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OPINIÃO

Reclamar de racismo em Buenos Aires para cometer homofobia em Itaquera

Torcida comemora gol do Corinthians contra o Boca Juniors em La Bombonera, pela Libertadores Imagem: Staff images / CONMEBOL
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Milly Lacombe

Colunista do UOL

22/05/2022 20h01

Eu já estive em Majestosos nos quais fiz coro com a torcida do Corinthians enquanto ela entoava gritos carregados de homofobia e de misoginia contra o time do São Paulo.

Eu achava divertido. Achava que era do jogo. E, vejam, eu sou mulher e faço parte do L do movimento LGBTQIA+. Ainda assim, era como eu me comportava.

O que mudou em mim desde essa época para que eu agora critique a homofobia e a misoginia nos estádios?

Mudou a consciência. Eu acreditava que, ao me referir ao São Paulo no feminino, eu estava tirando uma onda inofensiva e, ao mesmo tempo, diminuindo o rival. Mas eu estava errada - absolutamente errada.

Primeiro, é sempre preciso lembrar que somos o país que mais mata LGBTQs no mundo. Somos também campeões em violência contra a mulher. A cada dez minutos uma de nós é estuprada no Brasil. A cada dia, três são mortas (por maridos, namorados, ficantes, amantes).

Depois, é importante ressaltar que, ao usar o feminino para tentar diminuir o adversário sugerindo que ele é frágil por estar associado a coisa de mulher, eu estou diminuindo o que é ser mulher. Isso é misoginia.

Desse modo, estou perpetuando a ficção de que mulher é mais fraca, menos capaz, mais vulnerável. O que esse tipo de ação faz com a mentalidade do torcedor e da torcedora?

Os torcedores em formação serão construídos com a ideia de que mulher é menos, de que homossexuais são inferiores. Isso, lá no fim do dia, resulta em mortes, em violências físicas e opressões.

Racismo, machismo, misoginia e homofobia fazem parte de uma mesma estrutura de poder. São tecnologias de dominação que favorecem apenas os mesmos de sempre.

O masculino é construído em oposição ao feminino. O que é ser homem num cenário desses? É não ser mulherzinha. É não chorar. É não demonstrar emoção. É não usar cor de rosa. É não ir para cama com outro homem.

Ser homem é muitas coisas, verdade, mas nenhuma delas envolve as citadas acima.

Gritos homofóbicos em estádios colaboram para a sedimentação de valores sociais que matam, separam, excluem, julgam, oprimem.

Mas é importante ressaltar o aspecto misógino dos gritos - para além da homofobia. A misoginia parece não ser nunca diagnosticada.

Se queremos humilhar o São Paulo, temos que ganhar, jogar, lutar, sobrar. Em campo. Não em canções, em declarações, em composições.

O Corinthians é maior do que esse tipo de gesto.

Hoje, em Itaquera, houve gritos de conteúdo homofóbico e misógino. Foram menos intensos, mas ainda estavam lá.

O time que se declara do povo deve se elevar a essa verdade da qual diz se orgulhar.

É preciso ser o time de todos. Dos homens, mas também das mulheres, das bichas, das travestis, das pessoas trans, das lésbicas, das e dos bissexuais, dos excluídos, dos não-binários, dos trabalhadores, das pessoas com deficiência. Um time para todos e para todas. Um time que acolhe geral, que abraça sem julgar.

Um time inclusivo e, sob nenhuma circunstância, excludente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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