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Se Olimpíada fosse hoje, ela seria adiada. Sorte que Tóquio é só em julho

19.fev.2020 - Passageiros deixam o navio Diamond Princess, perto de Tóquio, após o fim da quarentena imposta devido à epidemia do novo coronavírus. Mais de 500 casos da doença foram confirmados no transatlântico - Xinhua/Du Xiaoyi
19.fev.2020 - Passageiros deixam o navio Diamond Princess, perto de Tóquio, após o fim da quarentena imposta devido à epidemia do novo coronavírus. Mais de 500 casos da doença foram confirmados no transatlântico Imagem: Xinhua/Du Xiaoyi
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

04/03/2020 04h00

Faltavam 45 dias para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro quando um grupo de mais de 100 cientistas de pelo menos 15 países diferentes pediu que a competição fosse adiada ou mudada de lugar. Na ocasião era o vírus Zika, transmitido por picadas do mosquito Aedes aegypti, que ameaçava a "saúde mundial", de acordo com esses especialistas. A Organização Mundial de Saúde (OMS) na ocasião deu de ombros, o Comitê Olímpico Internacional (COI) também, e no final das contas azar dos golfistas que usaram o Zika como desculpa para não virem ao Rio,

Agora a situação é diferente, ainda que novamente a OMS e o COI continuem afirmando que o adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio não está na pauta. A postura de atletas e confederações com relação ao risco de contágio pelo coronavírus deixa claro, que, hoje, não haveria condições de realizar a Olimpíada. Em julho, talvez.

Faltando 143 dias para a cerimônia de abertura de Tóquio, o copo do esporte olímpico está mais vazio do que cheio e o estado é de atenção. É mais provável que um torneio programado para a semana que vem, em qualquer lugar do mundo, de qualquer modalidade, de qualquer importância, seja cancelado do que realizado. Ontem (3) foi o judô que cancelou uma competição que aconteceria no final de semana em Rabat (Marrocos), onde só um dia antes havia aparecido o primeiro caso de infecção.

Quando isso aconteceu, o governo marroquino decidiu que nenhuma competição esportiva internacional, assim como qualquer reunião pública, pode ser realizada pelos próximos dias. A postura afetou o torneio de judô, em efeito semelhante ao causado antes por proibições na Itália, na China, na Coreia do Sul e na Itália, entre outros países.

Na Rússia, por exemplo, as medidas sanitárias incluem a proibição da entrada de pessoas que passaram recentemente pela China. Lá vai acontecer, na semana que vem, um importante Grand Slam de judô, do qual chineses seriam proibidos de participar, prejudicando-os na tentativa de classificação para a Olimpíada.

A eficácia e a necessidade desse tipo de medida parecem estar entre os critérios que definirão se o maior dos eventos esportivos, os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos, serão afetados. Se qualquer reunião pública entre moradores de diversas partes do mundo gera um risco de contaminação coletiva (até porque não há como se evitar contato físico em disputas esportivas), então a Olimpíada só aconteceria quando o mundo estivesse livre o coronavírus, o que nada indica que vai acontecer até julho.

Talvez por precaução, ontem (2) o governo japonês se pronunciou avisando que existe uma brecha no contrato com o COI/IPC para adiar os Jogos. O pronunciamento do governo japonês parece ter sido calculado para que a postura fosse discutida em reunião do Conselho Executivo do COI, horas depois, que chegou ao fim com mais uma nota protocolar afirmando seu compromisso com o sucesso dos Jogos dentro da data combinada - 22 de julho a 10 de agosto.

Em nenhum momento o COI afirma que os Jogos vão acontecer na data combinada, porque não há como prever isso. O COI, assim como o comitê paraolímpico e o organizador, têm total interesse que Tóquio-2020 seja entregue como prometido a confederações, atletas, patrocinadores e detentores de direitos de transmissão, mas, hoje, só há como prometer fazer todos os esforços e seguir todas as recomendações da OMS.

O recado do COI, por enquanto, é que os atletas sigam se preparando para a Olimpíada. Difícil é fazer isso. Onze nadadores brasileiros desistiram de um torneio na França, ginastas russos não vão competir nos Estados Unidos, todos estão evitando Itália e China, por risco de contágio e de serem proibidos em outros países, ninguém sabe se os pré-olímpicos previstos para o Japão serão realizados... Ainda que a Olimpíada ocorra normalmente, ela já foi diretamente afetada.