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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Só por hoje, vamos deixar o futebol pra lá

Nelson Mandela, ex-presidente da Africa do Sul, usando roupa da tradição Shembe, saúda multidão perto de Durban - France Presse: AFP/France Presse- AFP
Nelson Mandela, ex-presidente da Africa do Sul, usando roupa da tradição Shembe, saúda multidão perto de Durban Imagem: France Presse: AFP/France Presse- AFP
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

26/05/2022 18h08

Futebol é importante demais. É tecnologia de transformação social, é usina que faz circular afetos. Diz respeito a quem somos enquanto nação e cultura.

Os modos pelos quais existimos em um campo refletem as formas através das quais nos relacionamos.

O drible é filho da capoeira, a alegria com que costumávamos jogar é a mesma de uma roda de samba; o êxtase e a suspensão são as de um terreiro.

Quem ama futebol precisa se colocar em posição de prece diante da produção cultural das favelas e periferias.

Uma vez estabelecido que o sagrado futebolístico vem de lá - e nunca, jamais da nossa cartolagem - então é dever se manifestar contra as chacinas e os extermínios a que estão submetidos a população negra e periférica desse país.

O futebol não pode calar. O futebol precisa se manifestar.

Ontem, 28 pessoas assassinadas na Vila Cruzeiro.

Anteontem, Jacarezinho.

No rastro macabro dos extermínios: Vigário Geral. Maré, Rocinha, Vidigal.

Todas as favelas cariocas têm pelo menos algumas chacinas associadas a seus nomes.

As periferias das grandes cidades brasileiras não ficam atrás. Gente inocente morta com bala paga pelo contribuinte.

Os mortos têm nomes.

São filhos, netos, pais. Tem uma casa, uma cama, uma família.

João Pedro, Agatha Felix, Kauê Ribeiro: nem 13 anos puderam completar.

"Sai com a nota fiscal do celular", todas as pessoas pretas aprendem muito cedo no Brasil.

"Não esquece o RG", dizem as mães pretas sabendo, lá no fundo do peito, que precisam pelo menos ter o direito de reconhecer o corpo do filho assassinado.

Falamos com horror do Apartheid, regime de segregação racial que durou 46 anos na África do Sul. "Inadmissível", dizemos. "Grotesco, impensável, pavoroso". Sim, sem dúvida.

Aqui algumas características da monstruosidade sul-africana que terminou quando Nelson Mandela, depois de passar 28 anos como preso político, foi eleito presidente do país:

- Proibição de circulação de negros em determinadas áreas das cidades

- Determinação e criação dos bantustões (bairros só para negros)

- Proibição de negros no uso de determinadas instalações públicas (bebedouros, banheiros públicos)

- Criação de um sistema diferenciado de educação para as crianças negras

Conseguem inserir nossa realidade nessas características do Apartheid sul-africano que chamamos de crime contra a humanidade? Em todas. Pois é. Vivemos um Apartheid. Estamos dentro de um regime de segregação racial.

Os casos de assassinatos de pessoas negras e periféricas durante operações policiais não são episódios isolados.

Eles são a regra. Um genocídio lento que é operacionalizado há séculos pela branquitude que está no poder.

Hoje soubemos que, em Sergipe, Genivaldo Santos morreu nas mãos da polícia exatamente como morreram milhões de judeus, homossexuais, ciganos e comunistas nas mãos do nazistas no século passado: dentro de uma câmara de gás.

Genivaldo era um homem negro e periférico.

Não é caso isolado.

É uma estrutura de poder que organiza a forma como existimos. Uma estrutura de poder que decide quem vive e quem morre. Que decide por quais mortes devemos chorar e quais podemos ignorar.

Uma estrutura racista, reproduzida para que as coisas se mantenham como são, tendo uma mesma classe de pessoas no poder.

Só no Rio, ao todo, foram realizadas 17.929 operações entre 2007 e 2021 em favelas da região metropolitana, das quais 593 resultaram em chacinas, totalizando 2.374 mortos.

São os números de uma guerra.

Mas dizem que não estamos em guerra. Que não somos racistas. Que somos uma democracia racial.

Mentira. Estamos em guerra. Todos os dias.

Contra negros, mulheres, LGBTQs. As baixas são as de uma guerra. Só que, ao contrário do que acontece numa guerra, estamos sendo assassinados por quem deveria nos proteger.

A crescente militarização das nossas polícias revela a estética do horror: o inimigo somos nós. A população. Com recorte de raça, gênero e classe.

Só por hoje, não vamos falar de futebol.

Só por hoje, vamos olhar para e espelho e enxergar o que somos.