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Ingrid faz bem em trabalhar como ambulante. Errado é o esporte brasileiro

Ingrid Oliveira e Gabriel - Arquivo Pessoal
Ingrid Oliveira e Gabriel Imagem: Arquivo Pessoal
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

26/02/2020 15h08

Texto alterado às 20h30 do dia 26 de fevereiro*

A imagem de uma atleta olímpica brasileira vendendo cerveja em blocos do Rio de Janeiro é uma das mais marcantes do carnaval deste ano. A cena, porém, chocou pelas razões erradas. Ingrid está corretíssima por buscar em um trabalho digno como qualquer outro uma fonte extra de dinheiro, em busca de um desejo pessoal. Errada está a estrutura do esporte brasileiro que não permite que uma de nossas mais talentosas e conhecidas esportistas consiga ter independência financeira exclusivamente pelo esporte.

Flagrada pelo jornal "O Estado de S. Paulo" trabalhando como ambulante, ao lado do namorado, em um bloco na zona sul do Rio, Ingrid contou que o bico visa juntar dinheiro para visitar a irmã, que mora nos Estados Unidos e a quem não vê há três anos anos. A mãe delas morreu antes da Olimpíada do Rio.

Ingrid vem de família de classe média baixa e há algum tempo vive exclusivamente do próprio esforço — logo, do que ganha com os saltos ornamentais. E isso não é muito. Ao UOL Esporte, ela contou que parou de pagar aluguel por não ter dinheiro e hoje mora com os sogros. Sua condição financeira seria melhor se entes públicos fizessem a parte deles no financiamento do esporte.

A saltadora disputou a última Olimpíada e, por isso, tem direito, por lei, à Bolsa Atleta "olímpica", de R$ 3,1 mil mensais, valor que não é reajustado desde 2010 - corrigido pela inflação, a bolsa deveria ser de quase R$ 6 mil. Segundo Ingrid, uma má formulação do calendário do programa fez com que fosse impedida de se inscrever, porque nos dias de inscrição ela ganhava outra bolsa, a Pódio, que logo parou de receber. Por isso, passou 2019 sem nenhuma ajuda federal. Em nota ao blog, três dias depois da entrevista de Ingrid ao UOL Esporte e após a publicação desta análise, a Secretaria Especial do Esporte informou que Ingrid deixou de enviar um documento exigido e por isso não foi contemplada.

Muitos atletas brasileiros complementam a renda como o soldo das Forças Armadas, mas Ingrid não faz parte do time da Marinha. Ela também poderia ter apoio dos Correios, que por décadas apoiaram os esportes aquáticos do Brasil, mas a estatal retirou o patrocínio à CBDA no começo do ano passado.

Sobra somente o Fluminense, clube que passa por crise financeira e onde um grupo de conselheiros defende que todo o investimento seja concentrado no futebol, deixando de lado os aquáticos e o vôlei. Junte a isso o fato de os saltos ornamentais não serem um esporte profissional no Brasil e que a visibilidade das competições nacionais é quase nula (não há sequer transmissão em redes sociais/streaming) e não é difícil imaginar que o valor recebido por Ingrid nas Laranjeiras a título de "bolsa auxílio" não é expressivo.

Tudo esse cenário negativo poderia ser superado se Ingrid tivesse patrocinadores. Estamos, afinal, falando de uma atleta com 346 mil seguidores só no Instagram, rosto e nome nacionalmente conhecidos, talento de sobra (ela é a melhor saltadora revelada pelo Brasil em duas décadas). Mas, provavelmente por machismo (tema discutido na série Minha História), ela segue com as portas fechadas entre os grandes patrocinadores, aqueles que pagam quantias relevantes aos seus patrocinados.

Dito tudo isso, é natural que Ingrid tenha buscado uma forma de sustento alternativa ao esporte. E aí, também é natural que, nesta época do ano, ela tenha recorrido à alternativa mais popular em todos os grandes centros do país: ser ambulante. Uma fonte digna de renda para pessoas com as mais diversas formações/profissões/vocações. Incluindo atletas, neste caso.

E, vale ressaltar, Ingrid fez tudo isso sem se fazer de vítima. Nas redes sociais dela não há qualquer lamentação por não ter patrocínio, por injustamente não receber apoio do governo, pelo fim do patrocínio dos Correios à sua modalidade... Da mesma forma, seu trabalho como ambulante só foi noticiado porque uma jornalista a reconheceu e a entrevistou. E, aí, Ingrid não mentiu sobre os motivos que a levaram até o carnaval, nem o que queria fazer com o dinheiro. Tomara tenha conseguido seu objetivo.

Olhar Olímpico