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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Corinthians e mais uma acusação de racismo: o que dá pra deduzir

Rafael Ramos, do Corinthians, na partida contra o Internacional no Beira-Rio pelo Campeonato Brasileiro 2022 - Pedro H. Tesch/AGIF
Rafael Ramos, do Corinthians, na partida contra o Internacional no Beira-Rio pelo Campeonato Brasileiro 2022 Imagem: Pedro H. Tesch/AGIF
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

15/05/2022 09h13

Ao que parece, estamos diante de uma acusação de racismo cuja única prova é a palavra da vítima. Não são raros os casos como esse, e eis aí mais um ponto de encontro entre racismo e acusações de violência sexual: muitas vezes tudo o que temos é a palavra da vítima.

Em ambas as situações, não demora para que a palavra da vítima seja desacreditada, desmoralizada, deslegitimada. Essa desmoralização entra no jogo vestida de ponderação e de silêncios. Os homens que estão no poder gostam de mostrar que são dominados pela razão como se a razão fosse um imperativo moral, como se houvesse essa possibilidade, a de sermos integralmente guiados por uma coisa chamada razão, como se não fôssemos atravessados por afetos e paixões e ideologias e crenças e pelo inconsciente a todo o instante.

Diante de tantas dúvidas, não sabemos bem para onde olhar. Mas há sempre algumas bússolas para nos guiar. Vejamos.

O vice do Corinthians falou ontem logo depois do episódio, mas o que ele falou, à luz dos fatos que se sucederam à declaração dele, foi apenas alienante. Zero razão. Muita convicção e desejo. Podemos desconsiderar.

VP falou na coletiva, mas não acrescentou à gravidade da situação.

Quem mais falou oficialmente sobre a acusação de racismo de Edenilson? Pessoas brancas.

Dirigentes, assessores, repórteres, narradores... nós, brancos, somos os rostos que aparecemos na TV e na mídia para falar sobre o caso. Nós somos os que ocupamos os cargos executivos no futebol.

O delegado era branco (pelas imagens da TV), os diretores dos clubes que explicavam o caso e foram ao vestiário falar com Edenilson são brancos (um deles, do Inter, usou a palavra "denegrir" para detalhar o episódio), imagens da zona mista que vi pelo Youtube por duas horas depois do fim do jogo me mostraram um salão cheio de pessoas brancas com microfones nas mãos e de algumas pessoas pretas operando câmeras e arrastando fios.

Ramos usou a palavra "macaco"? Não temos como afirmar sem a devida perícia. O que podemos afirmar é que o racismo, se a gente quiser ver, está bem na nossa cara. Está nessa branquitude que exala poder mesmo que nem uma palavra seja dita.

"Ah, mas eu não sou racista"

Somos. Nós somos racistas. Somos todos racistas.

Por um simples motivo: fomos criados para ser. E deixar de ser é um processo.

Um processo que passa por olhar em volta e enxergar quem são as pessoas falando na tela sobre racismo. Ontem eram pessoas brancas. Como quase sempre.

Na TV, Grafite foi o único rosto negro que eu escutei falando. E ele perguntou: Por que a palavra da vítima é sempre desacreditada?

Pois é.

Corpos brancos, assim como corpos masculinos, carregam racismos e machismos ao se apresentarem. São corpos violentos. É preciso que a gente entenda essa verdade e aja para que a violência de existirmos seja reduzida ao mínimo.

Como corintiana, esperava que ao time tivesse se manifestado oficialmente no sábado à noite depois do jogo. Pelo menos para confirmar a gravidade das acusações. Não para tomar lados, mas para dizer que racismo é grave, que racismo existe, que racismo mata, que racismo é inaceitável. Não tivemos isso.

Tivemos alguns silêncios convenientes. O Corinthians está se especializando em silêncios.

Silencia diante de graves acusações de violência sexual que teriam sido cometidas por um de seus jogadores, silencia como estratégia de marketing durante semana de clássico, silencia para celebrar Ogum, silencia para homenagear seus torcedores, silencia diante de uma grave acusação de racismo. O time do povo cala.

E, quando fala, fala pouco, fala manso e fala com o timbre de voz do opressor.

A voz de Edenilson contra a voz de Ramos. É o que temos. Não há nada além disso. E talvez não haja.

Tomem seus lados sabendo em que sociedade estamos inseridos, olhando em volta e percebendo qual a cor da pele das pessoas que falam oficialmente sobre o episódio, estudando nossa história e entendendo como viemos parar aqui.