Milly Lacombe

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OpiniãoEsporte

A mais assombrosa festa de abertura de Copa já vista

Tudo parecia acontecer dentro do protocolo de abertura de torneios esportivos e copas: eventos que, a não ser pelas lágrimas do ursinho Misha na Olimpíada de Moscou em 1980, tendem a ser cafonas e tediosos.

Na noite desse 20 de Junho, em um estádio de Atlanta, havia na abertura da Copa América dançarinas e dançarinos vestidos nas cores da bandeira dos Estados Unidos com roupas em franjas que aprendemos a ver nos filmes de faroeste, música alta, showzaço, som na caixa. Até aí, a mesma pieguice de sempre. Mas eis que entram no campo dois homens trajados como pastores, com o que parecia ser uma versão reduzida da Bíblia nas mãos.

Com seus microfones, eles se colocaram de frente para a tribuna de honra e, depois de um blablablá sobre igualdade, justiça etc e tal, saíram pregando a palavra de Jesus. Quando me dei conta, estávamos numa espécie de culto. Os homens falavam em Jesus, diziam amém, usavam o nome de Deus e pediam que o torneio fosse abençoado. Vai ver que Deus tinha isso em mente quando mandou o recado para que não usássemos o nome dele em vão.

O que estávamos vendo? Alguns cristãos entenderam que seria legítimo enfiar nas nossas caras suas crenças sem nenhum constrangimento? Se era para colocar religião em campo, por que não as demais? Nada de budismo? De hinduísmo? De taoísmo? Das religiões de matriz africanas? E os ateus? E os agnósticos? E os kardecistas? Que diabo de abertura foi essa, Conmebol?

Para piorar, era a Copa América. Será que os executivos de Conmebol e Concacaf sabem o que foi feito em nome de Jesus com as populações originárias desse canto do mundo? E o que foi feito contra pessoas sequestradas de África? Vejam, eram os jesuítas que saíam por aí catequizando, silenciando e oprimindo, não eram os diabistas. Era em nome de Jesus, e não em nome do diabo. Que tremendo mau gosto começar assim um evento nesse continente tão devastado. Que imposição grotesca.

Em nome de Deus e de Jesus muitas vidas ainda são destruídas. Tivemos um presidente que cometeu inúmeros crimes falando em Deus, Pátria e Família. Temos agora no Parlamento deputados dizendo que, em nome de Deus, crianças devem pagar pelo estupro que sofrem.

Religião pertence ao campo das coisas privadas e todas as vezes que ela invade o espaço público comete atrocidades. Religião é prática mais do que verbo. Religião e futebol não se misturam. Religião e política não se misturam. Religião, aliás, não se mistura com nada e todos somos livres para acreditar no que quisermos.

Vendo a abertura da Copa América eu me senti dentro de um episódio de The Handmaid's Tale. Faltou entrar a polícia moral e recolher das arquibancadas as mulheres férteis logo depois da leitura dos versículos. Bless be the fruit.

A Conmebol poderia ter pedido cessar fogo na Palestina, poderia ter pedido que todas as vidas humanas fossem respeitadas, poderia ter falado em nome das pessoas negras que ainda lidam com resíduos do período em que foram escravizadas, poderia ter falado da violência de gênero, poderia ter feito discursos políticos que tratem de inclusão e amor. Tudo isso poderia ser dito sem que a religião de alguns fosse enfiada no meio. Mas meter nas nossas goelas um Deus de características muito específicas e vingativas como é esse Deus que anda se enfiando na dimensão do social e do político em nossas vidas deveria ser crime. Como muitíssimo bem colocou James Baldwin: víamos os filmes de faroeste torcendo para o cowboy contra os índios porque não nos contaram que nós éramos os índios.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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