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Preparador demitido pelo São Paulo levava vida dupla como técnico olímpico

Henrique Martins participa de competição de salto com vara - Reprodução/Instagram Augusto Dutra
Henrique Martins participa de competição de salto com vara Imagem: Reprodução/Instagram Augusto Dutra
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

22/01/2020 04h00

A equipe profissional de futebol do São Paulo teve como preparador físico, ao longo dos últimos três anos, um dos pioneiros do salto com vara no atletismo brasileiro, e que, ao mesmo tempo, também é técnico de uma das estrelas da modalidade. Henrique Martins, demitido pelo clube do Morumbi na virada do ano, porém, sempre fez questão de esconder da torcida tricolor essa vida dupla - ou tripla, uma vez que segue competindo, aos 42 anos.

"Muitas vezes eu tive que me afastar de lá para acompanhar o Augusto (Dutra). No ano passado isso foi foi em um período que o São Paulo estava vivendo que era ruim. Se o torcedor vê uma coisa dessas... O São Paulo me liberou para ir para o Mundial, por exemplo, só pedia para não deixar vazar essas duas funções. Por um lado é bom para eles, ter um preparador físico que foi para a Olimpíada como treinador. Mas para eles era um problema eu estar fora", contou Martins ao Olhar Olímpico.

Diretoria, colegas de departamento e atletas sempre souberam dessa vida dupla. Quando foi contratado para trabalhar na base, há dez anos, avisou que só tinha meio período disponível, porque já ocupava o cargo de treinador da equipe de salto com vara do Pinheiros. "Na época, avisei que estava sujeito a sair com a seleção e perguntei se tudo bem. Tudo bem. Quando fui para o profissional, tivemos a mesma conversa", lembra. Nas redes sociais, nunca postou fotos trabalhando no São Paulo, apenas da sua vivência no salto com vara.

Henrique estava em Cotia quando, pela primeira vez, um atleta treinado por ele se classificou para um Mundial de Atletismo: João Gabriel Santos Sousa, em 2013. Depois, o sonho de ser um treinador olímpico se realizou em 2016, quando a veterana Joana Costa, aos 35 anos, "achou" um salto no Troféu Brasil e conquistou índice para a Olimpíada do Rio, onde estava inscrita para trabalhar como voluntária.

Ele mesmo é de uma geração anterior à de Joana e até mesmo de Fabiana Murer, primeira estrela do salto com vara no Brasil. Um dos pioneiros da prova no país, foi o primeiro pupilo de Elson Miranda, que depois lapidaria Thiago Braz e Augusto Dutra. Partiu para carreira solo em 2010, contratado pelo Pinheiros, e subiu a um novo patamar em outubro de 2018, quando passou a treinar Augusto.

A parceria mudou a carreira dos dois. Em julho do ano passado, o saltador já estava de volta ao grupo dos 10 melhores do mundo, graças a um novo método desenvolvido por Henrique. ""Ele tem uma certa noção de quem já treinou com o Vitaly (Petrov) e com o Elson, e conseguiu unir os dois, construindo uma linha americana, brasileira e ucraniana", contou Augusto, à época, ao Olhar Olímpico.

Na preparação física, Henrique, que foi quinto colocado Troféu Brasil do ano passado, também desenvolveu seu próprio estilo. "Minha função era específica para o treinamento de força. A minha formação depende muito de força explosiva, potência. Ao longo da minha carreira eu busquei sempre entendimento dessa variável: potência, que é máximo da força na máxima velocidade. Eu usava de tudo isso para formar o atleta como um cara apto a receber toda a sobrecarga de força que ele teria no futuro", explica. O reconhecimento veio, entre outras formas, com o convite para ser um dos instrutores da CBF Academy, exatamente na área de treinamento de força.

Promovido ao elenco principal em julho de 2017, quando o São Paulo contratou Dorival Junior, Henrique Martins foi perdendo autonomia à medida que outros profissionais chegavam com entendimentos diferentes sobre a importância do treinamento de força. "O treinamento de força cai por terra se tem um preparador que acha que aquilo não era tão importante naquele momento. O Carlinhos (Neves), por exemplo, entendia que minha função não era importante. Aí eu ficava como auxiliar de campo ou de academia", conta o preparador, que diz que deixou o São Paulo sem mágoas.

Ele pretende voltar ao futebol, por necessidade financeira e por ser apaixonado pelo trabalho, mas só depois da Olimpíada. Daqui até agosto, terá que se ausentar do país em pelo menos duas oportunidades, para acompanhar Augusto, que machucou a mão ao reagir a um assalto no fim do mês passado. Submetido a cirurgia, teve que ficar sem treinar e, por isso, não disputará a temporada indoor. Com índice olímpico já assegurado, ele só precisa se manter entre os 32 melhores do ranking mundial.

No ano passado, Augusto foi prata nos Jogos Pan-americanos de Lima, ouro nos Troféu Brasil e no Campeonato Sul-Americano. Também foi vice-campeão mundial militar e décimo colocado no Mundial de Doha, no Qatar. Já Henrique, que segue competindo para continuar olhando os movimentos pelo lado do atleta, fechou o ano como sexto do ranking nacional, atrás de três atletas do Pinheiros. "Enquanto meus amigos vão jogar bola de sábado, eu vou saltar com vara. É meu hobby."

Olhar Olímpico