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Em guerra interna, Pinheiros corta apoio ao esporte olímpico

Parte da equipe de atletismo do Pinheiros que foi ao Pan - João Raposo/Pinheiros
Parte da equipe de atletismo do Pinheiros que foi ao Pan Imagem: João Raposo/Pinheiros
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

09/03/2020 04h00

Referência quando o assunto é apoio ao esporte de alto rendimento no Brasil, o Esporte Clube Pinheiros vive uma disputa interna de proporções inéditas, que coloca em risco o futuro de centenas de atletas e, não à toa, preocupa confederações e o Comitê Olímpico do Brasil (COB). Os principais nomes por trás do esporte "competitivo" do Pinheiros foram demitidos nas últimas semanas num movimento de valorização do social em detrimento aos "militantes" — como são chamados os atletas não-associados.

A equipe profissional de basquete corre sério risco de não continuar no NBB a partir da próxima temporada e o principal treinador de natação do país, Alberto Silva, o Albertinho, está na corda bamba a pouco mais de quatro meses dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Atletas estão tendo que pagar do bolso para viajar para treinamentos.

Ao longo da última semana, o Olhar Olímpico conversou com funcionários, ex-funcionários, dirigentes e pinheiristas históricos que foram unânimes na avaliação: social e esporte de alto rendimento sempre disputaram um cabo de guerra por recursos, com a vitória ora pendendo para cá, ora para lá. Nunca na história recente, porém, houve um radicalismo tão grande, que levou a um racha de proporções inéditas. Em nota ao blog (leia na íntegra ao final), o clube culpou o cenário "político-econômico" pelos cortes e prometeu voltar a investir quando a economia do país melhorar. O orçamento do clube para 2020 prevê um crescimento de 5% em arrecadação na comparação com 2019.

A reviravolta no esporte do Pinheiros começou em maio de 2019, quando Ivan Castaldi Filho, do partido interno Participação Viva (PV), diretor de Esporte do clube de 2001 a 2003, foi eleito presidente com apoio do poderoso Pinheiros de Todos Nós (PTN), do ex-presidente Roberto Cappellano (2015-2019). Em troca, teria se comprometido a não tentar reeleição e não fazer cortes na área esportiva, comandada por Arnaldo Pereira, que seria candidato à sua sucessão em 2021.

Comandar o clube significa também definir o destino de um orçamento geral de R$ 262 milhões em 2020 (incluindo obras e restaurantes), em um momento em que cresce, dentro do Pinheiros e de outros grandes clubes sociais do país, um movimento que vê o esporte de alto rendimento como uma despesa incômoda, não um investimento. No Pinheiros, dos R$ 454 pagos mensalmente por um sócio individual, R$ 100,69 vão para esportes. No orçamento 2020 estão previstos R$ 34 milhões para os "espotes olímpicos e de formação" e outros R$ 12 milhões para "esportes associativos e competitivos".

Parte desse valor é gasto com a remuneração dos militantes e dos pré-militantes, que são os atletas não associados que defendem o Pinheiros, e, por isso, têm acesso ao clube. Esses cerca de 530 esportistas sempre despertaram paixão (quando atletas vencedores e famosos) e ódio (quando ocupam quadras que os sócios querem usar), mas eram entendidos como parte do DNA do Pinheiros, o que o diferenciava de rivais na alta sociedade paulistana como Hebraica, Paulistano e Harmonia. Não à toa o Pinheiros costuma divulgar um balanço à parte de medalhas em Jogos Olímpicos e Pan-Americanos, como se fosse um país.

Historicamente ligado a um grupo que pratica modalidades recreativas no clube, como peteca e beach tênis, Castaldi nunca foi entusiasta do investimento realizado nos esportes de alto rendimento, segundo diversas fontes. Sua chegada ao poder coincidiu com um momento em que o clube ganhou novos associados/eleitores interessados no uso da incomparável estrutura esportiva do Pinheiros e que enxergam o clube como uma grande academia. No entender de fontes ouvidas pelo blog, muitos desses novos sócios veem os militantes como uma despesa, que as receitas associativas (mensalidade paga pelo sócio) não precisam cobrir.

Boa parte da folha salarial do esporte de alto rendimento, porém, era paga até o ano passado com recursos da Lei de Incentivo ao Esporte (LEI). Sempre apontado como exemplo no manejo de dinheiro incentivado, o Pinheiros projetava arrecadar R$ 13 milhões na LIE em 2020 e usar cerca de 85% desse montante para pagar salários de comissões técnicas e bolsas auxílios — o restante seria gasto com burocracias. Em janeiro, porém, a Secretaria Especial do Esporte baixou uma portaria que restringe a bolsa auxílio a um teto de R$ 1 mil e somente para quem não recebe Bolsa Atleta. Ou seja: uma parcela baixa dos atletas do Pinheiros, quase sempre de ponta.

