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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Assédio sexual não é sobre tesão; é sobre poder

Pedro Guimarães ri com Jair Bolsonaro durante evento - Antonio Cruz/Agência Brasil
Pedro Guimarães ri com Jair Bolsonaro durante evento Imagem: Antonio Cruz/Agência Brasil
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

30/06/2022 12h40

O ex-presidente da Caixa, Pedro Guimarães, amigo e parceiro de Jair Bolsonaro, é alvo de uma série de relatos que o acusam de ter praticado, de forma recorrente, assédios sexuais.

Sempre que um homem é acusado de assédio sexual existe a tendência de que ele seja avaliado como alguém com muito ímpeto libidinal, alguém que não consegue se controlar em suas necessidades primárias. Acontece que assédio sexual está tão distante de sexo quanto São Paulo da galáxia de Andrômeda.

Assédio sexual, abuso sexual e estupro não tem ponto de contato com libido, desejo ou tesão. Não passam perto de erotismos ou de volúpias. Trata-se de armas de guerra que, como todas, fala de domínio, ocupação e poder.

O estupro é um recado sobre dominação e recalque. Ele fala de ódio ao corpo feminino. É uma comunicação a respeito de repulsões, de desprezo, de asco e de aversão ao corpo de uma mulher.

Homens que praticam assédio estão partindo de um lugar de profunda fragilidade de suas masculinidades. Querem, com o crime, provar a eles mesmos que são fortes, viris e poderosos.

O estupro é uma cultura em nossa sociedade e, através dela, homens pretendem nos manter em eterno estado de servidão e de sujeição. Quando conquistamos espaços, eles reagem com suas conhecidas armas de guerra. É sobre território.

Todo assédio sexual retrata a fragilidade, a pequenez, a insegurança e a debilidade da masculinidade. Usam a força física para esconder a fraqueza de caráter.

Sexo é o encontro de duas ou mais pessoas que, a partir de um lugar de igualdade, de desejo e de consensualidade, entregam-se a uma dança erótica que as levará ao êxtase. Sexo é sempre consentido e mutuamente desejado. Fora desse ambiente, tudo o mais é abuso, assédio e estupro.

Nas palavras da escritora Rebecca Solnit: "violência não tem raça, classe, religião ou nacionalidade; mas ela tem gênero"