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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Corinthians: a falta de um time-base pode começar a custar caro

Raul Gustavo comemora com Mantuan e Giuliano seu gol pelo Corinthians, diante do Santos, pela Copa do Brasil - Marcello Zambrana/AGIF
Raul Gustavo comemora com Mantuan e Giuliano seu gol pelo Corinthians, diante do Santos, pela Copa do Brasil Imagem: Marcello Zambrana/AGIF
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

04/07/2022 12h53

O futebol atual exige que um time tenha mais do que 11 titulares. Intenso, disputado, violento, acelerado: o jogo acaba sacrificando, com lesões e fadiga, o conceito de time titular.

Por isso a necessidade de ter um elenco alargado, peças de reposição, juventude. O desenvolvimento de ciências como a fisiologia, que colabora com a possibilidade de perceber antecipadamente quais jogadores têm mais risco de se contundir, também entra nessa conta. Antes, sem que houvesse esse conhecimento, jogava quem ainda conseguia correr, mesmo com dor.

Então, Vitor Pereira não tem mesmo muita responsabilidade na falta de capacidade de conseguir estabelecer um time-base.

Sem time-base fica mais difícil construir um sistema de jogo que possa ser reproduzido com a troca pontual das peças. Não existe isso no Corinthians e VP já teve que mudar a composição tática por falta de jogadores que pudessem ser encaixados no sistema que ele talvez considerasse ideal.

É um desafio estabelecer uma forma de jogo diante dessa realidade.

O Palmeiras, que usa o elenco de forma bastante rotativa, foi capaz de encontrar um estilo de jogo depois de um ano de trabalho - e só houve essa possibilidade porque os resultados chegaram antes mesmo que Abel fosse capaz de impor seu jeito de jogar.

Se seguirmos esse fio de ideias, chegamos à conclusão de que o problema foi a montagem do elenco: um time com muitos craques em idade avançada e com muitos miúdos bons de bola mas ainda inexperientes para segurar o tranco de competições tão tensas como os mata-mata.

Para piorar, os bons jovens vão sendo negociados na medida em que chegam propostas: GP, João Vitor, Mantuan já saíram ou estão saindo. Há chances de Raul Gustavo e sabe-se lá quem mais. Fica realmente complicado montar um time quando o Terrão é liquidado nesse ritmo.

"Ah, mas precisamos de caixa", dirão.

Se fosse isso, o time não estaria comprando com a mesma pressa que vende.

Para piorar, as negociações são problemáticas. Sai Gustavo Mantuan - um jogador essencial para o esquema de VP - para vir o tão necessário atacante para o meio da área. Vale a troca? Tenho muitas dúvidas.

Nessa terça, 5 de julho, a falta de um time base e, portanto, de uma forma de jogo, pode começar a cobrar seu preço a depender do resultado na Bombonera.

Eliminado, o Corinthians pode flertar com uma crise. Classificado, haverá a equivocada impressão de que esse tipo de administração está correta.

E a base - o que o time tem de melhor depois da torcida - seguirá sendo liquidada.