Jogos Olímpicos. Passou a Olimpíada não tem mais", desabafou, ao Olhar Olímpico.

A reclamação de falta de apoio é constante na carreira de Esquiva desde que ele ganhou a prata em Londres. O capixaba ainda seguiu como boxeador amador por mais alguns meses e estava na fila para receber R$ 15 mil mensais da então recém-criada Bolsa Pódio quando anunciou que se tornaria profissional. Na ocasião, disse que havia optado pelo boxe profissional para ficar rico.

Após 26 lutas e 26 vitórias como profissional, sem ainda a tão esperada chance de brigar pelo título mundial, Esquiva segue com contrato com a Top Rank, uma das principais agências mundiais do boxe, mas só tem um patrocinador pessoal. Por ser medalhista olímpico, esperava estar recebendo apoio estatal até hoje.

"Conheci um mexicano, sei que as leis são diferente, a forma de tratar é diferente, mas ele ganhou bronze no Rio, passou para o profissional como eu e continua recebendo, porque ele é um medalhista olímpico do México. Todo o benefício que eu tinha eu perdi. Isso que estou fazendo, a minha medalha, não é para ganhar dinheiro, é para ter reconhecimento", explica.

Esquiva sabe que a sua própria situação não vai mudar, mas ele espera que a postura chame atenção do governo a tempo de que futuros medalhistas olímpicos do Brasil sejam apoiados. "Quero que eles vejam e pensem: 'Um atleta olímpico está vendendo a medalha dele porque a gente não está dando apoio, então vamos apoiar os próximos atletas'. Eu ganhei a medalha e não ganhei um bônus. Agora não vale a pena ganhar, porque já passou."

O boxeador diz acreditar que caberia ao Comitê Olímpico do Brasil pagar esse bônus porque, no entender dele, o COB ganha uma premiação pela colocação no quadro geral de medalhas dos Jogos Olímpicos. "Alguém deve ganhar, porque alguém está gastando dinheiro. Quando um atleta é campeão brasileiro, ele ganha premiação. Os EUA, que ficaram em primeiro na Olimpíada, eles não ganham nada? O Brasil não ganha nada por ficar no top10, no top15?", questiona. Não há premiação do COI por classificação.

Ainda que o valor de US$ 50 mil por uma medalha de prata esteja acima do que costuma pagar o mercado de colecionadores (matéria de 2014 do jornal USA Today fala em alto entre US$ 8 mil e US$ 10 mil, em média), Esquiva disse que já recebeu uma proposta de um mineiro disposto a pagar o valor pedido. Se a negociação for concretizada, diz Esquiva, ele pode até levar a medalha pessoalmente ao comprador.