Milly Lacombe

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Toda a beleza e a opressão contidas no dia dos namorados

O que quer dizer dia dos namorados? No Brasil, a celebração foi uma ideia marketeira do pai de João Doria. Acho que isso diz muita coisa a respeito do que está por trás desse 12 de junho.

"Ah, mas lá no Norte eles comemoram o valentine's day. Não é só aqui". Verdade. Mas vamos ver algumas diferenças, sem fazer juízo de valor.

O sentido da palavra "valentine" não é exatamente o de namorar. Está mais para o flerte, a conquista, a paixão, o encantamento. Me parece um pouco melhor que seja assim. No Brasil, o que temos é a celebração de um status: estamos namorando. Pior: com o sexismo da língua. Não seria também o dia das namoradas?

Que tal dia dos enamorados e das enamoradas? Dia dos apaixonados e das apaixonadas? Isso tiraria dessa celebração seu caráter excludente porque pessoas que não estão namorando poderiam se incluir e não apenas receber o recado de que talvez exista alguma coisa errada com você por estar sozinha (pesa mais para mulheres por motivos que não caberiam nesse texto).

Mas vamos deixar a semântica de lado e falar da simbologia e do que ela carrega com ela de careta e de violento.

Se você está namorando e apaixonada ou apaixonado, não tem nada de errado com isso. Tudo certo. Tudo certo também se emocionar com a data, tá? Eu, por exemplo, tenho uma reação absolutamente contraditória com aqueles pedidos de casamento tradicionais, que o cara ajoelha e entrega um anel para a mulher. Eu acho ridículo, cafona, patriarcal? Acho. Eu me emociono e choro? Quase sempre.

Pois é. Viver é saber acomodar essas contradições.

A gente é criada para acreditar que haverá um príncipe encantado e que a boa vida é a vida a dois. Pesquisas e estudos dizem, dia após dia, que a vida da mulher casada piora sensivelmente em relação à vida que ela tinha estando solteira, mas sobre isso pouco se fala. Somos criadas para acreditar que podemos jurar coisas como amor e fidelidade eternos a despeito de, dia após dia, a vida provar que isso não existe. Ah, mas eu conheço um casal que está junto há 50 anos e são grudados, dizem. Acho curioso pegar a exceção para chamar de regra. A gente sabe qual é a regra, né?

O que está errado então? Na minha opinião o que está errado se chama monogamia. Não a monogamia que é definida por seu suposto oposto, a putaria. Falo da monogamia enquanto sistema de poder. Essa que estabelece que uma relação de amor é maior do que outras. Namorado/marido é mais que amiga, por exemplo. É, aliás, bastante conveniente ao machismo e à misoginia colocar as coisas nesses termos.

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Todas nós temos amigas - ou já fomos a pessoa - que começa a namorar e some. Na agenda, ir ao churrasco de aniversário de 90 anos da avó do cara, uma pessoa que você nunca viu, com todo o respeito a ela, é mais importante do que fazer companhia para a amiga que acabou de perder o emprego e precisa de uma força.

A ideia da monogamia também contém a ideia da propriedade, especialmente em relações heterossexuais e especialmente para os homens. A mulher é deles. O que isso quer dizer? Só podemos possuir objetos, certo? Sujeitos estão da dimensão do inapropriado ainda que o colonialismo e o machismo insistam em dizer o contrário. E o mais grave: o que a propriedade oferece como direito ao proprietário? O direito de destruir. Sem esse direito, o proprietário não é proprietário porque ele não tem a posse. Sem esse direito se chama usufruto.

Claro que estamos falando de dinâmicas muito heterossexuais, mas vejam como a publicidade retrata os casais LGBTQs nesse dia: com a mesma dinâmica da heter-onormatividade. É como se o paradigma da hete-normatividade fagocitasse todas as outras relações.

Estamos falando de hierarquia? Sim, sem dúvida. Mas também de capitalismo. Essa dinâmica heterossexual que não questiona os papeis serve bastante bem a esse sistema que reproduz desigualdades em ritmo frenético. Passamos anos lutando pelo direito de casar quando deveríamos talvez ter lutado pelo fim da família tradicional, esse núcleo hierárquico que oprime mulheres, reproduz valores violentos da heterossexualidade e coloca o homem no papel de líder, comandante, chefe, autoridade, aquele a ser servido, respeitado e obedecido.

O dia 12 de junho poderia ser celebrado, claro. Existir e re-existir dentro de um relacionamento romântico é tarefa cheia de desafios, mas é, provavelmente, a melhor e mais rápida maneira de caminhar em direção à sua melhor versão. Em carne viva, saltando de precipícios, morrendo e renascendo um pouco a cada dia.

Mas esse dia também deveria comportar críticas por todos os que estão cansados desse modelo matemático de amor, relacionamento e família.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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