Milly Lacombe

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Cartilha de etiquetas revelada pela CBF explica a falência moral do futebol

A repercussão da misoginia praticada no interior da CBF com a recomendação contra a cor rosa no cabelo de um jogador fez com que a Confederação, talvez com o objetivo de se afastar de acusação tão medonha, divulgasse sua cartilha de códigos éticos. Quem sabe se com a lista divulgada a gente poderia ver que é parte de um pacote de costumes e que está tudo certo, ninguém é preconceituoso coisa nenhuma, nada para ver aqui, vão trabalhar, parem de procurar pelo em ovo. Mas, ao revelar a cartilha, a CBF jogou gasolina no incêndio.

Podemos analisar a cartilha por ítens, o que seria bastante esclarecedor.

1. Tomar o cuidado de passar uma imagem de seriedade

Mais vago, impossível. Poderíamos citar dezenas de situações em que seus representantes avacalharam com mulheres, por exemplo. Mas avacalhar mulher talvez não faça parte desse primeiro mandamento. O que seria "imagem de seriedade"? Podemos ir para o lado militar e entender que, por exemplo, pagode no ônibus não pode. Mas não seria absolutamente grotesco, sob o ponto de vista da liberdade de expressão dos atletas, proibir a alegria? O que é ser sério para a CBF? Estuprar é coisa de gente séria? Fazer campanha para promover fascista é coisa de gente séria?

2. Evitar utilizar brincos chamativos

Bem, aqui começa a ficar mais divertido. Brinco, claro, é um signo do feminino. Vocês acham que alguma jogadora seria repreendida por usar brincos chamativos na concentração? Ou vale só mesmo para homens? Nesse caso, por quê? E, saindo da chave do machismo e entrando na da moral, por que diabos um atleta não pode usar brincos chamativos no jantar? A CBF é uma empresa moderna, um internato ou uma escola militar? Proibir brincos chamativos em homens chama como mesmo?

3. Não utilizar colares extravagantes.

Não pode colar extravagante exatamente por que, Brasil? Por que é símbolo feminino? Por que é símbolo de poder de jovens periféricos e isso incomoda? Incomoda quem? Qual o problema de a pessoa se expressar livremente em seus costumes se ela não está treinando ou jogando?

4. Utilizar as redes sociais de forma sóbria e com discrição, sem brincadeirinhas.

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A CBF está de brincadeira com a gente ou essa regra vale apenas para alguns atletas e não vale para outros?

5. Utilização do celular na mesa de jantar apenas após terminar a refeição

Vamos tratar homens como se fossem crianças? Porque é esse o caminho mais curto para que eles se comportem como crianças. "Ah, CBF, deixa eu usar meu celular na mesa hoje, por favor. Eu comi tudo, olha meu prato".

6. Evitar chegar ao estádio com fones ou ouvindo música alta.

Do que se trata essa regra? Por que o atleta não pode escutar sua música? Não faz parte do futebol essa festa antes do jogo? Não é exatamente sobre comunidade que o futebol fala? Por que um jogador não pode colocar seu fone e ouvir seu som predileto? Quem fez essas regras? Algum dos filhos do Jair? Uma escola militar?

7. Evitar que os atletas apareçam em vídeos oficiais ouvindo música e brincando no vestiário.

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Traduzindo: evitar parecer pessoa feliz. Felicidade: evitem. Evitem a todo custo. Obviamente eles levaram essa parte tão a sério que nem em campo conseguem ser felizes. Pobres meninos ricos.

8. Se atentar e respeitar os horários.

Não me diga que é preciso respeitar horário de treino? E do jantar? Quem poderia imaginar? O que apavora é a CBF achar que precisa colocar isso por escrito. Com quem a CBF acha que está lidando? Com crianças de 6 a 12 anos?

9. Não atrasar a saída do ônibus.

Jura? Se atrasar não ganha o pirulito no final do dia?

10 Não comer nada fora do plano nutricional no quarto

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Eu realmente não sei que tipo de negócio a CBF administra se é preciso recomendar ao atleta que não coma no quarto.

Bem, a cartilha não explica por que cabelo azul e platinado pode, mas cor de rosa não. E nem precisaria explicar porque é apenas uma obviedade: é misoginia. Se não fosse a CBF já teria dito que iria apurar quem foi essa pessoa sem noção que recomendou que Yan Couto tirasse o cor de rosa do cabelo. Mas ela calou sobre o tema e soltou esses 10 mandamentos tirados da escolinha de futebol do professor Raimundo.

Um futebol que se preocupa em limitar signos de liberdade de expressão de atletas mas não em educar seu corpo de funcionários, colaboradores e jogadores a respeito de crimes como a misoginia, o machismo e a LGBTfobia vai muito mal. Um futebol que cria regra para limitar brincos e colares e que tem medo de colocar a camisa 24 pra jogo vai muito mal. Um futebol que perde tempo com trivialidades e deixa de buscar suas raízes em campo vai muito - mas muito - mal.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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