Em outros clubes sociais, o impacto da medida varia entre baixo (Flamengo) e médio (Minas Tênis Clube). Mas no Pinheiros, assim como em projetos sociais como o Instituo Reação, ele foi "devastador", para usar uma expressão do então gerente de esportes olímpicos, Cláudio Castilho, depois demitido. Ainda que as regras só valham para projetos que vierem a ser aprovados a partir de agora, o Pinheiros notou que não poderia se comprometer com os salários acertados com os atletas para o ano de 2020. Por isso os reuniu em fevereiro e os informou que, para que não houvesse uma demissão em massa, eles teriam que aceitar ganhar expressivamente menos do que o combinado. Eles toparam, a contragosto.

Tudo isso aconteceu justamente quando Castaldi enfim pôde aplicar um orçamento formulado por sua gestão, no início de 2020. Uma das primeiras iniciativas foi demitir o diretor de Esporte Arnaldo Pereira, ex-judoca. Em solidariedade, 41 diretores do PTN também renunciaram (o clube tem cerca de 200 diretores). O partido virou oposição. Na véspera do Carnaval, Castilho também foi demitido, depois de 24 anos trabalhando no clube, sob o argumento de que o Pinheiros agora caminha em outro sentido que não do apoio ao esporte de alto rendimento, sua área.

A notícia se espalhou como pólvora no esporte olímpico brasileiro e ligou o sinal de alerta. Afinal, só no Pan o clube teve 74 atletas, sendo um dos melhores do país (senão o melhor) em 13 das 14 modalidades olímpicas na qual mantém equipe — o vôlei é exceção. No atletismo, esporte que mais distribui medalhas olímpicas, o Pinheiros foi o salvador da pátria quando a antiga equipe B3 (ex-BM&F) fechou. Atualmente, a equipe tem pouco mais de 60 atletas, que custam R$ 2,1 milhões. Defendem o Pinheiros estrelas como Darlan Romani e Thiago Braz, candidatos a medalha nos Jogos de Tóquio-2020.

Pessoas que conhecem bem os bastidores do Pinheiros apostam que os cortes serão profundos, principalmente no "miolo" do bolo, os atletas que nem são famosos e dão visibilidade, nem são jovens associados. O raciocínio é simples: No atletismo, por exemplo, 30 atletas bastariam para que o Pinheiros vencesse o Troféu Brasil, porque o clube não tem rival. Os demais não fariam falta, mas demiti-los aliviaria as contas. O raciocínio vale também para outras modalidades custosas, como judô (R$ 2,3 milhões) e, principalmente, natação (R$ 4,3 milhões).

Os cortes já começaram no ano passado, quando o Pinheiros enviou equipe reduzida para as competições de natação do segundo semestre e nem participou da Copa CBC, enquanto o time de basquete teve que viajar de ônibus para a semifinal do Super8, no Rio. Na semana passada, nadadores com potencial de medalha olímpica foram obrigados a pagar do bolso para ir ao Rio fazer uma clínica em estrutura do COB. Profissionais que são cedidos a seleções brasileiras têm sido surpreendidos com pontos cortados, como se tivessem faltado ao trabalho. Diretores foram orientados a cortar onde possível.

No judô, modalidade em que o Pinheiros é base da seleção, o sensei Sumio Tsujimoto foi demitido. Na natação, Alberto Silva, o Albertinho, tem contrato até o final do ano, mas as relações cada vez mais tensas com a diretoria podem antecipar sua saída. Ele é o treinador de praticamente todo o revezamento 4x100m do Brasil e coordena a principal equipe de natação do país. É também o dono do maior salário do Pinheiros. Ao todo a natação custa R$ 7 milhões ao ano ao Pinheiros, mas boa parte desse custo é coberto pelas escolinhas, que têm 1,6 mil alunos.

A equipe que mais corre risco, porém, é a de basquete. O time, que foi campeão da Liga das Américas em 2013, perdeu seu patrocinador master há cerca de quatro anos, mas nunca teve seu orçamento reduzido drasticamente. É certo que a diretoria não vai continuar investindo R$ 4 milhões por temporada só no time adulto e que os medalhões vão ser dispensados ao fim da atual temporada. Das fontes ouvidas pelo blog, só uma aposta que o time profissional não será descontinuado ao fim do NBB. A esperança é que Fabio Ferraro, novo diretor de esporte, que joga basquete no clube, consiga convencer a diretoria a manter pelo menos um time de garotos.

