Milly Lacombe

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Por que a seleção brasileira segue em processo de desencanto

Sábado à noite, jantar na casa de amigos. Todos apaixonados pelo futebol. Pizza, queijos e vinho. Conversas em volta da mesa. Nenhuma menção ao jogo do Brasil contra o México que estava sendo transmitido pela TV. Zero. Ninguém se interessou em ver. Falamos do Corinthians, do Santos, do Brasileirão e da Libertadores. Era como se a seleção brasileira não existisse. Uma constatação tão concreta quanto triste. Simbolicamente, ela de fato não existe.

Hoje a seleção existe como negócio. Tem patrocinadores de peso, uma dinheirama em conta e aplicada a esses doces juros praticados no Brasil, uma camisa que, mesmo maltratada, ainda não perdeu todo o seu capital, e alguns dos melhores jogadores do mundo. Mas é uma seleção sem brilho, sem apelo afetivo, sem engajamento.

Não sei se a CBF se preocupa com isso ou se basta seguir ganhando dinheiro que tudo vai bem. Quero acreditar que Ednaldo Rodrigues gasta parte de seu tempo pensando em como reverter esse cenário desértico de paixão pela seleção.

Verdade que ele e sua administração não são os únicos responsáveis pela perda da paixão do brasileiro em relação à sua seleção. Esse é um trabalho que vem sendo executado com esmero desde a década de 90, com as breves interrupções de 1994 e de 2002 que, na minha opinião, não resgataram muita coisa a respeito do amor pela camisa. Levantar troféu é bom para o bolso mas, a depender de como isso é feito, não tem efeito duradouro.

Em 1994, tivemos Romário e Bebeto. Uma seleção que não encantou, muito pelo contrário. Em 2002, Rivaldo e Ronaldo e a simpatia da arbitragem que, além de favorecer o Brasil, foi tirando tradicionais rivais do caminho com decisões bastante polêmicas.

Atualmente, os principais jogadores do time de Dorival são jovens que deixaram o Brasil sem criar vínculos afetivos com a torcida. Temos Endrick e Vini Jr e quem mais? Esse vínculo é parte do tecido que une o time à torcida. Se ele falta, a gente perde muita coisa.

A seleção e sua comissão vivem em um castelo distante do cidadão e da cidadã. Treinos fechados, concentração invadida pelos mesmos de sempre, uma turma de empresários, agentes e executivos. Uma seleção que se engaja apenas timidamente em causas sociais que tanto ferem as pessoas que ela representa. Uma seleção que está absolutamente alinhada aos principais interesses do capital privado e deu as costas para o povo.

Em campo, um futebol sem graça e sem personalidade. Tudo rígido e esquemas que copiam fielmente o que fazem os europeus. Perdemos nossos predicados e atributos. Estamos esvaziados e atitudes originais. Somos mais um apenas. Choramos a possibilidade de perder Lucas Paquetá, talvez o único que tenha algumas características de meia, e não nos damos conta de que, numa lista dos 50 melhores meias que já jogaram com essa camisa Paquetá não teria seu nome citado.

É triste notar como não ligamos mais para esse time. Enquanto eu crescia e articulava meu amor pelo futebol, a seleção era tão importante quanto o meu time. Acho que os jovens de agora não entendem o que é amar a camisa da seleção tanto quanto você ama a do seu clube do coração. Hoje esse sentimento é inalcançável.

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No jantar com amigos no sábado havia crianças que adoram o futebol. Queriam falar comigo do jogo, mas apenas na dimensão de seus times. Não sabiam que havia jogo da seleção na TV. Não estavam nem aí para isso. Assim como nenhum de nós. Quando eu tinha a idade daquelas crianças, se havia jogo do Brasil na TV, qualquer encontro entre amigos que gostam de futebol aconteceria em torno da partida. Um dia esses jovens amarão a seleção brasileira? Eu duvido. A CBF se importa? Eu não saberia dizer. O que posso dizer é que, se a CBF se importasse, ela deveria agir. E não me parece que a entidade esteja fazendo alguma coisa para resgatar o apelo afetivo que a seleção pode ter.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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