PUBLICIDADE
Topo

Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Richarlyson assume ser macho pra caramba

Richarlyson defende a seleção brasileira em amistoso contra a Irlanda, em 2008 - Ian Walton/Getty Images
Richarlyson defende a seleção brasileira em amistoso contra a Irlanda, em 2008 Imagem: Ian Walton/Getty Images
só para assinantes
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

24/06/2022 11h11

Num mundo em que ser homem está associado a ser valente precisaremos reconhecer que o ex-jogador de futebol e atual comentarista Richarlyson é homem demais.

Um dos mais qualificados e vencedores meio-campistas que o São Paulo e o Brasil já viram jogar, atleta incansável, teve que conviver durante anos com a imagem de gay dentro do mais homofóbico dos meios: o futebol.

Rick, como é conhecido, sempre optou por se recolher, evitar o assunto e até negar se fosse pressionado. Quem pode culpá-lo? Somos o país que mais mata LGBTQs no mundo. E somos também o país que mais consome pornografia LGBTQ no mundo.

O que isso diz sobre a sociedade brasileira? Que vivemos em uma crise de desejos. Quem não lida bem com os seus sai por aí fazendo piadas, batendo, matando.

Dentro desse cenário, é preciso muita valentia para se assumir bissexual como fez Rick essa semana, em entrevista à repórter Joanna de Assis para o podcast "Nos Armários dos Vestiários", série jornalística que trata da homofobia no futebol.

A letra B na siga LGBTQ não é de Beyonce: é de bissexual. Eles, elas e elus existem entre nós. São essas pessoas suficientemente sortudas para serem capazes de amar qualquer um. É potência demais poder amar tão largamente, não é mesmo?

Rick é um valente por se assumir bi. É valente por ter encarado seguir seu coração e se profissionalizar mesmo sendo motivo de chacota de muitos. É valente por mostrar pra gente que para ser craque não precisa se infectar da masculinidade tóxica que rege o meio.

Rick é valente por ousar ser quem é num país que todos os dias nos diz que não podemos, não devemos, não somos bem vindos e bem vindas.

Isso é valentia: a capacidade de lutar para amar. De sair do armário e, com isso, salvar a vida de muitos jovens LGBTQs que estão hoje mesmo batalhando contra o que são.

Valentia não é chamar para a briga, é chamar para o abraço apertado, para o beijo bem dado, para o amor.

Ser macho deveria ser isso e nada mais: ser valente para amar.

Mas a verdade é que as denominações "coisa de homem" e "coisa de mulher" em breve já não farão sentido.

Não existe "coisa de homem" e "coisa de mulher". Mulheres não nascem usando cor de rosa e brincando de boneca: são ensinadas a fazer isso. Homens não nascem de azul e jogando bola: são ensinados a fazer isso. Tudo é uma construção. Nossa tarefa é romper com as limitações do sistema sexo-gênero para que assim possamos saber quem somos e quais são nossos reais desejos.

Como disse Nelson Mandela, a gente não nasce odiando, a gente é ensinado a odiar. E se a gente é ensinado a odiar, a gente pode ser ensinado a amar. Mas como ainda vivemos nesse mundo em que ser corajoso é associado a ser macho, então meu caro Rick, tu é macho pra caralho.