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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Flamengo, o time dos duros e favelados

Contra Univ. Católica, pela Libertadores, torcida do Flamengo protesta contra diretoria - Jorge Rodrigues/AGIF
Contra Univ. Católica, pela Libertadores, torcida do Flamengo protesta contra diretoria Imagem: Jorge Rodrigues/AGIF
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

24/05/2022 11h06

O Flamengo é mesmo o time dos duros e favelados, como disse o locutor Sergio Maurício. Também é o time das lésbicas, das bichas, dos empresários, dos milionários, dos advogados, dos carteiros, dos poetas, dos artistas, das feministas negras, das pessoas trans... Não se adquire o celebrado status de time do povo se não for para ser o time de todos e de todas.

Usar "duro e favelado" de forma pejorativa é golpe dos mais baixos e classistas. Não se diz isso sem estar impregnado de preconceitos.

A gente pode e deve se desconstruir das nossas intolerâncias, mas não é via nota com pedido de desculpas. Consciência social não muda da noite para o dia.

Consciência a gente ganha dentro dos nossos quartos e salas. Sangrando, pensando, sofrendo, sentindo. Dói crescer. Mas é necessário.

Favelado não deveria ser termo pejorativo. A favela, ela sim, deveria ser motivo da nossa luta no sentido de não ser aceitável que haja favelas.

Não deveria haver quem precisasse sobreviver no precário. Mas há. E essa gente sobrevive não apenas com pão, mas também com arte, com música, com dança, com futebol. A favela produz e cria, a classe alta (e branca) se apropria. A história do Brasil em uma frase curta.

A classe dominante, essa mesma que mantém a desigualdade que gera as favelas e as periferias, até preferiria ver todos de cabeça baixa dizendo apenas "sim senhor" e "sim senhora". Mas isso ela não vai ter. E essa resistência que vem da favela é o verdadeiro Brasil.

Chamar de duro também precisa ser colocado em contexto.

Somos o país mais desigual do mundo. Há milhões de duros. E a maior parte dos duros trabalha 15 horas por dia sete dias por semana. Para tentar pagar os boletos. Depois do golpe empresarial-parlamentar cometido contra Dilma, com a economia sendo regida para a classe dominante, essa galera trabalha para escolher quais boletos vai pagar.

A nova classe trabalhadora brasileira é o precariado. É esse o retrato do Brasil.

E ela é, em boa parte, Flamenguista. Mas também é corintiana, são-paulina, palmeirense, gremista, atleticana, cruzeirense, vascaína, botafoguense, santista.

Ela também torce para o Fluminense, para o Fortaleza, para o Juventude, para o Avaí, para o Athletico, para o Goias, para o CSA, para o Bahia, para o Vitória, para o Ibis.

Estudos indicam que quase 10% da população brasileira mora em favelas. São quase 20 milhões de pessoas. Em tamanho, seria o quarto estado mais populoso do país. Tem torcida de todos os clubes nas favelas.

Ser pobre não é demérito num país que se afunda em desigualdade e injustiças sociais. Ser pobre não é demérito no país que viveu 400 anos sob a escravidão e nunca fez um plano de inclusão social. Ser pobre não é demérito num país que tem bilionários que exploram o suor do trabalhador amparados por políticas públicas que os ricos chamam de "reformas".

Que haja pobreza numa das maiores economias do mundo é que deveria ser motivo de tristeza e de revolta e contra ela deveríamos nos insurgir. O pobre brasileiro ensina sobre resistir, existir e re-existir.

Termino com o poeta Sergio Vaz: "sorrir enquanto se luta é uma forma de confundir o inimigo".