Milly Lacombe

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Na Europa, futebol, xenofobia e racismo se articulam

O tradicional Santa Clara, um clube de futebol da ilha portuguesa de São Miguel, nos Açores, garantiu o acesso à primeira divisão na temporada 2024/2025 depois conquistar o seu segundo título na série B, a Segunda Liga. O Santa Clara pertence, majoritariamente, ao brasileiro Bruno Vicintin. Acontece que a conquista não pôde ser celebrada em sua totalidade porque o presidente do clube que ficou em segundo lugar, Rui Alves, do Nacional, recorreu aos tribunais para anular o título do rival alegando que o campeonato estava comprometido porque o time do Leixões usou de forma irregular um jogador em jogo contra o time dele. O Leixões de fato foi punido e a imprensa então noticiou que os pontos perdidos do Leixões iriam para o Nacional. Nesse momento, sentindo-se campeão, o presidente do Nacional deu a seguinte declaração:

"Não há hipótese nenhuma, nenhuma, nenhuma, do Nacional não ser campeão depois da decisão do TAD [ de tirar o ponto do Leixões], decisão que só peca por tardia. Era o fim da macacada se o Nacional não for campeão. Podem falar o que quiserem, podem argumentar o que quiserem, a verdade é que se fez justiça. Uma decisão do TAD que não deixa margem para dúvidas".

Não sei vocês, mas eu me ofendo com esse "era o fim da macacada" inserido aí no que disse Alves. Fica chato porque logo depois as instâncias superiores decidiram que o ponto perdido pelo Leixões não virariam pontos a favor do Nacional e que o Santa Clara seguia sendo campeão, sem dúvida. Mas a escolha das palavras usadas não me parece ter sido aleatória.

Se "era o fim da macacada" é uma expressão usada como "o fim da picada", ainda assim eu acredito que diante da crise de xenofobia e de racismo que vive o continente europeu essa deveria ser uma expressão suprimida do vocabulário, especialmente se o clube envolvido na questão pertence a um "não-europeu".

É bastante triste notar as formas como futebol, xenofobia e racismo têm se articulado na Europa. A gente testemunha o que passa Vini Jr. acreditando que talvez aconteça mesmo apenas em Madri e apenas com um time tão exposto quanto o Real e fica sem a total dimensão de como essa combinação de preconceitos está aprofundada em todas as camadas da sociedade e do futebol, como se essas duas coisas pudessem ser separadas.

Recentemente, na eleição para o parlamento europeu, ambientalistas perderam posições para a ultra-direita e para conservadores, grupos que têm opiniões muito parecidas quando o assunto são direitos de refugiados e de estrangeiros. Tudo colocado em contexto, seria importante que o futebol se apresentasse como campo de resistência humanitária e inclusão social. Mas estamos cada vez mais distantes desse sonho.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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