Milly Lacombe

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Lições sobre o ridículo tiradas do embate entre Leila Pereira e John Textor

O senador Jorge Kajuru decidiu abrir a sessão do dia 5 de junho da CPI das apostas fazendo uma piada sobre como mulheres não entendem de futebol. "Perguntam quem é a bola", disse sorrindo, voz amplificada pelo microfone. Ao seu lado, Leila Pereira, a presidente mais vitoriosa no futebol dos últimos anos. A intenção do senador não era deixar o clima ameno. Não era relaxar o ambiente. Era colocar Leila Pereira e as demais mulheres daquela casa em seus devidos lugares. "Vocês não pertencem", era o recado.

O mesmo senador, quando esteve ao lado do presidente do Botafogo John Textor, que claramente não entende nada desse esporte, o tratou como se Textor fosse um rei intergaláctico de uma civilização avançada. Pompas, elogios, deferências.

No corpo do senado, fazendo as perguntas, as mesmas atitudes apequenadas: os mesmos que lamberam as botas do empresário gringo que comprou o Botafogo agora tentavam diminuir Leila. O senador Chico Rodrigues, do PSB de Roraima, decidiu, pelos mesmos motivos que levaram Jorge Kajuru a abrir a sessão cometendo uma piada machista, seguir a seguinte linha de pergunta: primeiro, deixando claro que Leila é casada com um homem poderoso sugerindo que só por isso está onde está e depois colocando em dúvida o amor dela pelo Palmeiras. Como a vergonha não é coisa que parte da classe política brasileira consiga alcançar, ele seguiu associando ideias machistas a fim de deixar Leila deslocada.

Acontece que Leila Pereira está a cada dia mais consciente dessas armadilhas e vem adquirindo um tipo de couraça que não se deixa sujar pela lama misógina arremessada em sua direção. Poderosa e confiante, ela apenas rebate, ri com deboche e leva o debate para onde ele deve ir: para o mérito do que está sendo investigado.

Eu cruzei o deserto de assistir à íntegra das duas sabatinas no senado: a de Textor e a de Leila Pereira. Sei que quase ninguém vai fazer isso, mas a simples comparação do tratamento dispensado aos dois presidentes pelo parlamento brasileiro desnuda o mais ridículo, infantil, constrangedor, cafona e vulgar da masculinidade.

Sempre bom pedir ajuda ao pensamento da filósofa Marilyn Frye:

"Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais exclusivamente com o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens héteros reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admira; respeitam; adoram e veneram; honram; quem eles imitam; idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam; estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens. Em suas relações com mulheres o que é visto como respeito é gentileza, generosidade ou paternalismo; o que é visto como honra é a colocação da mulher em uma redoma. Das mulheres eles querem devoção, servitude e sexo. A cultura heterossexual masculina é homoafetiva, ela cultiva o amor pelos homens".

Quem observar o tratamento dispensado pelos senadores a Textor e a Leila terá um exemplo prático do que diz Frye. Com Textor, admiração, afeto, carinho, bajulação, puxa-saquismo, idolatria. Com Leila, piadas e cutucadas ditas entre sorrisos. Voz mansa e doce para Textor, voz alta e forte para Leila.

Uma vez que a gente compreenda do que se trata essa cultura heterossexual masculina e a veja pelo que ela, com toda a lambeção e desespero afetuoso de um homem pelo outro, a primeira atitude é rir. Temos feito muito isso em nossos grupos de mulheres. Estamos aprendendo a nos divertir mesmo tendo que lutar por nossas vidas, nossos empregos, nossos salários, nossa integridade moral e espaço justo no ambiente de trabalho.

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Textor é um estadunidense que claramente não entende de futebol, que por ter perdido um campeonato que estava ganho saiu esperneando e tendo chiliques e decidiu que iria provar que houve manipulação. Até agora não provou nada e tudo o que ele diz ser prova cabal é apenas o futebol como ele é: cheio de falhas, de reviravoltas, de tragédia, de glórias e de polêmicas. Quem não entende de futebol e quem está tentando nos diminuir é ele. Mas as piadas foram para Leila Pereira, cujo trabalho no Palmeiras, se feito por um homem, estaria sendo elogiado, bajulado e premiado.

Imaginemos o contrário: o time de Leila perde o campeonato e ela sai histericamente por aí dizendo que foi manipulado, apresentando provas que não provam nada, chorando e esperneando. O que diriam sobre ela? Dariam ouvidos? Textor está sendo levado muito a sério, a despeito do ridículo de suas ações.

O machismo e a misoginia se vestem também de elogios condescendentes, como fizeram os senadores com Leila. Somos bastante treinadas para saber quando estamos interagindo com um homem babaca que tenta nos seduzir com elogios vazios, nos chama de "querida" e nos trata como crianças. Eles estão por todos os lados: no trabalho, na família, na academia, no clube, nas festas.

Tenho uma história curiosa sobre esse método do machismo.

Uma vez comprei um carro e o vendedor, a fim de fazer a venda, me tratou com essa condescendência. Ok, era o jogo dele. Precisava da comissão, é o trabalho do cara, não falei nada. Mas o carro veio com um problema no sistema de som e eu tive que voltar a tratar com o vendedor. No ato da venda, ele me disse que era o cara que cuidava de tudo, que resolveria as questões mesmo depois que eu retirasse o veículo. Quando voltamos a nos falar ele passou a me chamar de "gata". "Gata, vou ver o que posso fazer", "Gata, isso já não é da minha área", "Gata, acho que o sistema de som estava ok quando você retirou o carro". "Gata, você não está sabendo mexer no sistema".

Um dia, já transtornada, perguntei se ele chamava os clientes dele de "gatos". O homem ficou horrorizado e disse que obviamente não fazia isso. Então eu disse que ele parasse de me chamar dessa forma, que parasse de me tratar como se eu tivesse 15 anos e que apenas resolvesse a questão que ele, anteriormente, disse que era com ele, que ele era o cara, que ele era o responsável. Falei tudo isso quase berrando e desliguei dizendo que se ele não resolvesse eu iria para as escalas mais altas na empresa. O problema foi resolvido em pouco tempo depois desse show, mas para isso eu tive que me comportar como uma pessoa grosseira, chata e descontrolada. É o que o machismo faz com a gente. É onde as piadas, a condescendência e os deboches querem nos colocar. Para que, quando perdermos a cabeça, possam nos chamar de loucas. A CPI das apostas não vai servir para absolutamente nada, mas pelo menos terá deixado registrado em vídeos o que o machismo faz com os homens, expondo-os ao ridículo, ao deprimente e ao debochável.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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