Milly Lacombe

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A mulher que honrou a economia, a justiça social, o feminismo e o palavrão

Meninas são socializadas de modo a se tornarem mulheres doces, meigas, amáveis e gentis. Não é considerado feminino elevar o tom de voz, rir demais, demonstrar ser mais inteligente do que seus colegas de trabalho, ficar nervosa, discursar apaixonadamente ou falar palavrões. A economista Maria da Conceição Tavares, que hoje nos deixou aos 94 anos, fazia tudo isso de formas abundantes.

"Economia é ciência social", ela cansou de ensinar. Toda economia é economia política, repetia incansavelmente.

Portuguesa de nascimento e brasileira de coração, Maria da Conceição Tavares deu aulas para gerações de economistas, como Luiz Gonzaga Beluzzo e José Serra. Hoje, trechos dessas aulas fazem sucesso no TikTok. Neles, vemos uma professora que transgride a norma e usa o palavrão para pontuar sua farta indignação.

Poucas coisas se comparam a um palavrão bem colocado em momento de paixão. Maria da Conceição Tavares fazia isso com extrema capacidade. Ao se comportar desse jeito dentro de um corpo docente composto por muitos homens ela nos dizia que nós podemos ser o que quisermos ser, como quisermos ser. Que símbolos e signos de feminilidade são muitas vezes ferramentas do machismo e da misoginia para nos manter cativas, submissas, dominadas. Mulher de pensamento rápido e ácido, calava seus interlocutores apenas pela associação de ideias.

Enquanto muitos insistiam em jogar o debate para o terreno do pessoal ou da falta de sentido prático - outro recurso do machismo -, a economista voltava ao mérito e fazia uso de seu poder argumentativo para ofertar o aluno ou o observador com o que de melhor podemos receber: respeito às nossas inteligências, ao nosso tempo, à nossa dignidade.

Torcedora apaixonada do Vasco da Gama, teve sua jornada retratada em documentário de José Mariani. Para muitas gerações de economistas, é mestra. Para muitas gerações de mulheres, é ícone.

Maria da Conceição Tavares deixa como legado sua obra e seu conhecimento acumulado. Mas, para meninas e mulheres, ela deixa muito mais. Deixa a certeza de que podemos falar apaixonadamente, de que não precisamos parecer calmas diante de uma sociedade tão violenta e injusta, de que podemos nos inserir com confiança em ambientes dominados por homens e de que um palavrão bem colocado é tecnologia de luta. Meninas, afinal, podem sim falar palavrão. Obrigada, professora.

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Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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