O vôlei feminino tende a continuar, pelo que apurou o blog, mas com investimento expressivamente menor. De 2019 para 2020 o orçamento já foi reduzido em 25% (de R$ 2,5 milhões para R$ 2 milhões). Pelo segundo ano seguido, o time vai terminar a competição em nono, fora da segunda fase, para onde se classificou nas seis temporadas anteriores. Uma redução de investimento poderia causar o rebaixamento para a Superliga B, quando o clube poderia gastar expressivamente menos.

O Olhar Olímpico solicitou uma entrevista com Ivan Castaldi Filho, que não aceitou. O clube se posicionou por meio de nota, na qual reclamou do cenário político-econômico e das mudanças na Lei de Incentivo ao Esporte. Também afirmou que a diretoria tem feito cortes em "todas as áreas". Na comparação com 2019, o orçamento da área administrativa cresceu 15% (de R$ 17 milhões para R$ 19 milhões), enquanto o patrimônio ganhou 17% a mais. A previsão de receita total é 5% maior para 2020 na comparação com 2019. Internamente, a diretoria tem se gabado de um número recorde de obras, que devem custar R$ 40 milhões em 2020.

"A Diretoria do Esporte Clube Pinheiros é composta por associados voluntários que dispõe de seu tempo e dedicação para contribuir com as seções do Clube. São cerca de 200 diretores voluntários nas diversas áreas em que o Clube atua, sendo 100 na área de Esportes.

O Pinheiros tem 120 anos de existência e grande parte da força de nossa instituição vem da qualidade de seu corpo associativo. Por isso, pouco mais de uma semana depois da saída de um grupo de diretores, saída também voluntária, as seções já tinham seus novos diretores nomeados e atuando para dar continuidade às atividades, conforme planejamento que foi apresentado e aprovado no Conselho Deliberativo.

É importante esclarecer que numa instituição como a nossa, não é um personagem, "o Presidente", que toma decisões isoladas e as coloca em prática. As decisões e ações são resultados de discussão, consenso e aprovação do Conselho Deliberativo.

Nossos mecanismos de planejamento e governança garantem a continuidade de nossas atividades e o alinhamento destas ao propósito, presente em nosso Estatuto Social.

Somos reconhecidos como um Clube formador de atletas, com contribuições significativas em delegações brasileiras e com resultados a cada ciclo mais expressivos, o que é motivo de orgulho para todos os pinheirenses. Essa tradição nos trouxe até aqui e esperamos que nos leve ainda mais adiante.

Porém, não vivemos numa ilha. O cenário político-econômico de nosso país nos últimos anos tem afetado todas as áreas da sociedade e no esporte não seria diferente. Há dois anos seguidos, procedimentos e critérios para aprovação de projetos da Lei de Incentivo Federal têm sido alterados, reduzindo o volume de recursos que o Pinheiros pode aplicar em todos os níveis do esporte, desde a formação até o alto rendimento.

Seria leviano de nossa parte não realizar os alinhamentos necessários diante do cenário restritivo e volátil em que vivemos, sobrecarregando os associados do Clube com contribuições ainda maiores do que já fazem.

Temos responsabilidade com os recursos que vem da contribuição dos associados (custeio do Clube) e com os recursos que recebemos por meio de patrocínios e projetos incentivados, para que sejam aplicados de forma consistente e responsável.

E, em respeito a esse compromisso e zelando pela sustentabilidade do Pinheiros, realizamos revisões em todas as áreas, não apenas na de Esportes, para que os recursos disponíveis fossem aplicados de forma a atender à coletividade do Clube.

Esses ajustes são movimentos naturais em qualquer instituição e são feitos de forma responsável sempre que novos cenários são impostos.

Vale ressaltar que da mesma forma que ajustes estão sendo feitos neste momento de adversidades, nossa expectativa é que o cenário político-econômico do País se altere e possamos ter a retomada de recursos para o esporte.

Assim que esse cenário favorável venha a se apresentar, estaremos prontos para reagir de acordo com as novas oportunidades, retomando investimentos e ampliação de nossas equipes.

O esporte nunca deixará de ser nosso propósito. Nenhuma oportunidade de investimento na área será negligenciada, da mesma forma que não abrimos mão da responsabilidade, transparência e respeito para nortear as ações na gestão do Clube, quando o cenário assim exigir."

Olhar Olímpico