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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: O Palmeiras e algumas coisas que o futebol ensina sobre a vida

Torcida do Palmeiras no Allianz Parque na final da Copinha 2022 - Marcello Zambrana/AGIF
Torcida do Palmeiras no Allianz Parque na final da Copinha 2022 Imagem: Marcello Zambrana/AGIF
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

27/01/2022 10h35

Não faz muitos anos eu lembro de estar no trânsito escutando uma dessas mesas redondas pelo rádio do carro quando um dos comentaristas perguntou aos demais se eles achavam que o Palmeiras ia virar time pequeno. A fase era mesmo péssima, essas "medições de tamanho de torcida" indicavam que as crianças estavam optando por serem são-paulinas ou corintianas, o Palmeiras perdia torcida, a coisa ia ladeira abaixo, não havia nenhum tipo de luz no fim do túnel. O ano? Não lembro. Chutaria 2012, mas minha memória não me garante nada, pode ser antes disso. O que sei é que era esse o debate.

Lembro também de conversar com meu amigo Nabil Cury, palmeirense apaixonado, pai de três outros palmeirenses maravilhosos, e de perceber a revolta que ele sentia pelo que entendia serem administrações capengas, desinteressadas, desapaixonadas. Homem de criatividade inigualável e de inteligência rara, Nabil passava boa parte do dia pensando em como poderia ajudar o seu Palmeiras. Escrevia cartas, mandava para o clube, apontava o que estava errado, indicava caminhos.

Corta para 2022. O Palmeiras vem voando, conquistando tudo o que passa pela sua frente, deixando seu torcedor sonhar mais alto e mais forte. É o que queremos dos nossos times, certo? O sagrado direito a seguir sonhando.

A história do Palmeiras - e de muitos outros times, claro - ensina que o sonho pode falar baixo, mas ele nunca se cala. Mesmo quando nada parece indicar que o jogo pode virar, uma hora o jogo vira. É o que nos mantém atentos e fortes diante do monitor e nas arquibancadas a cada novo domingo, a cada nova quarta-feira. O jogo virou magnificamente para o time de verde, para alegria de meu amigo Nabil. Hoje, crianças nascem bastante atraídas pelo campo magnético verde que se fez tão largo.

O que acontece com o futebol é que ele é um reservatório de afetos que circulam livremente a cada entrada em campo do time que amamos. Meu amigo Nabil foi embora antes de ver seu Verdão levar mais uma Libertadores e agora, toda vez que eu vejo o Palmeiras em campo, sinto de novo um carinho enorme pelo pai do Sergio, do Deco e do Kaká.

O curioso é que eu tenho a impressão de que, por mais que mais uma conquista da América pudesse tê-lo deixado feliz, seria com o título inédito da Copinha que ele de fato ficaria alucinadamente contente.

Um mundo sem Nabil é um mundo sem o comentário que só ele seria capaz de fazer com o título da Copa São Paulo. A gente busca meios para se conformar a esse mundo que não mais nos deixa acessar uma inteligência como a de Nabil. Tentar dar sentido ao absurdo deixa a gente bastante cansado, essa é a verdade.

Como corintiana, perdi uma das piadas que mais gostava no futebol, mas como fã de todos os filhos lindos do seu Nabil, tem uma parte de mim que fica feliz com a monumental virada de jogo que o time do meu amigo foi capaz de dar.

E agora no peito do Tom, neto tão querido, bate um coração palmeirense novinho em folha.