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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

No futebol, alguns clubes estão confundindo comunicação com masturbação

Bandeira lgbtqia+ orgulho gay - Trey Musk/ Pixabay
Bandeira lgbtqia+ orgulho gay Imagem: Trey Musk/ Pixabay
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

17/05/2022 17h00

Nesse dia internacional da luta contra a homofobia, transfobia e bifobia muito se fala sobre o Brasil ser o país que mais mata LGBTQs no mundo. Correto. Temos esse título macabro para chamar de nosso. Mas temos um outro, que faz uma bela dupla de ataque com esse: somos o país que mais consome pornografia LGBTQ no mundo.

Acho que talvez nem fosse preciso ligar um dado ao outro, não é mesmo? Mas liguemos.

Somos um país mergulhado em uma crise de desejo. Um país que assassina suas vontades e sonhos. Um país que inveja quem ousa ser quem é e, sem saber lidar com o sentimento, mata, esquarteja, dilacera.

Somos, também, o país do futebol e, por isso, o futebol tem se sentido compelido a se manifestar em datas como a desse 17 de maio. Já não é mais aceitável calar, então os departamentos de marketing e comunicação são convocados a agir.

Quase todos os clubes fizeram uma postagem em homenagem à data. Houve os que acertaram na postagem - no conteúdo e na estética - e houve aqueles que confundiram comunicação com masturbação, como Palmeiras e Corinthians, que fizeram postagens para deleite deles mesmos sem se importar muito com quem está do outro lado ou com a notoriedade da causa (O Corinthians mudou as cores da bandeira para não usar o verde palmeirense, e o Palmeiras usou apenas o verde, sem se importar com as demais cores).

O engajamento a uma luta social não é apenas jogada de marketing. Nesse dia tão importante, seria necessário que os clubes, além de postarem a bandeira LGBTQIA+, usassem sua comunicação para dizer o que fazem durante o ano para diminuir a LGBTfobia.

Colaboram com instituições LGBTQs? Com quais? Tem LGBTQs contratados? Tem LGBTQs na diretoria? Tem um estudo sobre o percentual de seus torcedores LGBTQs? Fazem ações durante o ano? Quais?

Printar e postar a bandeirinha LGBTQ é fácil - para quase todos, menos para Palmeiras e Corinthians pelo visto. Mas o que é feito de fato durante o ano em nome da luta?

Nada vai mudar se o engajamento não for verdadeiro. Fazer por fazer não é digno nem decente. Queremos os clubes com as camisas 24 em uso (viva o Corinthians e viva Cantillo), queremos práticas, atitudes, respeito às cores das nossas bandeiras e às nossas formas de viver e de amar.

Não por um dia. Não por um ano. Não pelo apelo que uma jogada de marketing pode causar. Mas por milhões e milhões de vidas.